
Jorge Costadoat: O clero não é formado para “interagir com o laicado”, diz o teólogo. Foto © Faculdade de Teologia-uc
“O clero é o obstáculo número um à sinodalidade” porque “não quer perder o poder”, considera o teólogo e padre jesuíta chileno Jorge Costadoat, numa entrevista de fundo publicada pelo site do Instituto Humanitas da Unisinos, na qual defende também uma “dessacerdotalização” da Igreja Católica, no contexto pós-sinodal.
“Na Igreja, afirma o padre, não pode haver um estado como o clerical que se escolhe a si mesmo e faz com que o resto do Povo de Deus participe muito pouco do governo da sua Igreja. Porque é que os católicos não escolhem as suas autoridades, os bispos? Não é certo que existam comunidades que tenham de suportar padres despóticos durante anos”.
Por isso é que, segundo ele, é necessário aperfeiçoar mecanismos de accountability [prestação de contas], ou seja, “instâncias de responsabilização e controle do exercício do poder”. Isso terá de passar por mudanças no direito canónico, mas não só. “mudanças canónicas são necessárias”, mas isso “não será suficiente, se o clero não quiser observar as regras do jogo; e, digamos a verdade, o clero é o obstáculo número um à sinodalidade. Ele não quer perder o poder”.
Um fator que se reveste de importância, nesta matéria é a atenção à formação dos presbíteros, uma vez que, segundo o teólogo, o clero não é formado para “interagir com o laicado”. E, acrescenta, “a reforma da formação do clero do Vaticano II fracassou”, uma vez que a Igreja regressou ao modelo do seminário preconizado pelo Concílio de Trento [1545-1563], que “que era válido há 500 anos, [mas] já não funciona mais hoje, e que ele carateriza deste modo: “seminaristas formados entre quatro paredes, representantes do sagrado e adestrados para recordar liturgicamente o sacrifício de um inocente, separados do resto dos cristãos e supostamente superiores em dignidade e santidade”. Ora, faz notar o teólogo chileno, “a Igreja nunca será sinodal enquanto for governada pelo ‘homem sagrado’”. É que o Concílio Vaticano II [1962-1965], “retornou às origens: a identidade dos sacerdotes é distinguível, mas não separável da identidade dos leigos, pois o fundamental é ser cristão, ter sido batizado, e a única razão de ser do ministério ordenado é o serviço de atualização do sacerdócio comum dos fiéis e de reger as suas comunidades”, explica o teólogo.
O entrevistador recordou um artigo recente de Jorge Costadoat, na revista Seminários, intitulado “‘Desacerdotalizar’ o ministério presbiteral: um horizonte para a formação dos seminaristas”, pedindo-lhe que explique o que entende por des-sacerdotalização, seu fundamento teológico e possíveis consequências dessa proposta.
O teólogo começa por clarificar que não espera que as mulheres venham a ser ordenadas. “Corremos o risco de duplicar o problema”, explica. “Seria ainda pior se as mulheres quisessem ser uma [presbítero] por uma questão de mérito e se juntassem à casta daqueles que têm uma ‘vocação’”.
Quanto ao artigo, a ideia era que, “ao longo dos séculos, o ministério das lideranças das comunidades se sacralizou de uma forma estranha à simplicidade desejada por Jesus para quem deveria realizar um serviço deste tipo”, afirma o jesuíta. E desenvolve:
“O Vaticano II, no decreto Presbyterorum ordinis, quis colocar as coisas no seu devido lugar. Ele deu aos ministros a missão prioritária de anunciar o Evangelho. Para tanto, ele reordenou os tria munera (os três serviços ministeriais) nesta ordem: profeta (da Palavra), sacerdote (dos sacramentos) e rei (liderança ou governo). Além disso, ele queria que os ministros fossem chamados presbíteros como se fazia na antiguidade e não sacerdotes (palavra que nunca é usada no Novo Testamento para ministros e que, por outro lado, deixa a porta aberta para reeditar o sacerdócio do Antigo Testamento que, de acordo com o Fardo sobre os Hebreus, Jesus revogou)”.
O que aconteceu, sublinha Costadoat, é que “poucos anos após a sua promulgação, esta reforma tão importante foi deitada ao lixo. Já o primeiro documento importante sobre a formação do clero, em 1970, cinco anos depois do Presbyterorum ordinis, chamava-se Ratio Fundamentalis Institutionis Sacerdotalis. As Ratio nacionais seguiram esse padrão até hoje. Em poucos anos voltamos ao ‘homem sagrado’ que inspira o medo sagrado, que estabelece distâncias com o mundo e as pessoas, que se veste de maneira diferente, que carrega na sua psique uma cisão entre a perfeição que deveria representar e a imperfeição que esconde”.
A entrevista foca ainda outras matérias, nomeadamente o problema dos abusos de clérigos na Igreja do Chile, a questão da confissão auricular, a ordenação de mulheres para ministérios ordenados e sobre as atuais mudanças na Igreja.
Nota – O português do Brasil do texto original foi pontualmente adaptado.










