AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

“A crispação nacional ao volante, frenética, agressiva, criminosa”

Há pouco mais de 50 anos, chegado ao Gerês, onde regularmente ia cuidar da saúde, Miguel Torga registava no seu Diário o que acabara de observar nas estradas portuguesas: “Horas seguidas a presenciar pelo caminho a crispação nacional ao volante, frenética, agressiva, criminosa. De quilómetro em quilómetro, um carro espatifado. Latas amolgadas, estilhaços de vidro, sangue – o espólio catastrófico de uma irresponsabilidade colectiva que só no fundo do abismo pode encontrar paz. Não a de a ter procurado e achado, mas a de a ter achado a fugir-lhe” [1].

Mesmo que os carros espatifados sejam hoje recolhidos mais rapidamente, a situação rodoviária não registou melhorias globais que permitissem que as descrições se fossem embrandecendo com o tempo. Há cerca de 15 anos, o autor que escreve sob o pseudónimo de Eastwood da Silva retratava, em Call me Shane [2], uma transmutação com frequentes consequências dramáticas: “O condutor fazia um esforço titânico para não exceder os 120 na auto-estrada. Acabou por acontecer o inevitável: operou-se uma modificação qualitativa. O corpo do condutor cobriu-se de uma pelagem negra, os caninos cresceram, as unhas transformaram-se em garras. Mais um assassino da estrada surgira!”.

O Público desta quarta-feira, dia 15, fazia lembrar estes dois extractos. “No final de 2025 havia 731 pessoas presas por crimes rodoviários”, dizia um dos títulos da primeira página. As prisões, acrescentava o jornal, ficavam a dever-se, sobretudo, a condução sem carta, sob a influência de álcool ou droga e condução perigosa. Nas páginas interiores, ficava a saber-se que os que chegam às cadeias são uma percentagem mínima dos condenados. Citando o mais recente Relatório Anual de Segurança Interna, o jornal informava que, no ano passado, tinham sido cometidos 37.645 crimes dos três tipos destacados.

Os números da sinistralidade rodoviária são terríveis e dão razão a quem diz que nas estradas portuguesas se trava “uma violenta guerra civil” que mata e incapacita demasiadas pessoas, destruindo um elevadíssimo número de famílias. Em 2025, morreram 448 pessoas no local do acidente, bem se sabendo que o número tende a aumentar no período posterior. Um estudo da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária, divulgado pela Lusa na quarta-feira, indica que, “dentro das localidades, por cada 100 mortes nas primeiras 24 horas ocorrem mais 45 mortes até aos 30 dias após o acidente”. Fora das localidades esse número é 18.

O documento amplamente citado referia abundantes dados inquietantes, como o que assinala que o número de mortos provocados por acidentes nas localidades aumentou depois da pandemia, sendo mesmo o mais elevado da União Europeia; ou o que diz que a taxa de mortalidade rodoviária nos coloca muito longe dos países europeus mais seguros.

Se há assunto merecedor de “alarme social”, a sinistralidade rodoviária é um dos principais. E, no entanto, perante algo com tão graves consequências, a indiferença é a mais comum das atitudes. Em vez de sobressalto (e, desde há tantos anos, são só e quase sempre as mesmas duas ou três pessoas desassossegadas a pregar no deserto), o que encontramos é conformismo perante o que, tantas vezes, se considera que são os insondáveis propósitos do destino ou de Deus. Nem todos os acidentes de viação serão evitáveis, mas é assaz comum decorrerem da responsabilidade ou, se se preferir, da irresponsabilidade humana.

É verdade: há vias rodoviárias mal desenhadas e mal construídas, há sinalizações das faixas de rodagem e de bermas que não se vêem ou não existem, há sinais de trânsito colocados mais a torto do que a direito, há passeios em falta, há obras que nunca acabam e não vale a pena prolongar a lista. Mas não há como ilibar quem conduz de modo incompetente, desleixado ou agressivo. Há, de facto, criaturas amáveis que se transformam em bestas ou em lobos quando tocam no volante de uma viatura.

Pretendendo menos selvajaria rodoviária, o Conselho Pontifício da Pastoral para os Migrantes e Itinerantes publicou em 2007, no Dia de Nossa Senhora da Estrada, o documento Pastoral para os utentes da estrada, que inclui um bem-intencionado decálogo:

“1. Não matarás.

2. A estrada será para ti instrumento de comunhão no meio das pessoas e não de dano mortal.

3. Cortesia, rectidão e prudência ajudar-te-ão a superar os imprevistos.

4. Serás caritativo e ajudarás o próximo na necessidade, especialmente se for vítima de um acidente.

5. O automóvel não será para ti expressão de poder, de domínio e ocasião de pecado.

6. Convencerás com caridade os jovens, e não só, a não se porem ao volante quando não estiverem em condição de o fazer.

7. Apoiarás as famílias das vítimas de acidentes.

8. Farás com que a vítima e o automobilista agressor se encontrem num momento oportuno, a fim de que possam viver a experiência libertadora do perdão.

9. Na estrada, tutelarás a parte mais frágil.

10. Sentir-te-ás responsável pelos outros.”

Eastwood da Silva também escreveu um não menos útil decálogo do automobilista. Encontra-se no livro 535 Máximas, incluindo citações seleccionadas, enigmas, provérbios, frases, convites à reflexão, private jokes, miniaturas à la hemingway, pensamentos e episódios [3] e, apesar de haver quem julgue menos prudente generalizar as regras n.º 5 e 6, vale a pena lê-lo com a maior atenção:

“1. Respeita os limites de velocidade nas povoações.

2. Dá prioridade aos peões nas passadeiras (se queres matar pessoas, desce do carro e mata-as sem estares escondido dentro do carro).

3. Não é só não ires perto do carro da frente, é ires longe do carro da frente.

4. Respeita os sinais de proibição de ultrapassar (quem os colocou sabia o que estava a fazer) e os riscos contínuos.

5. Sempre que puderes, corta as curvas. Se há coisa de que os carros não gostam é da força centrífuga.

6. Trava o menos possível. Como disse o velho Bugatti (citando Jean-Luc Godard), os carros fizeram-se para acelerar, não foi para travar.

7. A tua condução deve passar despercebida: não é só à polícia, é aos outros automobilistas, aos peões e às pessoas que vão dentro do carro.

8. Não bebas bebidas alcoólicas.

[A propósito: dois em cada três condutores envolvidos em acidentes com vítimas em 2024 apresentavam valores de álcool no sangue considerados crime, revela o estudo da Autoridade Nacional da Segurança Rodoviária, divulgado pela Lusa.]

9. Inicia a ultrapassagem no primeiro segundo em que isso é possível, não no segundo segundo, e fá-lo com suavidade e com duas ou três manobras alternativas na manga.

10. Parte sempre do princípio de que os outros automobilistas (e os peões) podem a todo o momento encetar acções bruscas e desconexas, direi mesmo, taralhoucas. Sê magnânimo: não buzines, não faças sinais de luzes, perdoa-lhes que um dia também hás-de precisar de perdão.”

Boa sorte. Sintam-se responsáveis pelos outros.

 

Notas

[1] Antologia. Diário. Extractos relativos a Terras de Bouro. Organização e apresentação de António Afonso. Câmara Municipal de Terras de Bouro, 1999
[2] Caldas da Rainha: Caminho das Águas, 2010
[3] Lisboa: & etc., 1999.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

O estranho “suicídio” do pastor Zedequias Manganhela

Livro sobre a PIDE

O estranho “suicídio” do pastor Zedequias Manganhela novidade

O livro será apresentado nesta quarta-feira, 16, a partir das 18h30, no auditório do Liceu Camões, em Lisboa, com intervenções da historiadora Maria Inácia Rezola, responsável da Comissão Comemorativa 50 anos do 25 de Abril, e por Fernando Marques Mendes, antigo padre do Macúti, um dos que denunciou os massacres cometidos pelo Exército português na então colónia de Moçambique.

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This