“Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo: esta é a lei, não dos homens, mas de Deus. Adélia é fogo, fogo de Deus em Divinópolis”, dizia sobre ela Carlos Drummond de Andrade. “Católica fervorosa”, “mãe de cinco filhos”, e “dona-de-casa”, levanta-se “para fazer pão, rezar e escrever porque sabe que Deus se alimenta de palavras e é impossível distinguir um poema de uma prece”. Adélia Prado foi agraciada com o Prémio Camões 2024.

Adélia Prado: “Quero dividir minha alegria com todos os amantes da língua portuguesa, esta fonte poderosa de criação.” Foto © Ministério da Cultura do Brasil.
A poeta Adélia Prado publicou o primeiro livro aos 40 anos. Era mãe de cinco filhos. Desde 1976, Bagagem teve várias dezenas de edições. Quase cinquenta anos depois, recebe o Prémio Camões, considerado como a mais relevante distinção literária de língua portuguesa. É o reconhecimento tardio da obra extraordinária de uma das mais amadas autoras brasileiras.
“Foi com muita alegria e emoção que recebi, hoje, dia 26 de junho, um telefonema da sra. Dalila Rodrigues, ministra da Cultura de Portugal, me informando que fui agraciada com o Prêmio Camões. Estava ainda comemorando o recebimento do Prêmio Machado de Assis, da ABL [Academia Brasileira de Letras], e agora estou duplamente em festa. Quero dividir minha alegria com todos os amantes da língua portuguesa, esta fonte poderosa de criação,” afirmou Adélia Prado, numa nota divulgada pelo jornal O Estado de S. Paulo.

Quando é editada em Portugal pela Cotovia em 2002, Bagagem é já uma obra sobejamente conhecida dos mais informados leitores de poesia. Carlos Drummond de Andrade foi o mais célebre dos primeiros empolgados com a poeta: “Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo: esta é a lei, não dos homens, mas de Deus. Adélia é fogo, fogo de Deus em Divinópolis. Como é que eu posso demonstrar Adélia, se ela ainda está inédita e só uns poucos do país literário sabem da existência desta grande poeta-mulher?” A citação de 1975 encontra-se na informação sobre a autora publicada pela Cotovia. A editora, que publicou a antologia Com licença poética e Solte os Cachorros em 2003, cita um número dos Cadernos de Literatura Brasileira dedicado à poeta para a observar “pronta para carregar a bandeira do anjo pleno, da guarda, da mais alta poesia brasileira”.
Adélia Prado nasceu em 1935, em Divinópolis, numa família humilde. O breve retrato publicado pela Cotovia referia três características: a “católica fervorosa”, a “mãe de cinco filhos”, e a “dona-de-casa”. Além disso, “Adélia Prado continua a levantar-se para fazer pão, rezar e escrever porque sabe que Deus se alimenta de palavras e, portanto, é impossível distinguir um poema de uma prece. Autora também de romances, Adélia Prado é coerente nesse mistério das suas palavras, e afirma não haver qualquer distinção entre poesia e prosa: Filha, diz-me o Senhor/ eu só como palavras”.
“Poesia com feitio de oração”
A primeira edição da sua Poesia Reunida foi publicada em 1991, na editora paulista Arx. “Se há explicação para o fenômeno poético que é a obra de Adélia Prado, ela deve estar escondida debaixo de um seixo bem-lavado num riacho perdido num sovaco de serra lá das suas abissais Minas Gerais”, escreve José Nêumanne na badana dessa obra. “Esta é uma poesia com feitio de oração”, diz o jornalista, acrescentando que “transpira fé em Deus em todos os poros”. Numa outra observação pertinente, constata que “na Eucaristia telúrica de Adélia, goiabas são abençoadas como hóstias sagradas e a comunhão do casamento faz-se no silêncio cúmplice da limpeza nocturna dos peixes, símbolo primitivo de sua fé afiada, ancestral e atual”.
José Nêumanne escreve ainda que “como os do rosário, os mistérios da poesia podem ser dolorosos ou gozosos. Mas, de um jeito ou de outro, nunca deixam de ser insondáveis. Sabe-se lá por quê, sem mais o quê, alguém é chamado a colóquios reservados com a beleza e a feiúra, a fé e a descrença, a esperança e o desconsolo. Não cabe ao poeta desvendá-los, mas tão-somente revelá-los.”
Como sucede, por exemplo, neste poema de Bagagem:
DESCRITIVO
As formigas passeiam na parede,
perto de um vidro de cola que perdeu a rolha. Há mais:
um maço de jornais, uma bilha e seu gargalo fálico,
um copo de plástico e um quiabo seco,
guardado ali por causa das sementes.
Tudo sobre uma cômoda, num quarto.
O vidro de cola está arrolhado com uma bucha de papel.
É sábado, é tarde, é túrgida minha bexiga feminina
e por isso vai ser menos belo que eu me levante e a esvazie.
Os analistas dirão, segundo Freud: complexo de castração.
Eu não digo nada, pela primeira vez, humildemente.
Vou-me deitar pra dormir, não antes sem rezar,
pelos meus e os teus.
A antologia Tudo que existe louvará, editada pela Assírio & Alvim em 2016, é o único dos livros de Adélia Prado publicados em Portugal que se poderá encontrar mais ou menos facilmente nas livrarias nacionais.
Nos anos mais recentes receberam o Prémio Camões João Barrento, ensaísta e tradutor português; Silviano Santiago, ensaísta, poeta, romancista, professor e tradutor brasileiro; Paulina Chiziane, escritora moçambicana; Vítor Manuel de Aguiar e Silva, académico; e Chico Buarque de Hollanda, escritor e cantor.










