O número anual de batismos caiu cerca de 30% na Irlanda ao longo da última década, num declínio explicado sobretudo pela diminuição do número de nascimentos, mas também pelo aumento do número de pessoas que se dizem sem sem religião.
Os dados provêm de um novo estudo do Iona Institute, divulgado pelo jornal Crux, que compara a evolução dos batismos nas dioceses da República da Irlanda e da Irlanda do Norte ao longo de dez anos. No mesmo período, o número de nascimentos diminuiu 19,9% na República da Irlanda e 21,3% na Irlanda do Norte, numa redução global de 18,8%.
“O maior contributo para o declínio [dos batismos] é explicado pela diminuição do número de nascimentos”, afirma o documento do Iona Institute, uma organização cristã de investigação e advocacy. Mas o estudo acrescenta que “o efeito da secularização tem sido muito significativo”, à medida que aumenta o número de pessoas que se identificam como não tendo religião.
Para Tom Finegan, presidente do Iona Institute, os números não são surpreendentes perante as duas tendências. “Dado que os nascimentos caíram quase um quinto na última década, e que mais pessoas assinalam a opção ‘sem religião’ no recenseamento, seria de esperar uma grande queda nos números dos batismos”, afirmou, citado pelo Crux.
Menos crianças, mas também menos católicas
Os dados oficiais do Central Statistics Office (CSO), o instituto nacional de estatística irlandês, mostram igualmente uma alteração significativa na identificação religiosa das crianças mais pequenas.
Em 2016, 78,3% das crianças entre os 0 e os 4 anos eram identificadas como católicas no recenseamento, enquanto 9,2% eram registadas como não tendo religião. Em 2022, as proporções passaram para 65,4% e 15,6%, respetivamente, segundo os dados utilizados pelo estudo.
Os números oficiais do CSO confirmam a tendência: no recenseamento de 2022, 65% das crianças dos 0 aos 4 anos foram identificadas como católicas e 16% como não tendo religião. Entre os 5 e os 9 anos, a proporção de católicos subia para 72%, enquanto os que não tinham religião representavam 11%.
A mudança é ainda mais evidente quando se olha para a população em geral. Entre 2016 e 2022, a percentagem de habitantes da República da Irlanda que se identificavam como católicos caiu de 79% para 69%. Ao mesmo tempo, o número de pessoas que declararam não ter religião aumentou em 284.269, ultrapassando os 736 mil, mais de 14% da população.
Um catolicismo ainda “cultural”
Apesar da redução da identificação católica, o estudo chama a atenção para a persistência de um fenómeno que Finegan designa por “catolicismo cultural”.
Segundo os dados apresentados pelo Iona Institute, 67,9% das mães com filhos entre os 0 e os 4 anos identificavam-se como católicas no recenseamento de 2022, embora uma grande maioria não frequentasse regularmente a missa. Para o responsável, estes números mostram que a ligação cultural ao catolicismo continua a ter expressão na sociedade irlandesa.
É precisamente esta persistência que levanta uma questão sobre o futuro dos batismos: até que ponto a identificação cultural com a Igreja continuará a traduzir-se na decisão de batizar os filhos?
A comparação entre dioceses mostra, entretanto, que a evolução está longe de ser uniforme. Na arquidiocese de Dublin, os batismos diminuíram 40% numa década. O estudo relaciona o resultado não apenas com uma quebra dos nascimentos superior à média, mas também com uma maior proporção de crianças identificadas como não tendo religião.
Em Meath, a redução chegou aos 40,8%, enquanto na diocese de Down e Connor foi de 38% e em Cloyne de 30%. Mas houve dioceses onde o declínio foi muito mais limitado: em Achonry, os batismos diminuíram apenas 3,2%, enquanto Elphin registou mesmo um ligeiro aumento, de 0,9%. De referir que estas últimas são dioceses de menor dimensão e predominantemente rurais comparativamente com Dublin e Down e Connor (que inclui a zona de Belfast).
Uma questão que vai além da Igreja
A Irlanda apresenta atualmente uma taxa de fecundidade de cerca de 1,5 filhos por mulher, abaixo do nível de substituição de 2,1. Por isso, “a queda dos batismos deve ser vista não simplesmente como resultado da secularização, mas ainda mais como resultado da diminuição dos nascimentos”, sublinha Finegan.
O responsável considera que a questão deve preocupar não apenas as comunidades religiosas, mas a sociedade no seu conjunto.
A evolução dos batismos acaba, assim, por cruzar duas transformações profundas da sociedade irlandesa: há menos crianças e, entre as crianças que nascem, uma proporção crescente é educada fora de uma identidade religiosa. A Igreja enfrenta, por isso, não apenas uma diminuição do número de famílias que pedem o batismo, mas uma mudança mais ampla na forma como a identidade religiosa é transmitida entre gerações.
O próprio Iona Institute admite que permanece em aberto a questão de saber se o chamado “catolicismo cultural” continuará a ter peso na vida irlandesa. Como termo de comparação, Finegan aponta para o Reino Unido, onde, apesar dos baixos níveis de prática dominical, mais de 42 mil crianças católicas foram batizadas em 2023, segundo dados do Anuário Pontifício.
Na Irlanda, os números parecem mostrar que a pertença cultural ainda não desapareceu. Mas mostram também que ela está cada vez menos garantida à nascença.










