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Um busílis sinodal

| 28/11/2024

São Paulo Escrevendo as Epístolas, obra atribuída a Valentin de Boulogne. Museum of Fine Arts, Houston. DR.

 

A inspiração sinodal do Papa Francisco ecoou pelo mundo cristão como um verdadeiro sopro do Espírito, capaz de converter uma Igreja muito sentada na rotina, voltada para si mesma, como instituição detentora de verdades inabaláveis e de poder assegurado, mas abalada por inesperados escândalos e por exigências de um tempo em profunda convulsão.

A sinodalidade é a forma mais natural de agregação e de desenvolvimento pessoal e coletivo. No convívio e no confronto direto, face a face, sobre o que pensamos, sobre como nos comportamos, pretendemos reconhecer-nos e ajudar-nos, mutuamente, a superar as mútuas debilidades e contingências. Até para objetivos mundanos, é uma forma de trabalho de alta eficácia.

Pelo testemunho do apóstolo Paulo, nas suas epístolas, particularmente nas suas sete autênticas, sabemos que era assim, sinodalmente, o modo de funcionar das comunidades cristãs originárias. Agregavam-se em convívios, mais que celebrativos, em aprendizagem mútua de como viver e crescer na Fé e na prática de vida cristã. O seu objetivo era o de modelar os seus comportamentos pelos critérios evangélicos, testemunhados pelos apóstolos, evitando envolver-se em polémicas teológicas, ou discutir formas de organização. A natural comunicação entre comunidades criava  redes de comunicação sinodal, uma forma original, não hegemónica, de organização, onde, fraternalmente, pelo Espírito, surgiam os carismas necessários para as funções necessárias.

A Fé daquelas comunidades fundamentava-se em factos, testemunhados pessoalmente, sobre a pessoa de Jesus, sobre o que Ele dissera e o que Ele fizera. Não se fundamentava em teorias. Essas comunidades transmitiram-nos os Evangelhos, onde esses factos nos são testemunhados, ainda que à sua maneira, por vezes, com alguma idealização. Elas nos disseram, pelo escrito de Lucas, como seria o Reino que Jesus instituía, o Reino a que queremos pertencer:  «Os fariseus perguntaram a Jesus quando chegaria o Reino de Deus. Jesus respondeu:” O reino de Deus não vem ostensivamente. Nem se poderá dizer: “está aqui” ou “está ali”, porque o Reino de Deus está entre vós» (Luc.17,20). A sinodalidade deve ser para nos integrar, em verdade, nesse Reino.

Não poderá dizer-se que o Reino não esteja também no interior da Igreja. Mas uma Igreja de ostentação política, hierárquica, segregadora e moldada pelas formas administrativas do poder de um Estado, segundo modelos mundanos de poder político-administrativo, não sinaliza o perfil do Reino. O cristianismo, pela Igreja, cedo perdeu a sinodalidade originária e a sua capacidade de converter o coração das pessoas e das sociedades. Entre polémicas teológicas e hegemonias de poder, nas mãos de letrados e prestigiados pontífices, a Igreja fechou-se em “sínodos dos bispos”.

O Papa Francisco teve a evangélica inspiração de querer devolver o espírito sinodal a todos, todos, todos. Pela oportunidade inicialmente oferecida à generalidade dos cristãos, para se pronunciarem sinodalmente, pareceria que o espírito sinodal, ainda que sob controlo clerical, seria, efetivamente, devolvido a todos os cristãos. Não lhes faltaria capacidade e maturidade para sinodalizar sobre a sua vida cristã, no interior da Igreja, se esta lhes proporcionasse condições de autêntica partilha, autónoma e permanente, sem necessidade de especial formação para “sinodalizar”. Não foi o que aconteceu. Todo o processo decorreu e decorrerá sob o domínio clerical e da sua hegemonia, que resiste a pôr-se em causa, e resiste a considerar o povo de Deus, mulheres e homens, capaz de ser cristãmente adulto.

Mulheres, Sínodo, Sinodalidade, Igreja Católica

Mulheres participantes no Sínodo sobre a sinodalidade, 7 Outubro 2023, à saída de uma das sessões da assembleia. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

O Papa teve a liberalidade de nomear algumas dezenas de cristãos não clérigos, e de, entre eles, eleger algumas mulheres eminentes, para participarem ativamente no Sínodo. Para a sua fase final, teve a liberalidade de lhes conceder direito de voto, mas sem quebra da regra dos dois terços canónicos exigidos pelos “sínodos dos bispos”. O sínodo era e continuará a ser, efetivamente, uma reserva da hegemonia clerical. Esta pretende criar uma “cultura sinodal”, extensiva a todos os seus níveis estruturais. Sob o controlo clerical apenas se cria um modelo mais moderno de funcionamento da hegemonia eclesiástica. A forma continuará a dominar o conteúdo da relação sinodal das pessoas. Continuaremos a ter mais Igreja que Reino.

Porém, algo aconteceu no processo sinodal que o perturbou profundamente, como  um busilis sinodal: o tema e problema que o Sínodo pôs de lado, relativo ao diaconato das mulheres. Para o Papa Francisco, «neste momento, a questão do diaconato feminino não está madura». Com toda a razão, o Papa está mais preocupado em saber qual deva ser o papel da mulher na Igreja. Mas, serão os teólogos e os bispos, homens, que hão-de descobrir o papel a ser desempenhado pelas mulheres na Igreja? – Antes, porém, tem de saber-se qual o fundamento cristão para se diferenciar o papel dos homens do das mulheres. A questão vai permanecer como embaraço sinodal, pondo à prova os preconceitos humanos e teológicos, pilares da hegemonia clerical, que não deixam ver na Igreja o perfil não ostensivo do Reino.

Os preconceitos clericais sobre a questão do papel das mulheres na Igreja ficaram muito claros num testemunho do cardeal Fernandez, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, numa entrevista, no Vaticano, a 24 /10 / 2024. Confessou o cardeal que, segundo uma sugestão papal, contida na sua “Querida Amazónia”, tinha sido sugerida às conferências episcopais a concessão de uma certa forma de ministério às mulheres que, na ausência de padres, liderem comunidades, como forma de autoridade que não requere a ordem sacra, sugestão que raramente foi aceite. Confessou ainda que o ministério de acólito já concedido às mulheres, só em pequena percentagem foi concedido e «muitas vezes são os padres que não querem apresentar as mulheres ao bispo para este ministério». O cardeal confessava que já haviam sidos abertas possibilidades de ministérios de promoção das mulheres não aproveitadas pelas igrejas locais. Pela linguagem utilizada, parece que para o Cardeal Fernandez a questão do diaconado das mulheres era uma questão de “promoção”, que resolveria a exigência de “algumas mulheres”, mas não a dos “milhões de mulheres na Igreja”.

A raiz do embaraço surge no pedido do Papa para que «se explorassem as possibilidades de desenvolvimento [do papel das mulheres] sem se concentrar na ordem sacra». O problema está na ordem sacral e sacramental atribuída (por teologia ou por misogenia?) apenas aos homens, excluindo as mulheres. Sem fundamento, nem no Novo Testamento, nem na originária tradição apostólica, não é possível justificar o pressuposto de duas ordens, uma ministerial sacra (sacerdotal e sacramental) e outra não-sacra (laical), sendo aquela exclusivamente masculina. O busilis está pois, entre a injustificável segregação das mulheres, a erosão da dogmática e a misogenia clerical. Cristãmente, é mais viável e justa a erosão dogmática do que o escândalo da segregação das mulheres. A erosão dogmática parece inevitável ante os originários testemunhos apostólicos, em que a ordem sacerdotal (de Melquisedec) é reservada só para Jesus «que não precisa…de oferecer diariamente sacrifícios…oferecendo-se a si mesmo, fez isso uma só vez por todos» (Heb.7,27). «Ele entrou de uma vez por todas no santuário…com o seu próprio sangue, depois de conseguir para nós uma libertação definitiva» (Heb.9,12). Por Ele, «pedra viva rejeitada pelos homens», nós todos – povo de Deus – podemos ser «pedras vivas…formando um sacerdócio santo, destinado a oferecer sacrifícios espirituais que Deus aceita por meio de Jesus Cristo» (1Ped.2,4-5), tornados «raça eleita, sacerdócio régio, nação santa, povo adquirido por Deus, para proclamar as obras maravilhosas d’Aquele que vos chamou das trevas para a sua luz maravilhosa, vós que não éreis povo, agora sois povo de Deus» (1Ped.2,9-10). Além desta ordem sacerdotal comum, nenhuma ordem sacerdotal ministerial foi instituída por Jesus, nem pelos seus apóstolos. É na ordem sacerdotal comum que todos, todos, todos, mulheres e homens, sinodal e fraternalmente, temos de pertencer ao Reino, evangelizando-nos uns aos outros e evangelizando uma longa história de cristianismo ostentatório de poder.

A inspiração sinodal é uma necessidade para o mundo revolto que nos espera, em que as instituições de domínio e de poder (qualquer que seja) serão profundamente abaladas. Como estaremos nós, cristãos, capazes de testemunhar o “viver cristão” no mundo revolto que nos espera? A história da Igreja, em épocas de grandes crises institucionais, não mostrou o verdadeiro perfil do Reino. Poderíamos recordar muitos desses maus momentos. A Igreja, desde Constantino, nunca foi capaz de se desprender dos perversos conluios políticos, da ostentação e da materialidade representativa de que eles necessitam e que não se conformam, de todo, com o perfil evangélico do Reino.

Lembremos, apenas, um caso. Em 1870, a perda dos Estados Pontifícios pareceria um sinal de Deus para a conversão da Igreja. A Igreja não o entendeu. Teve de reconquistar, ainda que colaborando com um regime declaradamente fascista, o seu diminuto Estado. E, como Estado, tem convivido, ambiguamente, com os poderes mais perversos. Converteu o mundo, assim? Porque lhe foge o povo, quando se esclarece e se autonomiza?

Na loucura destes tempos, não é pecado pensar em como reagiria a Igreja, se alguma loucura política tivesse interesse em vandalizar os seus centros de poder, os seus espaços litúrgicos e representativos, e dispersar os seus dignitários. Historicamente, não seria a primeira vez. Hoje seria mais fácil que outrora. Hoje, a tragédia teria um sentido mais profundo e consequências mais devastadoras. A Igreja seria capaz de se converter e reduzir ao modesto perfil do Reino, ao sacerdócio comum? A sinodalidade de todos, se autêntica, seria, certamente, o sinal mais vivo desse sacerdócio, da presença do Reino e da presença do seu Senhor entre nós.

 

José Veiga Torres, nascido e batizado na paróquia de Santa Maria Maior, da cidade de Viana do Castelo, a 30 de Agosto de 1930, reside em Coimbra; foi professor universitário e é autor do livro Desafio aos Cristãos e a outras gentes – da “condição humana” para a vocação humana. Contacto: joseveigatorres@sapo.pt

 

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