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Ícone da Tomada ou Saque do Hades (vulgarmente conhecido como Ícone da Ressurreição), Afresco da igreja de São Salvador no Campo (Khora), em Constantinopla (entre 1310 e 1320)

Mensagem do bispo Damasceno da Igreja Ortodoxa de Portugal

Meditação sobre a Vitória de Cristo e sobre os Salmos Imprecatórios

| 19/08/2025

 

Embora já longe no tempo, publicamos por indicação do próprio, a mensagem de Sua Excelência Reverendíssima Bispo Damasceno de Coimbra e Aveiro, Igreja Ortodoxa de Portugal, no encontro ecuménico realizado a 6 de Maio de 2025, na Igreja Matriz de Gafanha da Nazaré, da diocese católica de Aveiro. Relembramos que, pela primeira vez em onze anos, este ano a Páscoa Ortodoxa foi celebrada no mesmo dia que a Páscoa Católica, dia vinte de abril. [ver Sete Margens ].

 

Bispo Damasceno de Coimbra e Aveiro

CRISTO RESSUSCITOU!

 

Excelência Reverendíssima, Senhor Dom António Moiteiro, Bispo Católico de Aveiro,
Reverendo Pastor Eduardo Conde, da Igreja Evangélica Metodista de Aveiro,
Reverendo Clero e Irmãos Religiosos aqui presentes,
Senhoras e Senhores, todos os cristãos aqui reunidos, das diversas confissões de Fé:

Queremos partilhar convosco, esta noite, uma meditação sobre o grande Mistério da Fé, que todos os cristãos celebram nesta quadra do ano. Permitam-me narrar um breve episódio pessoal – como uma expressão desta ideia, deste mistério:

Há uns bons anos, num café, em Vila Franca de Xira, à tarde, fui abordado por um jovem em profunda inquietação interior. Já não me lembra se vinha pedir esmola, ou uma refeição, ou apenas partilhar a sua inquietação, em busca de resposta. E a pergunta veio, sem rodeios nem delongas: “Porque Deus precisou que Jesus morresse na Cruz, para nos salvar? Não podia Deus nos salvar por um outro modo, sem dor nem sofrimento, nem morte injusta?”

Esta pergunta não é nova, e ecoou de variadas formas ao longo dos séculos. Ela foca um aspecto particular do Mistério Pascal, que é o mistério do Justo Sofredor, profetizado por Isaías e prefigurado por Job o Sofredor, nas suas provações e também na sua restauração – isto é, na restauração da sua riqueza, e dos seus filhos e filhas, que é figura ou tipo da Ressurreição. É por esta mesma razão que, na versão grega dos Setenta, o livro de Job assim termina: E morreu Job velho e farto de dias. E está escrito que, de novo, há-de ressuscitar com aqueles a quem o Senhor ressuscita.

Santo Profeta Job, figura antecipada do Justo Sofredor

Durante o primeiro milénio da Era Cristã, todos os cristãos, a Oriente e Ocidente, partilhavam um entendimento comum, uma experiência comum e uma visão comum deste Mistério, e não se ocuparam muito em explicar ou analisar como ele operou e porque deste modo exactamente, mas antes elevavam cânticos e hinos de louvor ao Deus Bom e Filantropo, o Amigo do Homem, que enviou Seu Filho para nos salvar.

Os hinos, homilias e composições poéticas da Igreja chamada “Primitiva”, bem como a Liturgia Bizantina, falavam da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo em termos duma Vitória ou Triunfo sobre a morte. É este o tema central entre os Santos Padres, Doutores e Hinógrafos da Igreja Indivisa do primeiro milénio, tema que os teólogos chamam hoje Christus Victor, isto é, o Cristo Vitorioso, Triunfante.

Esta mesma vitória é resumida ou sintetizada de forma feliz no Tropário ou Hino Pascal do Rito Bizantino, que em breves momentos iremos cantar como refrão: “Cristo ressuscitou dos mortos, vencendo a morte pela morte, e aos que estão nos sepulcros dando a Vida!”

Podem ver nos vossos folhetos que este Hino é alternado com versículos do Salmo 68 e do Salmo 118, que dão início ao ofício de Matinas Pascais e também à Liturgia Pascal (ou Missa Pascal, se quiserem). O Salmo 68 fala-nos claramente duma Vitória, mas impõe-se a pergunta: “vitória contra quem?! quem são estes nossos inimigos, ou inimigos de Deus?!” Trata-se de um Salmo imprecatório, em que o crente implora a Deus não só a vitória contra os inimigos, mas a sua destruição ou aniquilação completa.

O Santo Rei e Profeta David, autor inspirado dos Salmos, e que também prefigurou o Cristo

O facto é que os cristãos do primeiro milénio nunca entenderam a aplicação destes Salmos segundo a letra, de um modo carnal, literal, mas antes [a entenderam] segundo o espírito, num sentido espiritual, ou alegórico. Para eles, e para nós, cristãos de hoje, os inimigos da humanidade, e de Deus, são três: a morte, o pecado e o diabo. Há uma relação causal entre esses três inimigos da linhagem dos homens: o diabo, pela mentira, inspira o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte (do espírito e do corpo), e esta foi a tragédia cósmica iniciada no Paraíso com nossos primeiros Pais Adão e Eva, e que Cristo o Novo Adão veio reverter pela Sua Paixão e morte salvífica, e pela Sua Ressurreição do túmulo ao terceiro dia.

Cristo assume, enquanto homem, todas as consequências da queda de Adão (excepto o pecado) e, enquanto Deus, vence e aniquila a morte e o pecado, e esta é a razão da nossa esperança. O Hades (ou “inferno”, a morada dos mortos) toma um corpo, visível, mortal, tal como o peixe no oceano morde o isco, ou engodo. Mas com o isco, o Hades morde também o anzol, invisível, imortal e indestrutível, que é a própria divindade de Cristo – e o Hades tem de devolver os seus mortos. É o poder da divindade, no Seu amor pelos homens, que vence o inimigo final, que é a morte, e não se trata aqui duma transacção jurídica ou comercial, mas dum acto de puro amor divino, que restaura a justiça e a santidade na Sua criação.

Dito isto, e sem mais, peço à Natália, à Ruslana e à Maria Augusta que venham ter connosco, para encerrarmos esta meditação cantando a oração dos nossos Pais e Antepassados na Fé. Muito obrigado a todos pela vossa atenção.

 

Versículos Pascais

Salmo 68:1,2a-b,2c-3, Salmo 118:24

Coro da Missão da Protecção da Mãe de Deus em Santiago, Aveiro

℣.  Que Deus Se levante e Seus inimigos serão vencidos.
Que Seus adversários fujam diante de Sua Face. (Salmo 68:1)

℟.  Cristo ressuscitou dos mortos, pela morte Ele venceu a morte,
e aos que estavam no túmulo Cristo deu a vida!

℣.  Tal como o fumo se dissipa, assim eles sejam dispersos,
à semelhança da cera que se derrete diante do fogo. (Salmo 68:2a-b)

℟.  Cristo ressuscitou dos mortos, pela morte Ele venceu a morte,
e aos que estavam no túmulo Cristo deu a vida!

℣.  Pereçam os ímpios em face de Deus,
rejubilem os justos em Sua presença. (Salmo 68:2c-3)

℟.  Cristo ressuscitou dos mortos, pela morte Ele venceu a morte,
e aos que estavam no túmulo Cristo deu a vida!

℣.  Este é o dia que o Senhor fez.
Exultemos e alegremo-nos nele. (Salmo 118:24)

℟.  Cristo ressuscitou dos mortos, pela morte Ele venceu a morte,
e aos que estavam no túmulo Cristo deu a vida!

℣.  Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo.
Eternamente, agora e sempre e pelos séculos dos séculos.

℟.  Cristo ressuscitou dos mortos, pela morte Ele venceu a morte,
e aos que estavam no túmulo Cristo deu a vida!

 

 

Senhor Dom António Moiteiro, Bispo Damasceno, Pastor Eduardo Conde

 

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