“A esperança, ao contrário do imobilismo da queixa, da crítica e do desalento, é (afinal) uma forma de activismo”, escrevia a realizadora Graça Castanheira no passado dia 8 de Junho num artigo de opinião no Público.
Esse texto será o ponto de partida para a conversa inicial do encontro de leitores do 7MARGENS que decorre no próximo sábado, em Lisboa (e que terá uma segunda edição no dia 4 de Outubro, no Porto). Já houve leitores a inscrever-se, mas queremos que haja a maior participação possível nesta iniciativa que o 7MARGENS organiza presencialmente pelo terceiro ano consecutivo. Quem está interessado(a) em participar – e esperamos que sejam muitas pessoas – pedimos que envie uma mensagem para setemargens@setemargens.com, indicando o nome e o encontro (Lisboa ou Porto) para o qual pretende inscrever-se.
Os leitores têm sido, desde o primeiro momento, um património fundamental deste projecto: foram eles que ajudaram a pensar e construir o 7MARGENS e têm sido os(as) leitores(as) a suportá-lo financeiramente na sua quase totalidade. Por isso gostaríamos muito de ter a participação do maior número possível de pessoas.
No artigo referido, a cineasta questiona o facto de alguém que “alimenta uma esperança terrena não concretizada” ser visto muitas vezes “como imprudente” e confrontado “com o seu insucesso”. E recorre a Søren Kierkegaard, o filósofo dinamarquês cristão, considerado o primeiro existencialista, para sugerir que “ter esperança é comportarmo-nos como se aquilo que desejamos que aconteça tivesse uma boa hipótese de acontecer – com a esperança alarga-se o passo e somos ousados”.
O texto – que reproduzimos, com autorização da autora, no final desta notícia – será assim uma forma de iluminar a reflexão sobre estes tempos sombrios que vivemos, atravessados por guerras, emergência climática, crescimentos da xenofobia e ódio à diferença, bem como pelo crescimento do desrespeito dos direitos humanos.
Por isso, considerámos que seria relevante propor uma reflexão e um debate sobre a esperança, e por isso recorremos ao artigo de Graça Castanheira como texto que iluminará o debate.
Prioridades para 2026

Uma parte dos participantes no primeiro encontro presencial de leitores do 7MARGENS em Lisboa há dois anos, durante a intervenção do historiador António Matos Ferreira. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS
Como já referimos em anterior notícia, não pretendemos, desse modo, convidar à despreocupação ingénua mas, antes, assumir o enorme desafio à capacidade de habitar naquilo em que se acredita e defender a possibilidade de construir uma realidade diferente para melhor – precisamente na linha do que sugere Graça Castanheira.
O encontro terá lugar na casa das Servas de Nossa Senhora de Fátima (Rua da Escola Politécnica, 100, próximo da estação do metro do Rato), em Lisboa, a partir das 12h. Terminará pouco depois das 17h00. Por volta das 13h30 partilharemos o almoço com o que cada um(a) trouxer – de preferência, alimentos que não exijam louça ou talheres.
Antes de almoço, haverá a reflexão partilhada sobre o tema da esperança, na sua relação com o trabalho e a missão do 7MARGENS. Depois da refeição, o centro do debate será um olhar crítico sobre o percurso recente do 7MARGENS. Em análise estarão os avanços conseguidos nas notícias, opiniões e reportagens publicadas ao longo do último ano, bem como as ausências e carências mais significativas de conteúdos e iniciativas que poderiam projectar o jornal junto de outros públicos e tornar a sua leitura mais interessante para todos.
Neste âmbito, haverá também notícias e ocasião para sugestões sobre os três círculos de discussão formados por leitores do 7MARGENS (não-violência, democracia e sínodo) e ainda sobre a iniciativa de dar voz às crianças, desenvolvida pela primeira vez no passado dia 1 de Junho, e à qual pretendemos dar regularidade. As prioridades para 2026 e o próximo futuro estarão também no centro do debate.
Como ficou dito, o encontro do Porto decorre no próximo dia 4 de Outubro, no Espaço da Porta, da comunidade dos Padres Redentoristas (Rua da Firmeza, 163), onde já fomos acolhidos no ano passado.
Sobre a esperança
Texto de Graça Castanheira

Fotografia © Joaquim Félix
Uma pessoa que alimenta uma esperança terrena não concretizada é muitas vezes vista como imprudente e é mesmo confrontada com o seu insucesso
Desde a tomada de posse de Trump em Janeiro passado, que amigos e conhecidos me fazem o mesmo tipo de perguntas. Querem saber como andam os meus níveis de esperança, a minha fé na humanidade. A 19 de maio recebi este SMS: “Então, continuas a achar que somos uma espécie com piada?” Tendo a responder com monossílabos, os suficientes para garantir que o meu edifício moral se encontra intacto. Mas vontade de encontrar respostas convincentes não me falta – e aqui se segue uma tentativa.
Tanto a esperança como as perguntas que me fazem foram pensadas por Kierkegaard, já no século XIX. Este filósofo dinamarquês considera que “a vida inteira de uma pessoa deve ser o tempo da esperança”. E define-a como uma relação expectante com a possibilidade do bem e daí não condicionada a qualquer expetativa temporal. Se a esperança pertence às possibilidades infinitas do bem futuro, pertence, por inerência, à ordem do eterno. Kierkegaard também assinala que a esperança é muitas vezes indevidamente cobrada a quem a sente: uma pessoa que alimenta uma esperança terrena não concretizada é muitas vezes vista como imprudente e é mesmo confrontada com o seu insucesso, para assim ficar claro que terá errado. Kierkegaard opõe-se ao exercício desta “sagacidade” que julga a esperança apenas em relação à sua concretização. Em vez disso, propõe que se dê importância ao valor dos fins esperados. Em certa medida, a esperança eterna nunca calcula mal, mesmo e ainda que falhe a concretização do desejado. Por outras palavras: o progresso não é linear e a esperança não tem prazo de validade.
Talvez possa responder aos meus amigos com esta frase, mas acumularam-se tantas razões para a desesperança, desde janeiro até hoje, que não creio que baste – é necessária mais evidência filosófica. Pode valer a pena revisitar a corrente meliorista, central na filosofia pragmatista, que, em pleno século XX, sugere que a vida pode melhorar se o esforço humano for orientado nesse sentido – daí o nome, do latim melior, “melhor”. Os melhoristas acreditam que existe suficiente bondade na vida e nas suas condições, para que, através do pensamento, da inteligência e do esforço sincero, seja possível melhorar o mundo. Assim, o objeto de esperança maior do meliorismo, é, antes de tudo, a democracia, uma vez que esta materializa a ideia de que o progresso político e ético depende do agenciamento, dos valores, ações e comportamentos de cada cidadão.
E para os melhoristas, de forma muito concreta e pragmática, ter esperança é comportarmo-nos como se aquilo que desejamos que aconteça tivesse uma boa hipótese de acontecer – com a esperança alarga-se o passo e somos ousados. Quando, pelo contrário, sentimos receio, encurtamos o passo, protegemo-nos, somos cautos e tolhidos. Há um comportamento, uma prática, que decorre da esperança; há um modo de ser e de agir. É neste sentido que alguns filósofos melhoristas sugerem que existe na esperança a possibilidade de um otimismo militante, que passa por uma dedicação intrínseca de energia às atividades projetivas. A esperança, ao contrário do imobilismo da queixa, da crítica e do desalento, é (afinal) uma forma de ativismo.
A chegada de uma mundividência moderna, que vê a história como contingente e entende o futuro como um espaço para potenciais mudanças, altera o significado da esperança, levando os melhoristas a considerar que, “enquanto forma de antecipação livre e orientada para o futuro, a esperança é o mais humano de todos os afetos”. Subscrevo estas reflexões do meliorismo. Espero que os meus amigos também.
(O artigo é o resumo da palestra “Sobre a esperança”, promovida pela Associação Beatriz Ângelo, sediada na Universidade do Porto.)










