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Encontro da Fraternidade

“Emigrar para Portugal foi a melhor escolha que fizemos”

| 09/02/2025

Enganados pelos que no estrangeiro e em Portugal exploram a sua vulnerabilidade indefesa, confrontados com burocracias a que é impossível responder, tropeçando nas dificuldades da língua, condenados a espaços exíguos por causa do preço dos quartos e dos apartamentos, longe das famílias e da terra da sua infância – carregando todas estas feridas conseguem dizer: “Emigrar para Portugal foi a melhor escolha que fizemos”. Nisto coincidem os seis imigrantes que tomaram a palavra durante a tarde de dia 8 de fevereiro, nas instalações do CUPAV, em Lisboa.

Falam perante quatro dezenas de pessoas que as escutam num silêncio respeitoso. Exprimem-se num português correto, com sotaques variados, ou em inglês. Para alguns deles qualquer destas línguas é e será sempre uma segunda língua. Mas o que contam impõe respeito, só pode ser escutado com recato. São, apesar de tudo, imigrantes com situações regularizadas e relativamente bem incluídos nos espaços em que circulam. As dificuldades e angústias que viveram desde que chegaram a Portugal, não se comparam com a ansiedade, o medo, o terror e o desespero com que viviam nos seus países de origem. Por isso dão tanto valor ao que encontraram em Portugal: segurança, liberdade, gente simpática, comunidades acolhedoras e uma vida com qualidade.

“Falam perante quatro dezenas de pessoas que as escutam num silêncio respeitoso. Exprimem-se num português correto, com sotaques variados, ou em inglês. Para alguns deles qualquer destas línguas é e será sempre uma segunda língua.”  Foto: Aspeto parcial da Assembleia © António José Paulino.

As suas histórias e o seu olhar revelam aos que os escutam um país diferente daquele que julgavam conhecer: afinal tem pessoas capazes de dar e acolher sem qualquer expectativa de vir a ter qualquer retribuição; tem gente capaz de abrigar mais dois ou três na sua minúscula casa já superlotada; tem um ensino que educa as crianças a comportarem-se como bons cidadãos e a transmitirem esses valores aos pais; tem colegas de trabalho que são mesmo bons camaradas; e tem comunidades (não poucas de inspiração religiosa) que recebem os estrangeiros com um sorriso pronto e capaz(!) de ajudar quem chega.

No verso da medalha, as regras kafkianas: o visto que tens de apresentar, mas não podes obter, porque te obriga a regressar ao país de onde fugiste para o pedir; ou, para quem acaba de chegar e quer alugar uma casa, um quarto, a obrigação de mostrar o comprovativo do IRS do ano anterior e de apresentar alguém disposto a ser seu fiador!

Não importa. “Segurança e qualidade de vida é o que queremos. E aqui temos ambas.” Angélica já superou a imensa ferida que longos meses separada dos filhos lhe causou. Tudo por causa de um visto que a obrigou a voltar a Angola onde regressou sem os filhos e de onde parecia não conseguir voltar a sair. No último minuto conseguiu, finalmente, obter o precioso visto. A dor dessa separação ainda lá está, mas já lá vai o desânimo, o cansaço, a depressão. “Tinha finalmente os meus filhos de volta, todos juntos em Portugal, legalizados, eu com emprego, eles crescendo e eu… um vazio, um desgosto, uma tristeza dentro de mim…”. Mão amiga permitiu-lhe encontrar ajuda e vontade para arranjar um segundo emprego, amealhar para pagar uma pós-graduação e firmar-se no seu projeto: “Criar um serviço de apoio à literacia legal e financeira dos imigrantes. É isso, penso continuar cá!”

 

“Imigrar não é fácil. É ruim, mesmo!”

‘ “Imigrar não é fácil. É ruim, mesmo! E aqui você encontra gente ruim também, mas há gente muito boa” – diz Suelen. E foram estes últimos que os ajudaram a ultrapassar o obstáculo mais difícil que encontraram em Portugal: alugar um apartamento.’ Foto: Alguns dos imigrantes convidados no uso da palavra © António José Paulino

Suelen e o seu marido Júnior não dizem coisa diferente quando constatam: “A cada dia que passa vamos desistindo mais do Brasil. Sim, passou a vontade de voltar para o Brasil.” E não é que estejam em Portugal há muitos anos: Júnior chegou há dois anos e a sua mulher e os seus dois rapazes há quatro meses. Na sua pequena localidade do Ceará (Nordeste brasileiro) Suelen geria uma loja e Júnior era funcionário público. “Vivíamos estáveis”. Mas o crescimento da criminalidade alimentada pelos gangs da droga abalou essa estabilidade e só deu para pensar em sair dali. Quando a violência dos traficantes tornou a vida insuportável, deixou de haver lugar para dúvidas: era preciso deixar a sua terra, sair do Brasil!

“Imigrar não é fácil. É ruim, mesmo! E aqui você encontra gente ruim também, mas há gente muito boa” – diz Suelen. E foram estes últimos que os ajudaram a ultrapassar o obstáculo mais difícil que encontraram em Portugal: alugar um apartamento. Primeiro apertados num quarto, depois enganados por quem lhes “arrendou”, exigindo “três meses de aluguer adiantado”, um apartamento que, afinal, era um alojamento local de que não era proprietário. Trauma de que só recuperaram apoiados por uma comunidade de freiras, que os ajudou a encontrar a casa onde agora moram. “Europeu é gente séria, mais pesada, nada como brasileiro sempre conversador. Mas as irmãs nos deram a humanidade, o sorriso e o calor de que precisávamos”.

O mesmo sentem Sabá e a sua irmã Kiran. No avião a caminho de Lisboa disseram uma para a outra: “Parece que vamos finalmente ter com a nossa gente!…” Nada mais inesperado para ser dito entre duas mulheres paquistanesas deixando o seu país em direção ao extremo ocidental da Europa. Mas sim, “a nossa gente” é a gente que vive num país católico em que a Virgem Maria apareceu. Virgem de Fátima em quem a mãe sempre confiou e a quem muito rezou. Lá, nesse país católico, a vida só pode ser melhor do que a opressão, o medo permanente e a perseguição em que as duas irmãs viviam desde que os irmãos casaram e deixaram a casa paterna. “Ser mulheres sós no Paquistão é muito perigoso. Viver sem ter um homem em casa é impossível. Pior ainda se és católica. O Paquistão não é um lugar para minorias. É muçulmano e violento para quem não o é.”

A história que Sabá e Kiran contam é um desfiar de fugas e subterfúgios para conseguirem manter-se incólumes e vivas. Impossibilitadas de prosseguir estudos superiores por falta de dinheiro, mas sobretudo por causa da discriminação contra as mulheres estudantes, foram obrigadas a mudanças de emprego, a mudanças forçadas de cidades, a viver em lojas porque “ninguém aluga uma casa decente a duas mulheres sós”, fugindo dos olhares dos homens, “olhares que nos desnudavam, parecendo que olhavam para dentro de nós”, sempre sujeitas à dureza de se “sentirem propriedade pública”, que é como uma mulher sozinha, sem pai nem irmão ou marido é vista no Paquistão.

Irmão imigrado na Europa foi quem lhes abriu o caminho para saírem daquele inferno de vida. Duas portuguesas que ele conheceu, fora de Portugal, numa comunidade do movimento católico dos folcolares, fizeram-no encantar-se por um país que devia ser uma espécie de paraíso feliz. Aquele contacto, alguns conhecimentos em Portugal e a Virgem Maria, convergiram para a decisão de procurar vida no extremo da Europa.

O encanto do irmão, não as enganou. Encontraram “gente generosa, simples, acolhedora e respeitadora”. A língua ainda é um embaraço. Mas é um obstáculo que o tempo permitirá superar.

 

Histórias de arrepiar as entranhas

‘ “Quem vem para Portugal vem para somar, não para vem para destruir, para fazer coisa ruim” ‘. Foto: Alguns dos imigrantes convidados no uso da palavra. António José Paulino

 

“Quem vem para Portugal vem para somar, não para vem para destruir, para fazer coisa ruim”. Quem o diz é Júnior. Quem também o vive no dia-a-dia é Siraj na sua profissão de tradutor no Centro de Acolhimento de Imigrantes da Bobadela, onde ajuda cidadãos estrangeiros a compreender e fazerem-se compreender no caminho para se legalizarem, arranjar emprego, aprender a língua e encontrar onde ficar. Siraj fugiu da Eritreia há 20 anos. Ainda não conseguiu tirar de lá a sua mulher. Sabe que não a pode fazer passar o que ele passou para chegar à Europa – “ela morreria pelo caminho” –, mas na sua voz tranquila e pausada, falando um perfeito português, percebe-se que alimenta a esperança de um dia ainda poderem os dois viver em Portugal.

A história de Siraj arrepia as entranhas do mais insensível dos ouvintes. “Em 2005, a meio de cumprir o serviço militar obrigatório compreendi que não ia conseguir mudar nada. No meu país quem manda é o Governo, são os governantes, a população não risca nada”. O país dele é (era?) a Eritreia. Um país em que o passaporte é um documento negado a todos que estão na vida ativa e, sobretudo, negado a qualquer pessoa com algum grau de qualificação. “Tomei a decisão de fugir daquela situação. Fugi para o Sudão”.

Se Siraj se sentia impotente na Eritreia, fugindo do país começou o seu indescritível calvário. No Sudão dirigiu-se ao escritório local do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) para solicitar proteção internacional e o estatuto de refugiado. “Fiquei um ano à espera, mas não aconteceu nada.” A sua vontade, o seu sonho de vir para a Europa, “para um país seguro e livre”, fê-lo acreditar em traficantes a quem entregou “um dinheirão” para o levarem pelo deserto até à Líbia.

“Éramos 26 pessoas. Havia velhos, crianças e mulheres grávidas. Os contrabandistas tinham-nos dito que numa semana estaríamos na Líbia. Arranjámos mantimentos e água para uma semana. Demorámos um mês. Não sei com não morreu ninguém. Durante a viagem vimos imensos cadáveres de outros que não tiveram a nossa sorte.”

Depois de quatro meses conseguiu recompor-se e chegar a Trípoli, onde se instalara toda uma comunidade eritreia. Arranjou trabalho sempre no fito de juntar dinheiro para pagar a passadores que o levassem até Itália. Tentou várias vezes. Sempre apanhado pelas autoridades líbias. É preso. Depois libertado. Volta a tentar. Passa cinco anos nisto, somando fracassos.

Dá-se a Primavera Árabe e rebenta a guerra civil. Siraj é um entre os seis milhões de imigrantes que tentam sobreviver na Líbia. Desiste e foge para a vizinha Tunísia, onde vive num campo de refugiados instalado no meio do deserto. Há ali um escritório da ACNUR. Siraj tenta solicitar, mais uma vez, proteção internacional. É uma portuguesa que o entrevista. Nenhum refugiado tem direito a escolher o país de acolhimento. Mas isso não tem qualquer relevância para Siraj. Ele só quer “chegar a um país livre e seguro onde possa viver e trabalhar”. Espera oito meses, mas está confiante de que agora o seu pedido de asilo terá resposta positiva. O país que o aceita é Portugal. Ele mais 23 eritreus vão ser postos num avião a caminho de Lisboa. A Ana, a funcionária do ACNUR que o atendera, pergunta: “A língua do teu país é difícil? Sim – responde a portuguesa – bem mais difícil do que o inglês”. Dificuldade não é coisa que Siraj não conheça…

Em Lisboa, a sua vida começa com quatro meses no Centro de Acolhimento de Imigrantes na Bobadela. Ajudam-no a fazer todo o roteiro das instituições por que tem de passar para ficar devidamente legalizado. Aprende português. De tal maneira que anos depois vai ser aceite como tradutor. “Sinto-me em liberdade e segurança, sou parte da comunidade. Sair de minha casa, sabendo que vou voltar sem que nada me aconteça é muito bom. Talvez quem sempre viveu em liberdade e segurança não saiba bem o que elas são e quanto valem…”

 

Um país de liberdade e segurança

“As peças gráficas contendo os compromissos escritos dos participantes perante o mundo que os seis imigrantes lhes tinham trazido foram depois coladas no painel da fraternidade exposto numa das paredes da sala em que o encontro decorreu. Foto: Momento em que o painel da fraternidade foi sendo acrescentado com os escritos dos participantes. DR

 

“Com 14 anos pedi ao meu pai que me deixasse emigrar”, conta Angélica. Recebeu como resposta: “O quê? E então quem fica para tratar dos teus irmãos mais pequenos?!” E Angélica foi condenada a viver mais uns anos em Angola, torpedeada no sonho que sempre alimentara desde pequena. Era um sonho forçado a continuar adiado. Mas Angélica não fugia de nada. Queria outra vida, mas a sua não corria perigo. Esse era o caso dos outros imigrantes que participaram no Encontro da Fraternidade. Mas tanto para ela como para todos os outros, o país em que agora vivem é um oásis de segurança, tranquilidade e liberdade.

Mais do que isso, sentem-se aceites, integrados e respeitados. Encontram “gente ruim” como em qualquer lado, mas não são esses que marcam o seu quotidiano. Os portugueses são, para eles, prazenteiros, acolhedores e generosos. Os seus filhos têm amigos, uma rede de suporte confiável e um ensino que os valoriza. Por tudo isso são agradecidos ao país que os acolheu, prontos a esquecer os “ossos” mais duros que tiveram de roer. E guardam a memória de que os momentos mais terríveis das suas vidas não foi em Portugal que os viveram.

Talvez que o trajeto conseguido por estes seis imigrantes só tenha sido possível por terem sido acolhidos por instituições e comunidades que lhes deram a mão no tempo certo e lhe facilitaram relações com gente portuguesa. Mais difícil é, seguramente, a vida e a integração daqueles que chegam sem quaisquer referências para além das máfias que lhes proporcionam a vinda, ou de relações familiares fechadas no seu gueto.

Estas foram algumas das ideias partilhadas entre os participantes nos grupos de trabalho que se seguiram à escuta dos relatos dos convidados. As peças gráficas contendo os compromissos escritos dos participantes perante o mundo que os seis imigrantes lhes tinham trazido foram depois coladas no painel da fraternidade exposto numa das paredes da sala em que o encontro decorreu.

O Encontro da Fraternidade foi organizado pelo grupo Cuidar da Casa Comum em Santa Isabel e decorreu no Centro Universitário Padre António Vieira (CUPAV), em Lisboa, no final da semana em que se comemorou o sexto ano da assinatura pelo Papa Francisco e o Imã Ahmad Al-Tayyeb do Documento sobre a Fraternidade Humana em prol da Paz Mundial e da Convivência Comum, a 4 de fevereiro de 2019. Na sequência deste texto, que ficou conhecido como a Declaração de Abu Dahbi, a Assembleia-Geral das Nações Unidas proclamou o dia 4 de fevereiro como Dia Internacional da Fraternidade Humana.

 

(Foto de Destaque: O painel da Fraternidade da autoria de Ana Cordovil ainda sem as peças gráficas escritas pelos participantes. DR)

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