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Viver poesia

| 04/07/2019

Viver poesia

by | 4 Jul 19 | Entre Margens, Últimas

“Si acaricio demasiado mis palabras
no tendré tiempo
de besar a mi hijo
ni de hablarle con mis ojos
ni con mis brazos de nido
Por eso callo
y en vez de escribir poemas
vivo poesía.”

Luis Cruz-Villalobos, Poesía Pequeña y en Poemas (1996)

 

Ser pai não é melhor do que ser poeta. Ou antes, é uma outra forma de o ser, porventura mais genuína e útil. Pode-se fazer Poesia escrevendo-a, mas o melhor de tudo ainda é vivê-la.

Creio que a ideia do meu colega e poeta chileno Luís Cruz-Villalobos é que, mais importante do que escrever poesia, é vivê-la. Poderíamos dizer o mesmo das artes em geral. Mais importante do que produzir arte será viver de forma harmoniosa, o que não é, de todo, o que nos relata a história da arte, já que muitos dos génios da música e da pintura, por exemplo, viveram vidas miseráveis, apesar de terem produzido obras-primas ainda hoje admiradas em todo o mundo.

Há quem teorize que o sofrimento é o verdadeiro catalisador da capacidade artística, o que me parece uma perspectiva muito discutível, demasiado negativa e eivada de fatalismo. Por outro lado, se os estados de alma influenciam certamente o autor do produto cultural de forma a deixar esse rasto nas suas obras, também é verdade que sem engenho, dedicação, esforço e trabalho não há inspiração nem capacidade realizadora que resistam.

O que o trecho do poema em epígrafe sublinha é que a relação humana, neste caso a parental, não pode ser substituída pela arte ou pela literatura. Ser pai é uma função muito mais bela e importante do que ser poeta. Mas tal princípio aplica-se igualmente a qualquer outra actividade humana, por mais nobre que seja. Quantos profissionais liberais, altos quadros de empresas e até líderes religiosos perderam a família, e sobretudo os filhos, por se dedicarem excessivamente à sua actividade?

Beijar um filho pequeno não é substituível pelo acto de lhe colocar comida na mesa. Nem “falar-lhe com os olhos”, nem tão pouco apertá-los nos braços fazendo-o sentir seguro no ninho. Digamos que providenciar sustento aos filhos é uma obrigação e um dever, mas expressar-lhes ternura e fazê-los sentir seguros e amados é qualquer coisa que se situa muito acima da contabilidade dos direitos e deveres. Remete para outra dimensão, que ultrapassa a mera parentalidade para entrar numa verdadeira relação de paternidade.

A paternidade requer proximidade – mesmo quando se está longe –, mas também afecto, atenção, tempo e preocupação com a formação do carácter, isto é, a transmissão de princípios de vida e valores sãos, que façam os nossos filhos respeitarem-se a si mesmos e aos outros em qualquer tipo de relações que venham a desenvolver ao longo da vida.

Já Platão dizia: “Não deverão gerar filhos quem não quer dar-se ao trabalho de criá-los e educá-los.” E como não é possível criar bem um filho sem amor, quem não tem amor para dar a um filho não devia tê-lo trazido ao mundo, pois cada criança tem o direito, a expectativa natural e a necessidade de se sentir amada. Os filhos não são troféus nem objectos decorativos numa relação, nem tão pouco a mera satisfação e realização dos avós. São seres humanos, têm vida, personalidade e sensibilidade próprias e únicas.

Shakespeare sabia disso: “É um homem sábio o que conhece o seu próprio filho.” Os nossos filhos não são comparáveis a outras pessoas, necessariamente diferentes deles, mesmo que comunguem da mesma idade ou outras características semelhantes. Goethe pensava que não se devem moldar os filhos de acordo com os nossos sentimentos: “devemos tê-los e amá-los do modo como nos foram dados por Deus.”

Os pais de hoje parecem mais interessados em submeter os filhos a uma permanente tensão competitiva do que em senti-los e sabê-los felizes. Já não basta, como diz Galopim de Carvalho, que a escola esteja “a amestrar crianças para passarem nos exames”, como se isso fosse coisa mais importante do que deixá-los ser felizes, ensiná-los a lutar pelos seus sonhos e ideais, e desenvolverem as competências mais adequadas ao seu perfil, encontrando assim a sua vocação na vida.

O amor não é propriamente um dever. É muito mais do que isso. Segundo Steve Jobs, ter filhos muda a maneira como vemos as coisas: “Nascemos, vivemos por um breve instante e morremos.”

E no intervalo, resta-nos viver Poesia.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na Visão Online.

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