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autores - Phyllis Zagano (1)

[Entre Margens]

A administração anti-vida

| 06/02/2026

VidaHoras antes de agentes federais em Minneapolis matarem um segundo cidadão dos EUA, o presidente Donald Trump discursou através de vídeo, na sexta-feira 23 de janeiro, na Marcha pela Vida de 2026, felicitando aqueles que foram a Washington “para defender o valor infinito e a dignidade dada por Deus a toda a vida humana”.

Citando a Declaração de Independência, que afirma as liberdades individuais dos cidadãos, agradeceu aos manifestantes por defenderem os nascituros e reivindicou a responsabilidade por “avanços sem precedentes para proteger a vida inocente e apoiar a instituição da família”.

Manifestação pró-vida nos EUA Foto Bill ClarkCQ Roll Call

“Como fazem todos os anos, milhares de grupos e indivíduos pró-vida marcharam em frente ao Capitólio dos EUA, onde apenas cinco anos antes, manifestantes mascarados atacaram agentes federais e ameaçaram legisladores.” Foto:  Manifestação pró-vida nos EUA. © Bill Clark CQ Roll Call

Como fazem todos os anos, milhares de grupos e indivíduos pró-vida marcharam em frente ao Capitólio dos EUA, onde apenas cinco anos antes, manifestantes mascarados atacaram agentes federais e ameaçaram legisladores. Agora, Minneapolis está num caos, tomada por três mil agentes armados e mascarados do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), alguns dos quais, segundo os relatos, receberam formação mínima antes de receberem armas. Será que os desordeiros perdoados dos protestos de 6 de Janeiro estão entre os novos agentes do ICE? Ver vídeos de um grupo evoca memórias do outro.

A dissonância cognitiva entre o que o actual governo diz e o que faz agita as ondas hertzianas da rádio e da televisão e assusta os cidadãos. Na raiz do problema está um esforço de relações públicas em que a defesa da Casa Branca das suas acções lembra a Novilíngua orwelliana, com as suas “consequências colaterais” para mortes de civis e positividade “plus good”, mascarando o que é, para todos os efeitos, uma invasão federal de uma cidade americana.

Isto precisa de parar, mas será que pode? Recentemente, três cardeais católicos dos EUA – Blase Cupich (Chicago), Robert McElroy (Washington, D.C.) e Joseph Tobin (Newark, New Jersey) – emitiram um comunicado criticando o uso da força por parte do governo fora das fronteiras dos Estados Unidos. Citando o recente discurso do Papa Leão XIV aos diplomatas acreditados no Vaticano, observaram: ““A guerra voltou a estar na moda e um fervor bélico está a alastrar.”

É mais do que zelo. É uma infecção de violência que parece ter tomado conta da consciência federal, a todos os níveis. E está longe de ser pró-vida. Enquanto as administrações anteriores conseguiram efetuar deportações significativas de indivíduos que se encontravam ilegalmente nos EUA sem o uso generalizado de granadas “flash-bang”, gás lacrimogéneo, gás pimenta, balas de borracha e armas automáticas, a atual leva de agentes federais parece incapaz de agir pacificamente.

O que fazer? A Conferência dos Bispos Católicos dos EUA há muito que considera a sua posição contra o aborto como a sua “prioridade preeminente”. Mas isso parece ter impedido os seus membros de se manifestarem conjunta e veementemente sobre as atrocidades da actual administração. Aqui e ali, um ou outro bispo pode dizer alguma coisa, e os três cardeais destacaram-se, mas, com exceção da “Mensagem Especial” sobre a imigração de novembro de 2025, todo o corpo de bispos católicos permanece em silêncio.

Seria melhor se considerassem o aborto como uma questão “subjacente” e prioritária. Assim, todas as ações que afetam toda a vida estariam nos seus radares.

O objectivo das autoridades religiosas e dos indivíduos não é concentrar-se em discussões políticas, mas sim em conversas morais, se a prioridade for a protecção de toda a vida, seja de imigrantes, nascituros, idosos ou sobreviventes de naufrágios em acções militares. Isso exigiria manifestar-se contra o indizível, seja conveniente ou inconveniente, seja em tempo oportuno ou inoportuno, seja em Washington ou Minneapolis, a partir do púlpito ou na praça pública.

Há uma profunda responsabilidade em desvendar a nuvem de falsidades que paira sobre as ações governamentais que desrespeitam a vida. Os Estados Unidos estão em crise.

 

Phyllis Zagano integrou a Comissão para o Estudo do Diaconado das Mulheres (2016-2018). É investigadora na Universidade de Hofstra, Hempstead, Nova Iorque, e o seu livro mais recente é Just Church: Catholic Social Teaching, Synodality, and Women (Paulist, 2023) [Igreja justa: ensino social católico, sinodalidade e mulheres]. Este texto foi inicialmente publicado no Religion News Service e é traduzido em Portugal por cedência da autora e daquela publicação ao 7MARGENS.

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