Quando li este livro pela primeira vez, o que mais me tocou foi a coisa invisível: o exercício da escuta. Este livro não é comum por muitos motivos, mas o que mais me comove é este: o que me é dado ler é ainda a reverberação de um tempo largo de escuta. No lado invisível das letras que se juntam para este livro, está um encontro demorado entre duas pessoas. Nesse encontro e nessa demora, ambas criam espaço para que a outra exista e se diga com tempo. Sem interrupções, sem soluções, sem pressa, sem ilusões, sem querer romantizar nada nem dramatizar nada. Escutar apenas. Contar apenas. Leio este livro como quem recebe o eco que permanece de uma longa conversa, de um encontro improvável entre duas pessoas, de uma lenta amizade. Não se fala sobre amizade: a amizade é que fala. Não se filosofa sobre escuta: a escuta é que reverbera. Não se teoriza sobre nada: é a vida que se diz, directamente, é a realidade que se conta, sem artifícios literários, sem adornos.
Mas não é sempre fácil encontrarmos livros que sejam o resultado de um exercício humilde de escuta. Sabemos a origem das principais páginas: a necessidade de ter um relato vivo em que o Ibrahima pudesse apresentar-se, dar a conhecer o seu itinerário até chegar ao lugar onde estava a pedir asilo. Era importante que ele tivesse um modo de se comunicar, de entregar às autoridades a sua história. Primeiro, este livro não era um livro. Primeiro, este livro era uma cédula de identidade, era uma forma de dizer “Eu, este sou eu”. Não é sempre fácil encontrarmos um livro honesto, mas quando o encontramos, não temos dúvidas. Sobre este livro, não temos dúvidas.
Há um ritmo poético neste livro em que tantas vezes se contam as coisas pelos dedos. Os dias, as horas, os quilómetros. As palavras servem para dizer com exactidão as coisas e, no meio do caos, conseguir contar quantas camadas tem a noite, pode ser o exercício de lucidez que nos mantém com os pés no chão e a cabeça sobre o pescoço. Já vi gente que, no fundo do poço, começou a medir quantos dedos de altura tinha a água, começou a contar quantas pedras eram necessárias para fechar o círculo do aperto.
Já vi gente que, por essa exactidão, conseguiu escavar espaço para a lucidez que faltava, conseguiu insistir na procura de uma lógica entendível no meio da confusão e do medo. Ordenar a loucura em redor por tamanhos e alturas e pelos números exactos pode ser a maneira de nos salvarmos da loucura.
Leio também essa lucidez neste livro, que é um relato honesto, o testemunho de uma amizade e o resultado de uma escuta humilde e comprometida. Leio a corrente de uma coisa que sai de dentro de alguém, uma torrente que se solta de dentro da cabeça e flui para fora. Uma libertação. Porque quando se vive a experiência que neste livro é contada, a cabeça começa a ficar cheia de coisas que ardem. A cabeça começa a ficar muito quente, muito confusa e barulhenta, a cabeça começa a receber visões e vozes que podem tomar conta de nós, por dentro. É importante ter um tempo e um espaço para colocar isso fora, para não ficar esmagado sob o peso que cresce na cabeça. Esse tempo e esse espaço, tem de ser sempre uma pessoa. Uma pessoa, como o Amets, torna-se esse espaço em que é possível um outro ter espaço. Alguém que oferece espaço, largueza, não aperto. Isso é uma salvação. Alguém que oferece tempo, demora, não pressa. Isso é uma salvação.
Quem viveu esta história pôde contar esta história. Assim é possível evitar um segundo naufrágio, o segundo naufrágio que muitos sofrem já em terra, nesta europa às vezes tão burocrática e sempre tão apressada. O segundo naufrágio, em terra, é quando todas as coisas que se foram amontoando na cabeça de quem chega, todas essas coisas começam a afogar a pessoa. Por não ter com quem se abrir, por não ter forma de se dizer, por não poder libertar-se do peso do mar inteiro que cresce dentro da cabeça. E, por isso, alguns começaram a ficar afogados com esse peso que desce da cabeça para os ouvidos e os olhos e a boca e os ombros e o terror desce até ao peito e a confusão desce, como uma sombra, até à cintura.
Poder contar-se, poder narrar a sua história, é deitar fora o que não pode permanecer para sempre fechado dentro da cabeça. Conheço uma pessoa, uma senhora com cinquenta e dois anos, que há quase seis anos carrega uma mala. É uma mala daquelas de cabine de avião, rígida. Há seis anos, uma mala cheia de papeis e alguns objectos. Um peso enorme, já lhe peguei. Anda com a mala para todo o lado, todos os dias, deambulando. É um peso do qual não consegue libertar-se. Ela própria o verbaliza: ando com a mala sempre porque é o peso daquilo que não consegui resolver, e agora desisti. O pior de tudo? O pior de tudo é que agora já desistiu de contar-se, de dizer-se com alguém, de pôr fora de si mesma o que está dentro da mala. Esta senhora anda com a mala pesada pela mão, sempre. Outros, andamos com o peso nas costas, no coração, na cabeça… Poder contar-se é uma manobra de salvação, um princípio de resgate.

Os autores autografam a edição portuguesa do livro, durante a sessão de apresentação em Braga. Foto © Eduardo Jorge Madureira/7MARGENS
Pediram-me para falar como leitor e, como leitor, digo que sempre me agrada a sobriedade, que encontro no dizer sóbrio das coisas uma poesia que me envolve facilmente. Nem sei se sobriedade é a palavra certa para o que sinto e quero dizer, mas digo-o de outra maneira: nunca há expressões empoladas, inflamadas. Apesar do excesso de tudo o que nos é dado a ver, o excesso nunca está na linguagem. A linguagem excessiva é uma forma de manipulação e neste livro o leitor nunca é manipulado. Os acontecimentos são ditos como quem se descreve percorrendo uma terra enlouquecida, mas sempre sem juízos, sem condenações, sem moralismos, sem acusações. Lemos o que é feio e o que é mau, sem haver discurso a seguir. Lemos gestos de atenção e sinais de profunda humanidade, sem haver lição a seguir. Estamos chamados a ser sérios. A levar isto a sério. Porque a história que lemos, sendo de um, é a narrativa de uma multidão.
Por isso, é também isso que lemos, um testemunho plural. Na oralidade de uma pessoa e na escrita de outra pessoa, está o testemunho de uma corrente contínua de pessoas que chegam às nossas costas, muitas vezes sem terem tido essa vontade, como quem foi apanhado num momento qualquer lá atrás do qual é quase impossível libertar-se com vida.
Há uma última coisa que me toca aqui. Percebemos facilmente que o Ibrahima não se comporta nunca como vítima nem como herói. Mantém uma imensa dignidade e encontrou quem lhe tivesse confirmado que existe nele essa imensa dignidade. Por isso, imagino o quanto deve ser duro às vezes ser tratado com se não fosse uma pessoa normal. Quem vive o que ele viveu, imagino que queira uma coisa mais que tudo: viver uma vida normal, ser tratado como uma pessoa normal, porque é o que é, uma pessoa normal. Quando nós lidamos com estas histórias como se fossem histórias de vítimas ou de heróis, estamos a reduzir a história de uma pessoa ao enredo de um novela. E estamos a reduzir um testemunho real a outra coisa diante da qual podemos permanecer como meros espectadores. Gostava muito que este livro permanecesse como testemunho para acordar-nos das nossas anestesias, mas também como a marca de um fim de ciclo de um jovem que percorreu o inferno e saiu dele vivo, que depois o deitou para fora da cabeça e o transformou, com um Amigo, num relato que ajuda outros e, entretanto, fez a experiência de ser acolhido e querido e se tornou um extraordinário mecânico de camiões e foi para onde ele quis para ali criar outras e mais histórias da sua vida. Neste livro, as horas sempre são “em ponto”. As palavras estão no ponto. Eu digo apenas muito obrigado. Este era um livro que eu precisava de ler.
Miñán – Irmãozinho
Autores: Ibrahima Balde e Amets Arzallus Antia
Tradução de Jorge Melícias
Edição: Flâneur e Associação para o Desenvolvimento Meeru/Abrir Caminho
Março de 2026, 148 páginas, 16 €
O livro pode ser encomendado na página da edição, através da Meeru/Abrir Caminho (pelo e-mail abrircaminho@meeru.org) ou na Livraria Flâneur.
Rui Santiago é missionário redentorista e presbítero católico.
Este texto foi lido durante a sessão de apresentação da edição portuguesa do livro, que decorreu no passado dia 20 de abril, em Braga, e é aqui reproduzido com autorização do autor.







