Vivemos em sociedades em que o envelhecimento é olhado muitas vezes como um problema económico, tanto para os estados como para as famílias, de abandono e da quebra de laços que têm como consequência a destruição de redes de solidariedade e de suporte que foram apoio durante a vida ativa. Na verdade, o envelhecimento daqueles e daquelas que nos precederam põe à prova a nossa humanidade enquanto sociedade e enquanto indivíduos.
O 7MARGENS iniciou a publicação de depoimentos de idosos recolhidos por José Pires, psicólogo e sócio fundador da Cooperativa de Solidariedade Social “Os Amigos de Sempre”. Publicamos hoje o décimo sétimo depoimento do total de vinte e cinco. Pode ler aqui os depoimentos já publicados. Informamos que tanto o nome das pessoas como as fotografias que os ilustram são da inteira responsabilidade do 7MARGENS.

Foto © Pietro Schellino / Unsplash (transformada)
Victor, 78 anos
Não queria envelhecer…
Ninguém quer envelhecer. É uma contradição: não queremos morrer quando somos novos e também não queremos envelhecer.
Mas é inevitável, a nossa compleição muda. A parte psicológica muda também para pior. Vai piorando, vai-se degradando.
Quer queiramos, quer não, a nossa diminuição física e mental acentua-se dia após dia.
Os jovens são mais instáveis no seu comportamento emocional… Nós somos mais estáveis mas vamos perdendo as faculdades.
A minha médica de família diz que o meu coração já tem cabelos brancos…
A memória é das primeiras faculdades a falhar. Porque é que a memória entra em declínio? A minha memória é uma desgraça… Já não nos lembramos o que comemos ao pequeno almoço mas lembramo-nos dos colegas da escola.
Setenta e oito anos… Já não penso a longo prazo, já estou a caminho do jardim das tabuletas.
Espero que tenha um caminho lento para o fim e desejo que o desfecho seja de repente. Sem sofrimento.
Vi o meu vizinho Manuel a morrer com cancro cheio de dores. Sou contra a eutanásia mas acho que no limite devia-se acabar com esse sofrimento.










