
Destruição no noroeste da Síria: número de deslocados continua a aumentar. Foto de arquivo © Médicos do Mundo
Milhares de pessoas foram deslocadas na Síria devido aos confrontos entre rebeldes e forças sírias, em resultado do rápido avanço de grupos islamistas nos últimos dias. “Os números que temos são de 280 mil pessoas desde 27 de novembro”, referiu Samer AbdelJaber, diretor da coordenação de emergências do Programa Alimentar Mundial (PAM).
Líderes cristãos na Síria encontram-se alarmados com os avanços dos grupos armados jihadistas. Estes avanços incluem a conquista da segunda maior cidade síria, Alepo, no final da semana passada, e de Hama, a quarta cidade, na quinta-feira, 5 de dezembro. Já este domingo, depois de publicado este artigo, a capital, Damasco, também foi tomada pela coligação de rebeldes, liderada por Abu Mohammad al-Jolani, o líder do grupo islamista Hayat Tahrir al-Sham (HTS), e o regime de Bashar al-Assad caiu com estrondo, com o ditador a fugir do país.
De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), os combates liderados pelo HTS e outras fações armadas tomaram conta de partes de Alepo, Idlib e Hama, desestabilizando as linhas da frente, que estavam num impasse desde 2020. Segundo o portal de informação Crux, o HTS é apoiado pela Turquia e é um desdobramento ideológico da Al-Qaeda.
A organização In Defense of Christians (IDC), de defesa dos cristãos e outras minorias religiosas, indica que os seus contactos no local mostram que os cristãos se tornaram alvo de crimes e vandalismo generalizados em Alepo. Ter acesso a comida e cuidados médicos é agora difícil ou impossível. “Milhares de cristãos fugiram da cidade antiga e estão deslocados internamente. Os cristãos que permaneceram em Alepo vivem com medo significativo, pois a violência contra os cristãos pode intensificar-se rapidamente”, indica a IDC.
“Jogos políticos”, diz o arcebispo de Homs
Jacques Mourad é o arcebispo sírio-católico de Homs, a cidade onde continuam a chegar refugiados que fogem de Alepo, tomada por grupos armados de rebeldes jihadistas. “Não podemos suportar todo este sofrimento das pessoas que chegam aqui destruídas, depois de 25 horas de estrada, com sede, fome, frio, sem mais nada”, afirmou, em declarações à agência Fides.
O arcebispo alerta para “a responsabilidade das potências estrangeiras, da América, da Rússia, da Europa”. Para Jacques Mourad, “a responsabilidade direta não recai apenas sobre o regime ou sobre os grupos rebeldes armados, mas sobre a comunidade internacional” e sobre “os jogos políticos que todos estão a fazer”. “O que está a ser feito em Alepo é acabar com a rica, grande e única história dos cristãos de Alepo.”
Maria Lúcia Ferreira, religiosa portuguesa também conhecida como irmã Myri, e que vive no Mosteiro de São Tiago Mutilado, na vila de Qara, contou ao departamento de informação da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) que nos últimos dias os preços “subiram 50 por cento”. Segundo a religiosa, antes da tomada de Alepo, “já a maioria das pessoas pensava em partir, em viver uma nova vida fora do país”, algo que agora se acentua.
“Em relação à energia, à eletricidade, ao mazout [combustível usado para o aquecimento das casas], à gasolina… todas essas coisas são uma dor de cabeça. O governo deu 50 litros de mazout para as famílias para todo o inverno. Isso dá, no máximo, para dez dias… O resto é comprado a 15 mil libras [cerca de um euro] o litro”, indica a portuguesa. Já os salários podem oscilar entre as 100 mil libras [cerca de 7,3 euros], e as 300 mil [cerca de 22 euros]. “Há pessoas que têm dois e três trabalhos”, refere a religiosa portuguesa, adiantando que há famílias que tiram as crianças da escola para as colocarem a trabalhar.
Campanha de solidariedade
Segundo o Vatican News, desde que os militantes jihadistas tomaram conta de Alepo, no final da semana passada, calcula-se que já terão morrido mais de 350 pessoas, existindo também milhares de outras que procuram fugir daquela região. É neste contexto que a AIS apela os seus benfeitores a apoiarem a comunidade cristã que reside na região. “São cerca de 25 mil cristãos e estão agora como que encurralados na cidade que se poderá transformar num feroz campo de batalha.”
A fundação AIS explica que a sua campanha “procura dar uma resposta de emergência para as situações mais urgentes, nomeadamente ao nível da assistência médica para doentes idosos e crónicos, assim como para a sobrevivência no imediato das pessoas deslocadas, através do fornecimento de alimentos, colchões e cobertores para as famílias, tanto em Alepo como noutras zonas”.
Marielle Boutros, coordenadora de projetos da Fundação AIS para a Síria e Líbano, faz uma descrição do cenário em Alepo, após a chegada dos grupos jihadistas: “Os serviços básicos estão paralisados, com apenas dois hospitais a funcionar para casos críticos. As reservas alimentares são insuficientes, os preços subiram e a população enfrenta a dupla ameaça dos bombardeamentos e da insegurança no terreno. O clima de medo é constante. As pessoas estão encurraladas; ninguém pode entrar ou sair da cidade.”
A AIS refere que numa altura em que “se espera que a cidade se venha a transformar num campo de batalha com as forças do exército sírio a tentaram desalojar os militantes jihadistas, a Igreja permanece junto das populações”. Philipp Ozores, secretário-geral da fundação AIS Internacional, deixa um apelo aos cristãos. “Os ataques aéreos, juntamente com o controlo rigoroso das fações rebeldes que tomaram a cidade, transformaram a sobrevivência numa luta diária. Este é um momento de unidade e de ação. A fundação AIS exorta a comunidade cristã de todo o mundo a unir-se em oração por Alepo, pedindo paz, proteção e esperança para todos os cidadãos.”
Texto redigido por Juliana Batista/revista Fátima Missionária e publicado ao abrigo da parceria com o 7MARGENS.









