AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Ilustração © Catarina Soares Barbosa.

[Todo o dia é véspera]

a finalidade intrínseca

a finalidade intrínseca[1] da vida
será o seu termo,
prosaico, por certo, e sem glória,

a da paz, a guerra, claro,
e o seu deslumbre, a terra
decepada.

a da ciência, disse o ministro, a inovação,
i.e., a rentabilização empresarial dos seus resultados
de outro modo inúteis.

inúteis e escusos: quem quer saber de explicações
se os mercados oscilam? o PIB sem emenda?

a ciência, recordou o homem, é um enfado,
a cultura, um gasto,
a literatura, um desperdício.
cada teoria, afinal, uma arrogância,
cada conjectura, um devaneio,
as demonstrações não se lêem,
a filosofia, um exercício inútil.

e, no entanto, repete entusiasmado,
há tanto a esperar de vós, ó gente do saber!
sobretudo se souberem cada vez menos
focando-vos no que excita a volúpia
de quem paga.

não imaginem, pois, não formulem, não demonstrem,
não desperdicem fundos públicos no que não multiplica ócios privados,
não gera investimento, não consolida
contas.

(quem vos suportará a reforma depois de tantos anos
a meditar no voo das libélulas?)

e estejam descansados. nada muda,
nem nos vossos títulos
(académicos)
nem nos nossos
(no mercado de futuros):
apenas se articularão melhor.

além disso, como sempre, cuidaremos do cenário:

o teorema de Stone, em holograma, no jantar dos empreendedores, fará furor.
o de Weierstrass no formulário dos fundos, um toque de exotismo.
uma equipa de comunicação acrescentará o necessário brilho.

a tabela periódica pode ilustrar a extracção de lítio pela calada da noite.

(desculpem, sei que o lítio vos perturba, mas sosseguem:
um parecer inovador não tem de ser exacto,
em rigor, basta que seja ligeiramente obscuro,
e, acima de tudo, instrumental. para isso sereis pagos.)

mas há mais.
o potencial inovador da sobreposição quântica é particularmente excitante:
o trabalhador existe e não existe, em simultâneo,
ou melhor, o trabalho existe, os direitos não,
ideia que o governo tem proposto, mas que vem de trás:
como se recordarão, foi do Schrödinger, nos anos 30,
a física dizia-lhe pouco,
mas motivava-o imenso a flexibilização do mercado laboral.

de resto, nada nos move contra o Nobel.
o prémio tem o seu mediatismo, e convenhamos, por vezes, alguma relevância.
a relatividade, por exemplo,
se começou mal,
pura especulação de um funcionário do registo com contrato a termo,
acabou por consolidar a geopolítica:
deslocando Gaza à velocidade da luz, afirma a teoria,
o genocídio prosseguiria lentamente,
séculos a fio,
para regozijo dos colonos e perpetuação do sionismo.

o ministro está nervoso:
mesmo p’ra ele, falar de Gaza é um tropeço.

pigarreia alto.
pressente vagamente a não linearidade do cosmos
e o efeito caótico das variações mais ínfimas.

no telemóvel consulta as cotações das farmacêuticas,
em que investiu,
e percebe que, apesar de tudo, o mundo caminha no sentido certo:
há muito que ninguém investe na erradicação da malária.

nem da pobreza.

a inovação, explica, é precisamente isso:
saber escolher as doenças com maior retorno.

sobretudo aquelas que nem doenças são,
mas incomodam:
a dissolução da idade,
uma assimetria na vagina,
a resistência do esófago às mutações da alma,
ou ao seu comércio.

 

[1] A “finalidade íntrinseca” do investimento em ciência, esclareceu o primeiro-ministro, Luís Montenegro, na abertura Encontro Ciência e Inovação 2026, a 15 de Julho, é “a aplicação na realidade económica e empresarial do conhecimento”.

 

Luís Soares Barbosa ( luissoaresbarbosa.comé professor na Escola de Engenharia da Universidade do Minho e autor, entre outros, de a poesia vende pouco (2023) e meu nome é ninguém (2025), ambos na Officium Lectionis. 

Esta rubrica toma de empréstimo um verso de Guimarães Rosa: todo o dia é véspera, para estes “pequenos poemas da nossa circunstância” ( https://setemargens.com/a-nossa-circunstancia-em-pequenos-poemas-mensais-de-luis-soares-barbosa-no-7margens/ )  e é publicada aos dias 24/25 de cada mês, assinalando a data da implantação da democracia em Portugal.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Vinte e cinco anos depois

7Partidas

Vinte e cinco anos depois novidade

Em 2001, vivíamos em San Francisco. Naquela segunda-feira, dia 11 de Setembro, fomos acordados pelo meu sogro, que nos ligava da Alemanha para avisar que os EUA estavam a ser atacados. Em San Francisco era ainda madrugada; em Nova Iorque passava das nove da manhã, e as duas torres já estavam a arder. [Texto de Helena Araújo].

Rússia acusada de enviar à força cidadãos estrangeiros para combater na Ucrânia

Relatório divulgado hoje

Rússia acusada de enviar à força cidadãos estrangeiros para combater na Ucrânia novidade

A Rússia tem recorrido a “práticas enganosas, coercivas e exploradoras para recrutar cidadãos estrangeiros para as suas forças armadas e enviá-los para combater na Ucrânia”, afirmou a Amnistia Internacional num relatório publicado hoje, dia 10 de setembro. No comunicado enviado à redação do 7MARGENS a organização adianta que tais práticas constituem, em muitos casos, “uma violação dos direitos humanos e um crime de tráfico de seres humanos”.

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This