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Hieronymus Bosch (1450 ? –1516): pormenor do Tríptico Juízo Final, Gemäldegalerie, Berlim. Wikimedia Commons.

Purgatório: quando os mortos continuam a precisar de nós

 

 

“Aqueces o azeite, pões o bife de fígado na frigideira e rezas uma avé-maria pelas almas do purgatório. Depois viras, e rezas outra vez.”

Foi assim que a minha mãe me ensinou a encontrar o ponto certo da fritura.

No Minho católico da minha infância, a responsabilidade dos vivos pela memória e pelo bem-estar dos mortos era omnipresente. Da frigideira ao lume até às alminhas nas fachadas das casas e nas encruzilhadas, passando pelos cemitérios de flores sempre frescas, os nossos mortos eram mais do que uma recordação querida e uma ausência triste: continuavam a precisar de nós, da nossa atenção e do nosso cuidado.

O purgatório – esse lugar de sofrimento após a morte, onde as almas expiam os seus erros antes de poderem, enfim, descansar em paz – desempenha um papel peculiar neste entendimento do mundo. Ao dar aos crentes a possibilidade de, com as suas orações, abreviarem a dor dos que estão no purgatório, a Igreja Católica oferece uma ponte que liga os vivos aos mortos num abraço de empatia actuante: o poder de cuidar dos outros para além da própria morte. Mais ainda: o purgatório é um espaço de depuração de questões existenciais dos vivos. Por um lado, repõe a justiça no mundo, porque castiga as pessoas pelo mal que cometeram em vida; por outro lado, abre a cada um dos crentes um caminho de libertação interior, transformando os sentimentos negativos em gestos de aceitação da fragilidade dos humanos e de perdão.

[E agora que o fígado está frito e as duas avé-marias rezadas, pergunto a quem me lê: por quem gostariam de rezar enquanto fazem a cebolada?]

 

 

Este texto, publicado originalmente no blogue Dois Dedos de Conversa, de que Helena Araújo é autora, insere-se num projecto de escrita de um grupo de antigas autoras de blogues, que todas as semanas escrevem sobre um tema. As diferentes perspectivas sobre o “Purgatório” podem ser encontradas aqui: 

Joana Valente – O blog azul turquesa – Purgatório
Mariana Leite Braga – Gralha Dixit – Purgatório
Calita Fonseca – Panados e arroz de tomate – Purgatório
Marisa M. – Quinta da Cruz da Pedra – Purgatório
Carla R. Santos – A curva – Purgatório
Maria João Caetano – A Gata Christie – Purgatório
Rita Maria – Boas Intenções – Purgatório

 

 

Acerca do tema, o historiador Jacques le Goff publicou O Nascimento do Purgatório

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Até Dezembro decorre o ano jubilar de São João da Cruz, celebrando o terceiro centenário da canonização e os 100 anos da sua proclamação como Doutor da Igreja Católica. O jubileu tem como lema “A esperança alcança tanto quanto espera” e propõe itinerários de renovação espiritual e mística. A propósito do ano jubilar, o 7MARGENS propõe mensalmente, aos dias 13/14 (assinalando o dia da sua morte, a 14 de Dezembro de 1591), um conjunto de textos do padre carmelita e teólogo Armindo Vaz. 

Tinha 73 anos

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Decidi que, sempre que, infelizmente, escrever sobre o suicídio de um padre, vou intitular o artigo com a idade daquele que não encontrou outra saída.
Bernard Card, da diocese de Dijon, em França, suicidou-se na casa paroquial. Ao que parece, era um padre activo, envolvido em várias atividades diocesanas e de trato fácil e próximo. [Texto de Cristina Inogés Sanz]

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