“a minha pátria é a língua portuguesa.”
duas assoalhadas, a renda moderada,
serviam melhor.
uma que fosse, num subúrbio qualquer,
a menos de duas horas do emprego,
se emprego houvesse,
com vista sobre o aterro sanitário
ou as antiquíssimas procissões dos cães.
ao contrário do que os poetas asseguram,
a língua não me hospeda, não dá tecto,
nem me aquece no inverno.
não paga contas, a língua.
não faz que água jorre das torneiras,
nem ilumina a noite em que perduro,
a vida sem saída.
em rigor, tem serventia escusa:
não cuida dos meus filhos,
não estende uma manta onde te amar.
nós é que lhe damos viço, algum furor até,
se a madrugada insiste sobre a pele.
emprestamos-lhe voz, propósito,
a declinação subtil das esdrúxulas.
de tanto a usar, cola-se-nos às mãos,
cresce connosco, ilude-se,
por vezes, é um sopro incandescente.
em outras ocasiões, definha, não tem médico,
esquece sílabas, nomes, certas frases
com que se redimia, venturosa.
frequentemente desiste,
não tem onde ficar, morre connosco.
é, como nós, um dano colateral.
Luís Soares Barbosa ( luissoaresbarbosa.com) é professor na Escola de Engenharia da Universidade do Minho e autor, entre outros, de a poesia vende pouco (2023) e meu nome é ninguém (2025), ambos na Officium Lectionis.
Esta rubrica toma de empréstimo um verso de Guimarães Rosa: todo o dia é véspera, para estes “pequenos poemas da nossa circunstância” ( https://setemargens.com/a-nossa-circunstancia-em-pequenos-poemas-mensais-de-luis-soares-barbosa-no-7margens/ ) e é publicada aos dias 24/25 de cada mês, assinalando a data da implantação da democracia em Portugal.










