A conferência de Wannsee ocorreu em 20 de Janeiro de 1942. Não obstante ter sido precedida por outros momentos em que a decisão de eliminar os judeus europeus já estava em curso, Wannsee representa uma data singular: foi discutida e decidida a “Solução Final”, tendo Reinhard Heydrich afirmado, no fim do encontro, que ficou ali estabelecida a “execução prática da solução final da questão judaica.”[1]
Tempos antes desta conferência, os nazis tiveram a ideia peregrina de deportar os judeus para Madagáscar. O plano, mais tarde abandonado, chegou a ter algum detalhe logístico, como diz o investigador Frank Jacob: “O transporte para o gueto africano deveria ser efectuado por navios e estimava-se que dois navios com 1.500 judeus cada poderiam partir todos os dias, o que significava que os quatro milhões de judeus deveriam ser deportados num prazo estimado de quatro anos.[2]”
É igualmente insólito o recente plano do Presidente dos EUA de deportar os palestinianos de Gaza que regressaram em massa às suas casas, parcial ou totalmente destruídas, após o cessar-fogo que vigora: “Os habitantes de Gaza iriam viver “em países de interesse com corações humanitários”, continuou, citando países que já rejeitaram a ideia, como a Jordânia e o Egipto. Isto seria financiado “por uma enorme quantia dada por países muito ricos”. Feita a reconstrução, a Faixa de Gaza seria então uma “Riviera do Médio Oriente”, aberta a uma população “internacional”. [ver Publico]
Em comovente texto, escrito em 31 de Janeiro, Alexandra Lucas Coelho faz uma comparação entre esse regresso épico dos palestinianos ao norte de Gaza e o êxodo bíblico dos judeus ou o êxodo dos próprios palestinianos quando foram forçados pela recente guerra a deixar o seu território.
Na verdade, as imagens e as declarações deste “contra-êxodo”, assim o descreve a jornalista, são poderosas: “É a alegria do retorno”, disse Abu Matter ao jornalista. “Pensávamos que, como os nossos antecessores, não iríamos voltar.”
“Vimos uma mudança na disposição de toda a gente”, descreveu pelo seu lado o jornalista Hani Mahmoud, também da Al-Jazeera. “Nunca vimos pessoas tão felizes nos últimos 15 meses.”
“Um homem entre os que estavam a regressar, ouvido pela emissora Al-Jazeera, disse que irá pôr uma tenda no sítio onde era a sua casa, “o que é muito melhor do que estar deslocado à força no Sul de Gaza”. [ver Publico]
“O meu coração está a bater. Pensei que nunca mais voltaria”, disse Osama, um funcionário público de 50 anos e pai de cinco filhos, ao chegar à cidade.
“Quer o cessar-fogo seja bem-sucedido ou não, nunca mais deixaremos a cidade de Gaza e o norte, mesmo que Israel envie [um] tanque para cada um de nós. Acabaram-se as deslocações.”
Jonathan Crickx, responsável de comunicações (…) “As famílias estão a deslocar-se com tudo o que podem carregar, mas não é muito, porque a maioria está a andar a pé.” [ver The Guardian]
Mas, afinal, para que querem estes humanos, que regressam nesta extraordinária disposição a escombros que outrora foram o palco das suas vidas, uma “Riviera do Médio Oriente”?
São insondáveis e flutuantes os planos de Trump e muito se tem falado acerca disso, mas, nesta questão particular, talvez a melhor resposta tenha sido a do não recomendável ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Araghchi: “Em vez dos palestinianos, tentem expulsar israelitas; levem-nos para a Gronelândia para que possam matar dois coelhos de uma cajadada só”. [ver Publico].
[1] Cf. Irene Flunser Pimentel, “Nos 80 anos da Conferência de Wannsee”, Jornal Público, 20 de Janeiro de 2022.
[2] (Cf. Frank Jacob, A Crossroad on the Way to Destruction – The Impossibility of the Madagascar Plan and the Destruction of the European Jews, https://www.academia.edu/3685543/A_Crossroad_on_the_Way_to_Destruction_The_Impossibility_of_the_Madagascar_Plan, p. 5.
Rui Estrada é professor da Universidade Fernando Pessoa.
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