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À Margem_Manuel Pinto

Sínodo, agora, é em Roma… que aqui já acabou

| 20/06/2024

À Margem_Manuel Pinto

Quem acompanha a vida da Igreja Católica, por envolvimento direto ou por simples atenção à vida institucional de um dos atores mais relevantes da cena nacional e internacional, não deixará de fazer estas perguntas: em que vai, afinal, desembocar o esforço reformador do atual Papa, sobretudo com o processo sinodal que lançou em 2021? Que se pode esperar daquela que já foi considerada a maior auscultação de pessoas alguma vez feita à escala do planeta?

Como é sabido, a segunda sessão do Sínodo, na sua fase universal, vai decorrer em Roma, em outubro próximo. As expectativas são grandes, atendendo à amplitude de áreas e temas que emergiram da primeira fase, como facilmente se apercebe quem ler o documento-síntese dessa fase.

O Papa Francisco já se encarregou de criar uma dinâmica paralela de estudo e reflexão em torno de cerca de uma dezena de temas complexos, ou mesmo ‘quentes’ e ‘fraturantes’, que os participantes da primeira sessão, em outubro de 2023, consideraram requerer mais aprofundamento. Os grupos em torno desses temas estão a trabalhar em dinâmica sinodal e em articulação com os dicastérios da Cúria Romana, e deverão apresentar um ‘ponto de situação’ a ser considerado durante a segunda sessão; mas o relatório final com os resultados só em meados de 2025 será entregue.

Sobre este desfasamento de calendários, cabe notar que os temas que estão a ser tratados em grupos de estudo podem voltar a ser objeto de reflexão na aula sinodal, mas não serão provavelmente objeto de votação. Fica-se, assim, com perguntas sobre o que acontecerá com os resultados desses grupos, depois de serem apresentados. Será que o caminho adotado pelo Papa não significa um certo esvaziamento da assembleia sinodal e do Sínodo dos Bispos? Que irá fazer Francisco com os estudos que pediu e pôs em campo? Será que a segunda sessão da assembleia sinodal poderá adotar, em sintonia com o Papa, modalidades de acompanhamento e concretização das conclusões dos grupos de estudo?

Seja como for, se, dessa assembleia de outubro, não resultarem orientações e decisões substantivas e concretas relativas às múltiplas facetas da comunhão, participação e missão, que vão ao encontro das preocupações e propostas das consultas que foram feitas aos membros da Igreja no plano local, a deceção será previsivelmente elevada.

Assembleia do Sínodo 2023

Trabalhos de grupo durante a primeira assembleia geral do Sínodo, em 2023. A segunda está agendada para o próximo mês de outubro. Foto © Vatican Media

Um ponto crítico e sintomático tem que ver com a desclericalização e ‘desmasculinização’ da vida da Igreja a todos os seus níveis e, correlativamente, a assunção de uma efetiva igualdade de todos os batizados e batizadas, na assunção de responsabilidades e ministérios nas comunidades e estruturas eclesiais.

Reconhecendo que certas decisões carecem de tempo para amadurecimento e para testagem, há certamente caminhos para avanços a título experimental e local, respondendo às necessidades e expectativas de contextos eclesiais específicos, que estão longe de serem todos iguais (veja-se, a este propósito, as conclusões do Sínodo Extraordinário sobre a Amazónia).

Entretanto, é necessário dizer que, para se ser uma Igreja em processo sinodal não tem que se estar “à espera de Roma”. A não ser que se queira (continuar a) ser uma Igreja de vida estacionada ou cumpridora dos mínimos que se lhe impõem, mas que não ousa sair da sua zona de conforto.

Das sínteses diocesanas e nacional, que resultaram dos dois tempos de auscultação das comunidades e grupos cristãos, há muita matéria que pode ser agarrada desde já, que depende apenas da iniciativa de quem lidera e dinamiza as comunidades.

Mas se os responsáveis da Igreja tomarem o Sínodo como mais uma tarefa, a que há que responder, quando Roma fica à espera de respostas, então para esses o Sínodo acabou. Ficarão, agora, outra vez, à espera do que os de Roma mandarem, porventura murmurando que esses, lá onde estão, não conhecem os condicionalismos de quem se mata a cumprir o seu dever.

Ninguém nasce formado em sinodalidade e só se avança caminhando e pondo a sinodalidade em prática. Como ir ao encontro dos marginalizados e sem voz, não necessariamente para lhes vender uma doutrina, mas para os conhecer melhor e com eles fazer um caminho de aprendizagem e de partilha? Como mudar a vida e iniciativas da Igreja de forma a tornarem-se mais abertas e acolhedoras dos que andam em busca de apoio ou de sentido? Como trazer os dramas e sonhos desses encontros e percursos para as celebrações e para as homilias, de modo a “aquecer o coração” das pessoas?

Regressando às questões do início, o programa de reforma que Francisco vem fazendo e para o qual convida e desafia “todos”, nunca será bem sucedido se for um processo de cima para baixo. Só os que estão na base – todas e todos os batizados – podem garantir esse sucesso. Para isso, é preciso acordar, descobrir o caminho no partir do pão, ter sonhos e desejos.

Como dizia o Papa, na homilia da Epifania de 2022, “é triste quando uma comunidade de crentes já não tem desejos, arrastando-se, cansada, na gestão das coisas, em vez de se deixar levar por Jesus, pela alegria explosiva e desinquietadora do Evangelho”.

 

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