Teóloga Cristina Inogés Sanz

Nunca na história os cristãos tiveram uma oportunidade como neste Sínodo

| 14 Dez 2021

A teóloga espanhola Cristina Inogés Sanz, membro da Comissão de Metodologia, na sua intervenção na sessão de lançamento do Sínodo, dia 9 de outubro, em Roma. Foto © Vatican Media.

 

“Estamos a jogar o futuro da Igreja. Pela primeira vez os leigos não são um preâmbulo, mas são protagonistas de um sínodo”. As palavras são da teóloga espanhola Cristina Inogés Sanz, membro da Comissão de Metodologia criada pelo Secretariado Geral do Sínodo dos Bispos, atualmente em curso. Foram proferidas nesta segunda-feira, 13 de dezembro, na terceira e última conferência organizada pela comunidade da Capela do Rato, de Lisboa, e que se realizou por teleconferência, devido à pandemia.

Cristina Inogés Sanz começou a sua conferência tecendo considerações sobre o momento da vida da Igreja em que o Sínodo ocorre. “A situação da Igreja é má”, começou por observar, aludindo ao impacto dos abusos de poder nas comunidades católicas em diferentes partes do mundo. Abusos que, esclareceu, “são de natureza psicológica, espiritual, laboral e sexual”. Tudo isto adquire uma visibilidade acrescida pelo facto de, com os media, “estarmos a ver tudo em direto”. 

A oradora aludiu, por outro lado, ao clima de “secularismo” que carateriza as sociedades atuais e que, a seu ver “impregna até setores da própria Igreja”, tendo chamado a atenção para a necessidade de tomarmos consciência daquilo que se está a passar, dado que “se não se fizer o diagnóstico, não se pode fazer nada”.

“O grande desafio que temos pela frente, frisou Cristina Inogés Sanz, não é ter outra Igreja, é aprender a ser Igreja de outra maneira”, sendo este um assunto não apenas de alguns, mas de todos e de cada um dos cristãos.

Aprender a comunicar

A conferência de Cristina Inogés Sanz foi feita por via remota, por causa da pandemia. Foto: Direitos reservados.

Na intervenção, a conferencista enunciou alguns desafios que se colocam a este processo sinodal, tendo referido, em primeiro lugar, a necessidade de aprender a comunicar – que “é diferente de informar”, observou.

“Como estamos a comunicar este Sínodo? Como estamos a ser capazes de contagiar?”. É fundamental atuar no sentido de fazer chegar a todos os cantos a notícia de que o Papa Francisco gostaria de ouvir todos os que queiram dizer algo sobre a Igreja. Para isso, os seus membros precisam de estar disponíveis para os “escutar de uma forma ativa”, isto é, serem “capazes de se colocar no lugar e na perspetiva do interlocutor”. 

Contudo, para isso, disse a oradora, os crentes precisam de “cuidar da linguagem” que usam, para serem “entendidos por todos”

Outro desafio consiste em recuperar um diálogo efetivo, que, segundo ela, foi perdido, com âmbitos da sociedade como o trabalho, a empresa, a academia, a economia, entre outros. Neste terreno seria necessário assumir esta pergunta: “Igreja, o que estás disposta a escutar sobre ti mesma?”.

Um terceiro desafio passa pela renovação teológica, para que não se continue com um quadro de referência pensado para um mundo que já não existe e que muda de forma veloz. “A fidelidade ao evangelho não consiste em repetir o que vem de há séculos” mas em criar processos e ferramentas que permitam “encontrar as categorias culturais” que possibilitem o diálogo com as linguagens e as pessoas do mundo de hoje.

A comunhão na diversidade

A aceitação da diversidade na Igreja é outro repto lançado neste processo sinodal da Igreja Católica. Para a teóloga, os católicos estão habituados a uma cultura da uniformidade, confundindo-a com unidade, quando a diversidade, que decorre da diferença de contextos e de experiências, não tem de pôr em causa a comunhão. Exemplificou com a questão dos ministérios, que podem ser diversos de uma comunidade para outra.

Neste âmbito, alertou para a pluralidade de situações – os pobres, a diversidade sexual, os problemas das crianças e jovens, das mulheres, dos divorciados que voltaram a casar, dos padres que deixaram o ministério… tudo situações e pessoas para as quais o Sínodo constitui “uma oportunidade” de aproximação, no atual processo de escuta.

Finalmente, o quinto desafio seria a redescoberta da importância do batismo e de se ser batizado, na vida da Igreja, com tudo o que isso implica de pertença, identidade e participação.

Cristina Inogés Sanz incentivou todos à participação, a fazê-lo com liberdade e sem medo, dizendo que as perguntas que figuram nos documentos preparatórios são abertas e não devem limitar ninguém a manifestar-se. Pediu que os grupos ou pessoas individualmente façam chegar os contributos às coordenações diocesanas, abrindo a possibilidade de que tais contributos possam ser enviados diretamente ao secretariado-geral do Sínodo em Roma, caso se veja necessidade desse recurso.

À questão de que os bispos poderão deixar pelo caminho o que foi proposto na base, visto que tomarão as decisões finais a entregar ao Papa, a conferencista respondeu que, tal como referiu o cardeal Mario Grech, em 9 de outubro deste ano, Francisco tem o poder de fazer esse documento final regressar à base, ou seja, ao “Povo de Deus”.

O Sínodo, se é vida, não tem prazo para terminar

Um aspeto importante que realçou a convidada da Capela do Rato foi que o Sínodo, em qualquer das suas fases, não termina nas datas dos calendários pré-fixados, com a eventual produção de um documento. Isso porque o Sínodo “é vida”, ou seja, é um modo próprio de viver a experiencia cristã e esse vai continuar, em aprendizagem permanente.

Cristina Inogés Sanz na sessão de lançamento do Sínodo, dia 9 de outubro, em Roma. Foto © Vatican Media.

 

Uma inquietação que manifestou relativamente ao desencadear dos trabalhos sinodais na atual fase local foi a que se refere aos seminários: ainda que falando a partir da realidade que lhe é mais próxima, disse-se preocupada se os futuros padres não se envolverem a fundo na experiência do Sínodo, dado que este é um ponto decisivo para o futuro da Igreja sinodal.

Já no período em que os mais de 300 participantes na conferência puderam fazer perguntas, a teóloga respondeu, à dúvida sobre o que quer o Papa com este Sínodo, que Francisco quer “recuperar a eclesiologia do Povo de Deus”, aberta pelo Concílio Vaticano II, e que, de algum modo, ficou a hibernar nos pontificados de João Paulo II e Bento XVI. Além disso, quer “deixar a porta aberta para que todos lhe digamos porque é que há tantos cristãos que aparentam não serem felizes na Igreja”, na esteira de uma frase dele, de há anos, segundo a qual, seguindo o Ressuscitado, não se pode haver “cristãos de caras avinagradas”, azedos e tristonhos.

Por fim, deixou esta mensagem: é tão forte a dinâmica que foi já lançada em todo o mundo que, acredita ela, “não existe força humana capaz de pôr em marcha um Sínodo como este, senão a força do Espírito Santo”.

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

"Nada cristãs"

Ministro russo repudia declarações do Papa

O ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Serguei Lavrov, descreveu como “nada cristãs” as afirmações do Papa Francisco nas quais denunciou a “crueldade russa”, especialmente a dos chechenos, em relação aos ucranianos. Lavrov falava durante uma conferência de imprensa, esta quinta-feira, 1 de dezembro, e referia-se à entrevista que Francisco deu recentemente à revista America – The Jesuit Review.

Polícia da moralidade encerrada no Irão

Protestos a produzir efeitos

Polícia da moralidade encerrada no Irão novidade

A ausência de polícia de moralidade nas ruas de Teerão e de outras grandes cidades iranianas nos últimos meses alimentaram a especulação que foi confirmada na noite de sábado pelo Procurador-Geral do Irão, Mohammad Jafar Montazeri, de que a polícia havia sido desmantelada por indicação “do próprio local onde foi estabelecida”.

Um Deus mergulhado na nossa humanidade

Um Deus mergulhado na nossa humanidade novidade

Diante de uma elite obcecada pelo ritualismo de pureza, da separação entre puros e impuros, esta genealogia revela-nos um Deus que não se inibe de operar no ordinário e profano, que não toma preferência alguma acerca daqueles que se assumem categoricamente como sendo corretos, puros de sangue ou mesmo como pertencentes a determinada etnia ou género.

feitos de terra

feitos de terra

Breve comentário do p. António Pedro Monteiro aos textos bíblicos lidos em comunidade, Domingo II do Advento A. Hospital de Santa Marta, Lisboa, 3 de Dezembro de 2022.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This