A Igreja que emergiu do Concílio Vaticano II é mais missionária e prepara todos os fiéis para a missão de uma forma diferente. A eucaristia, no centro da vida da Igreja, alimenta as pessoas para a evangelização.
O cardeal Arthur Roche, o inglês que dirige, desde 2021, o Dicastério para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, deu recentemente uma entrevista ao The Tablet, semanário católico publicado em Londres. Questionado sobre se Leão XIV iria alterar a legislação do Papa Francisco relativamente ao uso da missa tridentina, respondeu com um enfático «Não».
«O que o Vaticano II fez foi afirmar que a Igreja precisa de ser mais missionária do que tem sido. E que, para preparar as pessoas para serem missionárias, o próprio núcleo central da vida da Igreja, que é a eucaristia, tem de alimentar as pessoas de uma forma diferente. A abundante riqueza da Sagrada Escritura que hoje é oferecida através da celebração da missa e dos sacramentos é algo que antes não estava ao nosso alcance, mas que agora está», explicou.
O cardeal acrescentou ainda que, enquanto na missa tridentina o sacerdote age «em nome da assembleia», no novo rito «quando a missa está a ser celebrada, porque os batizados são um povo sacerdotal, também eles celebram com o sacerdote».
Culto versus missão

“Vivi quase treze anos na Etiópia e testemunhei, em primeira mão, esta tensão entre culto e missão, entre liturgia e evangelização, e como uma ênfase exagerada no culto pode, de facto, diluir o ímpeto missionário da Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedo e, em menor grau, na Igreja Católica Etíope.” Foto: Catedral de Emdeber (Rito Oriental). DR
A explicação que o cardeal Roche deu para que o Papa Leão mantenha a legislação relativa à celebração da missa tridentina toca em pontos muito importantes para uma Igreja ministerial e missionária.
As duas missas – a tridentina e a do novo rito latino – sublinham duas eclesiologias contrastantes e duas formas de compreender a vida cristã através do culto e da missão. A ênfase no culto divino alimenta uma visão mais tradicional da Igreja. Contudo, as últimas palavras de Jesus são um mandato missionário e um envio: «Ide por todo o mundo e anunciai o Evangelho a toda a criatura.»
Esta tensão entre culto e missão está muito presente nas controvérsias em torno do uso da missa latina tradicional. Alguns católicos preferem uma liturgia envolta em mistério na sua linguagem, nos seus ritos, rituais e paramentos. Os que defendem a celebração da missa tridentina tendem também a opor-se às reformas conciliares, mantendo a eclesiologia pré-conciliar. Nesta perspetiva, a vida cristã atinge o seu cume na liturgia: uma celebração longa e mistérica, repleta de rituais diversos (circula na internet um vídeo da desparamentação do cardeal Raymond Burke, que dura quase dez minutos, após ter celebrado a missa tridentina em Fátima.) Esta insistência na missa tradicional pode não ser apenas nostalgia da pompa litúrgica. Pode sinalizar uma rejeição da eclesiologia missionária nascida do Vaticano II.
O Concílio Vaticano II propôs uma Igreja missionária, de portas e janelas escancaradas, para deixar sair o fumo do incenso e o aroma da cera ardida: uma Igreja que sai ao encontro do mundo para partilhar o Querigma [anúncio]. Em suma, culto e missão devem ser conjuntivos e não disjuntivos.
A minha experiência

“De facto, os longos ritos ortodoxo e católico etíope incluem quatro leituras na celebração Eucarística: das Cartas de Paulo, das Epístolas Católicas, dos Atos dos Apóstolos e dos Evangelhos. Habitualmente, cada leitura é proclamada voltada para um ponto cardeal, sendo o Evangelho anunciado virado para o Oriente.” Foto: Capela de Chirra – Missão de Qillenso, na Etiópia. DR
Vivi quase treze anos na Etiópia e testemunhei, em primeira mão, esta tensão entre culto e missão, entre liturgia e evangelização, e como uma ênfase exagerada no culto pode, de facto, diluir o ímpeto missionário da Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedo e, em menor grau, na Igreja Católica Etíope.
Quando estava na missão de Haro Wato, travei amizade com o Abba Yigram (não sei se estou a grafar corretamente o seu nome), um presbítero ortodoxo em Sollamo, a capital do distrito de Uraga, a cerca de nove quilómetros da casa onde vivia.
Um dia, numa das nossas muitas conversas – sempre mediadas pela esposa ou pelos filhos, pois ele era um amara de Gojjam e, embora tivesse vivido mais de duas décadas entre os guji, nunca aprendeu a língua local –, perguntei-lhe por que é que não saía de dentro das paredes da sua igreja, como faziam os católicos e os protestantes, para anunciar o Evangelho nas aldeias. Respondeu-me que ao celebrar a eucaristia na igreja já proclamava a Palavra de Deus aos «quatro ventos».
De facto, os longos ritos ortodoxo e católico etíope incluem quatro leituras na celebração Eucarística: das Cartas de Paulo, das Epístolas Católicas, dos Atos dos Apóstolos e dos Evangelhos. Habitualmente, cada leitura é proclamada voltada para um ponto cardeal, sendo o Evangelho anunciado virado para o Oriente.
Eucaristia para a missão

“O Concílio Vaticano II proclamou que a Eucaristia é fonte e ápice da vida cristã e que a Igreja e todos os batizados são missionários por natureza.” Foto: Igreja de S. Daniel Comboni de Adola/Missão de Qillenso (Etiópia). DR
Como sublinha o cardeal Roche, a celebração da Eucaristia e dos demais sacramentos em língua vernácula, com a sua abundância da Palavra de Deus, visa promover uma Igreja missionária e preparar os fiéis para a missão; uma Igreja que vai além do seu próprio culto e acrescenta à sua liturgia martyria (testemunho), diaconia (serviço) e koinonia (comunhão).
O Concílio Vaticano II proclamou que a Eucaristia é fonte e ápice da vida cristã e que a Igreja e todos os batizados são missionários por natureza. A liturgia das duas mesas – a mesa da Palavra e a mesa da Eucaristia – é celebrada para alimentar os fiéis e enviá-los em missão. Apela igualmente a uma celebração mais inculturada e participativa, através do canto e da dança – como testemunhei nas missas dominicais que tive o privilégio de celebrar na Etiópia e no Sudão do Sul.
Contudo, podemos ainda notar que o texto oficial da missa do novo rito romano, em latim – aprovado em 1969 –, termina com o imperativo Ite, missa est. A divina liturgia e a vida cristã não terminam dentro dos muros sagrados da igreja: pelo contrário, dá início à «missão» no mundo, através do testemunho de vida dos fiéis e do anúncio do que escutaram na igreja.

“Apela igualmente [o Concílio Vaticano II] a uma celebração mais inculturada e participativa, através do canto e da dança – como testemunhei nas missas dominicais que tive o privilégio de celebrar na Etiópia e no Sudão do Sul.” Foto: Igreja de Nossa Senhora das Dores de Qillenso (Etiópia). DR
José Vieira é padre católico e integra a congregação dos Missionários Combonianos
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