Razões de saúde ou a má relação que existia com vários bispos podem ter estado na origem da saída do actual núncio apostólico (embaixador da Santa Sé) em Portugal, o diplomata Ivo Scapolo, anunciada na última sexta-feira, 23 de Maio. Quando foi nomeado para Lisboa, há seis anos, o núncio vinha acusado de ter ajudado a encobrir casos de abusos sexuais.
A notícia da saída apanhou desprevenidos vários bispos – alguns queixavam-se do que consideravam a lentidão com que a nunciatura procedia nos processos de substituição de bispos. A seu favor, Ivo Scapolo tinha o facto de em Portugal, tal como no resto do mundo, cerca de 30 por cento de padres não aceitarem a nomeação para bispos, quando convidados pelos núncios.
Sexta-feira, a Sala de Imprensa da Santa Sé comunicou a renúncia de Ivo Scapolo, que em Julho próximo completará 72 anos. Normalmente, os núncios, que são ordenados bispos, devem sair aos 75 anos, como estabelece a carta apostólica Aprender a despedir-se, publicada em Fevereiro de 2018 pelo Papa Francisco; mas uma norma do Regulamento para as Representações Pontifícias permite que as pessoas que desempenham alguns cargos possam pedir a antecipação da sua jubilação ao completar 70 anos de idade.
Foi este o caso de Ivo Scapolo. Na informação que divulgou, citada pela agência Ecclesia, o ainda núncio em Portugal invocava a “possibilidade oferecida” pelo artigo 20 do Regulamento citado, acrescentando que pensa “deixar Portugal definitivamente entre o final de Junho e o início de Julho”.
Numa outra nota, curta e de circunstância, a Conferência Episcopal Portuguesa agradeceu “a presença” de Ivo Scapolo no país nos últimos seis anos, destacando, além “do normal exercício da sua missão pastoral e diplomática”, também “o seu acompanhamento aquando da visita do Papa Francisco a Portugal por ocasião da Jornada Mundial da Juventude Lisboa 2023”.
Nomeado em 9 de Agosto de 2019, Ivo Scapolo era então núncio apostólico no Chile, sucedendo a outro diplomata italiano, Rino Passigato, que se demitiu quando atingiu os 75 anos.
Naquele país, o núncio agora demissionário tinha sido apontado como uma das pessoas que ajudara a encobrir os casos de abuso sexual do clero e, nomeadamente, do padre Fernando Karadima. Em 2018, no auge da crise dos abusos sexuais no Chile, o Papa Francisco respondeu de forma zangada a uma jornalista que o confrontava com situações de abuso do padre Karadima e da protecção por este recebida do bispo Juan Barros; na altura, algumas acusações diziam que Scapolo seria também um dos que não agira como devia. Outras fontes acusavam-no de também ter dificultado a missão dos dois enviados do Papa Francisco ao Chile, Jordi Bertomeu e Charles Scicluna, para averiguar a extensão dos abusos e do encobrimento.
O arcebispo maltês Scicluna, uma das figuras de proa da luta contra os abusos, no Vaticano, teria mesmo contrariado desejos do núncio, falando com vítimas e mostrando-lhes solidariedade, ao contrário do que Scapolo teria feito, segundo os sobreviventes. O chileno Luis Badilla, no Il Sismografo, caracterizava-o ainda como tendo uma “personalidade autoritária”.
Na sequência dessa crise e das chamadas de atenção que recebeu, o Papa Francisco convocou ao Vaticano todos os bispos chilenos, mas o núncio não esteve presente, sem que as razões para tal tenham ficado cabalmente esclarecidas.
Nenhum destes episódios foi clarificado e há quem tenha defendido o núncio dizendo que ele tentara informar o Papa Francisco do que estava a acontecer, sem sucesso. O próprio, antes de chegar a Portugal, deu uma entrevista ao jornal El Mercurio, do Chile, onde dizia que “foi muito doloroso” verificar os casos de abusos sobre menores por membros do clero no país.
Ivo Scapolo nasceu em Pádua (Norte de Itália) em 24 de julho de 1953, e foi ordenado em 1978. Em 1984 entrou no serviço diplomático da Santa Sé e já tinha trabalhado na nunciatura em Portugal como secretário, além de Angola e Estados Unidos da América. Enquanto núncio apostólico, esteve também na Bolívia (2002-2008), Ruanda (2008-2011) e Chile (2011-2019).
Scapolo foi formado na escola diplomática do cardeal Angelo Sodano (1927-2022), que foi igualmente núncio no Chile entre 1978 e 1988 (durante o período da ditadura de Pinochet) e seria depois secretário de Estado do Vaticano – e que foi também acusado de ter ajudado a encobrir os crimes do padre Maciel, fundador dos Legionários de Cristo.
O sucessor de Ivo Scapolo ainda não está nomeado.






