Mais de 10 milhões de imigrantes que professam a fé católica podem vir a ser expulsos dos EUA caso a Administração Trump concretize o recurso à suspensão de todas as medidas temporárias de acolhimento, sem precisar, no entanto, de alterar as leis. A sua deportação atingiria outros sete milhões de cristãos que são cidadãos americanos, mas que, por viverem com aqueles seriam também fortemente afetados pelas deportações.
Os números foram tornados públicos no dia 31 de março pela Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos (USCCB, no acrónimo em língua inglesa) e resultam de um estudo elaborado com o concurso da Associação Nacional dos Evangélicos, da Wordl Relief e do Centro de Estudos do Cristianismo Global. Mais de 80 por cento de todos os imigrantes que a Administração Trump poderá deportar sem recorrer a alteração de leis são cristãos, na esmagadora maioria (61%) católicos, mas também evangélicos (13%) e de outras denominações cristãs (7%).
Os autores do relatório começam por analisar as diferentes situações em que se encontram os imigrantes que vivem nos EUA e rever essas situações legais à luz das ameaças de deportação feitas pelo candidato Trump durante a campanha eleitoral quando afirmou de que poderia haver “20 milhões de deportáveis”.
Tendo em conta as ordens executivas emitidas pelo Presidente, os investigadores concluem que estão em risco de deportação não apenas os imigrantes ilegais, ou não-documentados (que na Europa são classificados de sem papéis) e os portadores de autorização de residência que sejam condenados por crimes cometidos, mas também todos os que se encontram nos EUA ao abrigo de diversos regulamentos de acolhimento, como o 1,1 milhão que goza do Estatuto de Proteção Temporária, as crianças e jovens abrangidos pelo Apoio ao Reagrupamento Familiar e de outros regulamentos criados com caracter transitório por várias Administrações desde o princípio deste século. O Presidente tem poderes para revogar estes regulamentos, sem necessidade de acordo com o Congresso.
O impacto das deportações atingiria na prática quase uma em cada cinco (18%) famílias católicas, considerando não apenas os deportados, mas também aqueles que sendo cidadãos americanos vivem em lares em que alguém seria objeto de deportação. O facto dos imigrantes chegarem aos EUA vindo de países maioritariamente católicos (América Central, Caraíbas e América do Sul) fica bem ilustrado pelo facto de os católicos serem sempre mais de metade dos “deportáveis” qualquer que seja ao seu atual estatuto legal. Ao contrário do que seria de esperar, pelo facto de muitas ditaduras se terem instalado em países de minoria católica, até no grupo dos que solicitaram asilo os católicos são maioritários (58%).
Consequências profundas

No meio de grandes crises globais e do congelamento de financiamento do governo dos EUA, as famílias de todo o mundo estão a enfrentar desafios inimagináveis. Foto © World relief
Os promotores do inquérito sublinham que: “o objetivo deste relatório não é defender uma posição específica [quanto à imigração] — embora algumas das organizações patrocinadoras do relatório a possam ter — nem argumentar que todas as deportações são injustas. Também não tem a intenção de alimentar o medo, porque a realidade é que existem barreiras logísticas, legais, políticas e financeiras significativas para deportar todos aqueles que podem ser vulneráveis à deportação.”
E explicam que o seu propósito é “convidar os cristãos americanos — dentro de nossas congregações e dentro dos corredores do poder governamental — a reconhecer que, mesmo se apenas uma fração daqueles vulneráveis à deportação for realmente deportada, as consequências são profundas — para esses indivíduos, é claro, mas também para seus familiares cidadãos dos EUA e para todos os cristãos”.
Apesar de terem posto em evidência a situação dos cristãos, os bispos, os pastores evangélicos e responsáveis das outras duas instituições que assinam o relatório querem deixar claro que: “como cristãos, a nossa preocupação não é exclusivamente com os companheiros cristãos. Acreditamos que todas as pessoas, independentemente de suas crenças religiosas, são feitas à imagem de Deus com a dignidade inerente.”










