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Cardeal Blase Cupich de Chicago.
Cardeal Blase Cupich de Chicago. Foto ©: Daniel Ibanez/CNA

Aborto e moral católica

Papa reforça voto de confiança no cardeal de Chicago criticado pelos seus pares

| 16/10/2025

 

Quinze dias depois de ter desdramatizado a decisão da arquidiocese de Chicago de homenagear um senador defensor da legalização do aborto, Richard Durbin, pelo seu constante apoio aos programas da diocese em favor dos imigrantes, o Papa Leão nomeou hoje, dia 16 de outubro, o cardeal Blase Joseph Cupich, arcebispo daquela cidade, membro da Pontifícia Comissão para o Estado da Cidade do Vaticano . A nomeação é vista em Roma como um voto de confiança num cardeal alvo de recentes críticas por parte de uma dezena dos seus pares norte-americanos.

Mais violento no ataque a Cupich pela decisão de homenagear o senador Richard Durbin, um católico que defende a descriminalização do aborto, foi o bispo Thomas Paprocki, de Springfield (capital do Estado de Illinois, Estado a que também pertence Chicago). Dizendo-se “chocado” com a iniciativa, defendeu que “ela deve ser revertida” para “não escandalizar os fiéis e ferir os laços da comunhão eclesial”. Nove outros prelados dos EUA [ver 7 Margens ] vieram também a público criticar a anunciada homenagem.

Perante a polémica, e apesar do cardeal Cupich ter saído em sua defesa, o senador declinou receber qualquer reconhecimento oficial por parte da arquidiocese. Richard Durbin, depois de sete mandatos como deputado na Câmara dos Representantes, foi eleito cinco vezes para representar o seu Estado no Senado dos EUA onde hoje é o número 2 na liderança do Partido Democrata.

Com 80 anos, completados em novembro de 2024, o senador foi inicialmente favorável às leis antiaborto, tendo, posteriormente, alterado a sua posição em função do sofrimento que tal legislação pode provocar. Em 2006 afirmou: “Ainda sou contra o aborto e faria todo o possível para convencer qualquer mulher da minha família a levar a gravidez até o fim. Mas acredito que, em última análise, a decisão deve ser tomada pela mulher, o seu médico, a sua família e a sua consciência.” Durbin é também um ativo crítico das medidas da Administração Trump contra os imigrantes e um conhecido defensor do controlo de venda de armas.

A acrimónia entre bispos demonstra a força do movimento católico pró-vida nos EUA, cuja agenda se foca quase exclusivamente na luta contra o aborto e na denúncia, seguida da exigência de excomunhão, de todos os políticos católicos que são próximos do movimento pró-escolha, isto é, contrários às leis antiaborto e favoráveis ao livre exercício decorrente da consciência de cada mulher. A agenda do movimento pró-vida é também assumida, no que toca à legislação, pelo Presidente Trump e pelo Supremo Tribunal de Justiça americano.

 

A visão de Leão XIV

Senador Richard Durbin

‘“O senador Durbin não está apto a receber qualquer honraria católica”, escreveu Paprocki que preside à diocese em que Durbin nasceu, onde, de acordo com a Catholic News Agency, este se encontra “proibido de receber a comunhão” desde 2004.’ Foto: Senador Richard Durbin. (Imagem de domínio publico)

Sem pretender pronunciar-se diretamente sobre o “caso Durbin”, Leão XIV não se esquivou a responder sobre ele quando questionado pelos jornalistas. Na ocasião, a 1 de outubro de 2025, o Papa alargou o debate sobre o entendimento da moral católica em defesa da vida, cunhando a já célebre frase: “Quem diz ser contra o aborto, mas a favor da pena de morte, não é verdadeiramente pró-vida. Quem diz ser contra o aborto, mas a favor do tratamento desumano de imigrantes nos Estados Unidos… não sei se isso é pró-vida”.

Não é assim que o bispo de Springfield, e outros como ele nos EUA, entendem as coisas. “O senador Durbin não está apto a receber qualquer honraria católica”, escreveu Paprocki que preside à diocese em que Durbin nasceu, onde, de acordo com a Catholic News Agency,  este se encontra “proibido de receber a comunhão” desde 2004. Para os mais acérrimos militantes do movimento pró-vida, não há qualquer consideração a fazer quanto aos valores defendidos por figuras públicas católicas em outros quadrantes da vida social. O que interessa é o que defendem, dizem e fazem no que à legislação sobre o aborto diz respeito. Só isso determina a sua excomunhão. Tudo o mais não é tido em conta nem fundamenta qualquer excomunhão.

Contudo, na perspetiva do Papa, estes “são temas muito complexos”, embora “os ensinamentos da Igreja sobre cada um destes temas sejam muito claros”. Temas sobre os quais “não sei se alguém tem toda a verdade a seu respeito”, considerou Leão XIV ao avaliar a questão no dia 1 de outubro. “Mas peço-lhes [aos bispos americanos], antes de mais, que se respeitem mutuamente” para que seja possível procurar “juntos, como seres humanos e, neste caso, como cidadãos norte-americanos e do Estado do Illinois, assim como católicos” como abordar “com atenção todas estas questões éticas”, de modo a “encontrarmos o caminho a seguir como Igreja”.

Na mesma linha, o cardeal Cupich respondeu aos críticos da sua decisão, declarando: “No cerne da ética consistente da vida está o reconhecimento de que o ensinamento católico sobre a vida e a dignidade não pode ser reduzido a uma única questão, mesmo uma questão tão importante quanto o aborto.” E acrescentou que o senador Durbin seria homenageado pelos seus esforços para promover o ensinamento social católico em questões como imigração, cuidado com os pobres, a Laudato Si’ e a paz mundial e não por outra qualquer razão.

O cardeal de Chicago tem criticado veemente a Administração Trump pela violência com que trata os imigrantes e procede a rusgas e deportações na sua cidade para a qual o Presidente Trump quer enviar tropas federais (decisão suspensa por ordem judicial). Era essa a intenção da homenagem ao senador Durbin marcada para 3 de novembro de 2025, na medida em que, segundo Cupich: “O reconhecimento da sua defesa dos imigrantes neste momento, quando eles estão sujeitos ao terror e ao sofrimento, não é algo a ser lamentado, mas um reflexo de que o Senhor está profundamente ao lado, tanto dos imigrantes que estão em perigo, quanto daqueles que trabalham para protegê-los”.

 

“Respeitado no Vaticano”

Cardeal Blase J. Cupich

O Papa Leão XIV cumprimenta o Cardeal Blase J. Cupich, de Chicago, durante uma audiência no Vaticano, a 9 de outubro de 2025, aquando de uma peregrinação de dirigentes sindicais de Chicago. Crédito: Foto CNS / Vatican Media

De acordo com o jornalista Gerard O’Connell, correspondente no Vaticano da revista jesuíta America, a nomeação do Cardeal Cupich como membro da Pontifícia Comissão para o Estado da Cidade do Vaticano “é vista em Roma como um sinal da estima que o Papa Leão XIV tem pelo cardeal-arcebispo de Chicago”, cardeal com quem o Papa trabalhou enquanto “membros do Dicastério para os Bispos por mais de cinco anos, incluindo de 2023 a 2025, quando o futuro papa foi prefeito do Dicastério”.

A comissão é presidida pela irmã Raffaella Petrini — a primeira mulher governadora do Estado da Cidade do Vaticano —, de 56 anos, nomeada a 15 de fevereiro de 2024 pelo Papa Francisco e é composta por seis cardeais nomeados pelo papa. É o órgão legislativo da cidade-Estado, foi criada em 1939 e tem o poder de aprovar leis e disposições normativas, incluindo os planos financeiros anuais e trienais, para o menor Estado do mundo.

No decreto de dia 16 de outubro o Papa nomeia também o cardeal Baldassare Reina, vigário-geral de Sua Santidade para a Diocese de Roma, e confirma o atual mandato dos seguintes membros da mesma comissão: o cardeal Kevin Joseph Farrell, prefeito do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida; o cardeal Arthur Roche, prefeito do Dicastério para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos; o cardeal Lazarus You Heung-sik, prefeito do Dicastério para o Clero; e o cardeal Claudio Gugerotti, prefeito do Dicastério para as Igrejas Orientais.

O cardeal Cupich é o único membro da comissão não residente em Roma, mas tal facto não o obrigará a deixar Chicago dado o carácter não executivo da comissão. O Cardeal é “altamente respeitado no Vaticano pelo seu trabalho como chefe da comissão que o Papa Francisco encarregou de realizar uma revisão interna da organização e do trabalho do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral” salienta o mesmo correspondente do jornal América.

 

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