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Desiderius Erasmus recebe o Livro da Verdade (pormenor). Página de título de Desiderius Erasmus, Opera omnia, Leiden, 1703-1706. Imagem do Rijksmuseum, CC0, via Wikimedia Commons.

Livro com nova tradução

“O Elogio da Loucura”, de Erasmo de Roterdão, e a Europa

| 02/06/2024

Elogio da Loucura

Elogio da Loucura, de Erasmo

António Guimarães Pinto, mestre em Estudos Clássicos pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e doutor em Letras pela Universidade do Minho, atualmente professor de Língua Latina na Universidade Federal do Amazonas, em Manaus, oferece aos leitores portugueses aquela que se considera ser a primeira tradução diretamente do latim desta obra de Erasmo. Escrito de um fôlego (alegadamente, numa semana), este Elogio da Loucura, de leitura difícil, dado o seu grau de erudição, as suas metáforas inspiradas nos clássicos, o manejo hábil das Escrituras e uma ironia corrosiva, constitui uma crítica lúcida ao seu tempo, aos poderosos seus contemporâneos, incluindo o clero, posta na boca da personagem-loucura. Toda a obra é escrita como um monólogo da loucura acerca da realidade do seu tempo. Lá voltaremos…

Erasmo é também o acrónimo do programa de intercâmbio de estudantes existente na Europa desde 1987 (hoje, alargado a outros países também), pois que o mesmo, na língua inglesa, se intitula European Community Action Scheme for Mobility of University Students.(ERASMUS). Não se trata de uma coincidência. Na página oficial deste programa, refere-se que tal designação vai para além do acrónimo. Erasmo é invocado como “um académico de renome e um professor inspirador durante o período do Renascimento, que viajou por toda a Europa para ensinar e estudar numa série de universidades”. 

Dizia-me há dias uma pessoa amiga que, ao contrário do que acontecia no início do Erasmus, hoje, muitos estudantes que fazem um semestre ou dois fora do seu país ao abrigo deste programa, parecem ter tendência, no país que escolhem, para procurar antes de mais outros portugueses, perdendo-se um pouco uma das grandes riquezas desse programa que consiste na possibilidade precisamente de conhecer outras culturas, outros estilos de vida. Claro que esta afirmação é impressiva, não se baseia em estudos, mas é um comentário que já ouvi várias vezes. Que relação existe entre a evocação do duplo sentido do nome Erasmo/Erasmus esta impressão “gregária”, que parece contrariar o seu espírito, o Elogio da Loucura de Erasmo e a Europa? 

Comecemos pelo próprio Erasmo. Ele constitui um exemplo muito relevante do humanismo e do Renascimento. O conhecimento dos clássicos, associado a uma crítica feroz, esgrimida a partir da razão, acerca do estado dos poderosos no espaço europeu pelo qual vagueou, assim como um conhecimento profundo das Escrituras, fazem dele grande amigo de uma outra pessoa eminente da época – Thomas Morus – uma figura de referência como intelectual europeu. Diz Abbagnano, autor de uma conhecida História da Filosofia, que Erasmo se serviu da sátira e do sarcasmo para “pôr a nu a decadência moral do seu tempo e especialmente da Igreja”. Não de um modo negativo, mas de uma forma “positiva e evocadora”, que visava “reconduzir a vida humana à simplicidade e à pureza do cristianismo primitivo” (Nicola Abbagnano, História da Filosofia, vol. V, Lisboa: Editorial Presença, 1978, p. 189). No caso do Elogio da Loucura, a sua crítica radical e até violenta aos tempos em que viveu, é enunciada pela Loucura. A obra fez furor no seu tempo: escrita em 1511, já contava com 48 edições em 1532, e com cerca de 66 no final do século XVI. Mas hoje continua a ser de uma atualidade espantosa. 

Desiderius Erasmus recebe o Livro da Verdade. Erasmo está sentado numa mesa do seu escritório, quando um anjo lhe traz o Livro da Verdade. À direita, uma referência à sua obra mais famosa, Elogio da Loucura: um homem com capuz anda pela rua, com uma criança pequena no braço e um rato na mão. Ele é seguido por um grupo de pessoas. Página de título de Desiderius Erasmus, Opera omnia, Leiden, 1703-1706. Imagem do Rijksmuseum, CC0, via Wikimedia Commons.

 

A forma corrosiva como denuncia os excessos dos poderosos, quer do ponto de vista político, quer do ponto de vista económico e religioso (sendo ele clérigo, mais tarde dispensado, a sua crítica a Roma e ao clero é tão radical como a de Lutero, com o qual, contudo, Erasmo não se identifica), poderia ser escrita hoje por “radicais” de todos os quadrantes – ouso dizer. É de acordo com a vontade da Loucura que “se decidem as guerras, as pazes, os governos, as deliberações, as questões, as eleições, os casamentos, os pactos, as alianças, as leis, as artes, os divertimentos e as coisas sérias (…), numa palavra, todos os assuntos públicos e privados dos seres humanos” (p. 44). 

Diz a Loucura mais adiante, agora a propósito dos políticos: “que existe de mais louco do que um candidato lisonjear, numa postura de grande humildade, o povo, comprar-lhe o voto mediante presentes, andar à caça dos aplausos de tantos loucos, sentir prazer ao ver-se aclamado, ser levado em triunfo como uma espécie de bandeira que o povo contempla, ter erguida na praça pública uma estátua de bronze? Ajunte-se a isso a adoração de títulos e cognomes. Ajuntem-se as honras divinas prestadas a um pobre homem; ajunte-se, nas cerimónias públicas, prestar-se até aos tiranos mais criminosos aquelas honras que se prestam aos deuses. (…) É esta loucura quem gere a cidade, nela assentam os poderes, as magistraturas, a religião, as deliberações, os julgamentos e toda a existência humana não é ao cabo de outra cousa senão uma espécie de brincadeira da loucura” (p. 81). 

Dizia eu que o Elogio da Loucura é uma obra de extrema atualidade. Não foi por acaso que escolhi este trecho para falar desta obra que nos chega, agora, traduzida por mão erudita. Não foi por acaso que mencionei o Programa Erasmus. Não foi também por acaso que referi aquilo que parece ser uma dificuldade crescente e ao arrepio do que seria previsível, de uma vontade de “estar com ‘os seus’”, distinguindo-os dos outros, que não se tem vontade de conhecer, que não são vistos como membros de uma mesma família humana. Dia 9 de Junho, temos eleições europeias: a percentagem de votos costuma ser de uma irrelevância angustiante. Há vozes ditas “anti-sistema” que criticam tudo e todos, numa vertigem corrosiva. O que tem tudo isto a ver com Erasmo e com o Elogio da Loucura? Tem tudo a ver. É que Erasmo não faz a sua crítica a partir do nada. A sua perspetiva não é niilista: é culta, erudita, baseada em fontes, num humanismo que acredita no melhor do ser humano, em convicções (religiosas, no seu caso) de que, apesar de toda a podridão que ele denuncia, é possível, é desejável, manter a amizade com Thomas More, o autor da Utopia. Como dizia Jesus: “Quem quiser entender, que entenda”!

Elogio da Loucura, de Erasmo de Roterdão
Tradução do latim de António Guimarães Pinto
Edições 70, 240 páginas

 

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