
Ana Paulos, animadora do futebol de rua, de integração de jovens do bairro Padre Cruz (LIsboa). Foto: Direitos reservados.
Há 11 anos, Ana Paulos chegou ao bairro Padre Cruz (em Carnide), o maior bairro social da Península Ibérica e o segundo maior da Europa. Levava um apito, uma bola e um projeto: usar o futebol de rua como estratégia de aproximação à população, sobretudo às crianças e jovens, e “trabalhar” as suas problemáticas individuais e sociais.
Os treinos começaram numa praça do bairro. Como referência, Ana Paulos tinha o trabalho que vinha desenvolvendo na Associação a que pertencia, a Associação Nacional de Futebol de Rua (FUTRUA) criada em 2007 por profissionais de serviço social e presidida por Vanda Ramalho.
Hoje, com os outros elementos da equipa e no âmbito do projeto “Bola P’ra Frente”, acompanha diariamente cerca de 500 crianças e jovens entre os 11 e os 26 anos que pertencem a famílias vulneráveis do bairro, entre os quais muitos afrodescendentes e membros da comunidade cigana, mas também pessoas em risco ou em situação de pobreza ou de exclusão social. “É um espaço de amor”, diz.
O Futebol de Rua é usado como estratégia de proximidade para promover estilos de vida saudáveis e contribuir para lidar e resolver os problemas sociais com que se debatem.
Mas nem sempre foi fácil. Ana Paulos recorda o tempo em que o trabalho da associação, ainda pouco conhecida, não foi bem acolhido.
Carlos Antunes foi um dos jovens que há 11 anos não os recebeu de braços abertos, manifestando desconfiança e resistência às iniciativas de aproximação com os residentes. Com incapacidade física (o tendão de Aquiles da perna esquerda do Carlos é mais curto do que o da perna direita) “muito discriminado, uma fraca autoestima e num longo processo de absentismo escolar”, o jovem acabou por se aproximar e começar “a participar, a ter mais voz”, conta Ana Paulos. Convidado para fazer parte da equipa técnica como dinamizador comunitário, Carlos regressou à escola até completar o 12.º ano e passou a ser a ponte entre o projeto e o bairro. Hoje, é o vice-presidente da FUTRUA.
Para Ana Paulos, esta é uma história emblemática de sucesso da intervenção social, através do futebol de rua. “Quando enquadrado em projetos de maior dimensão, com equipa técnica no terreno e porta aberta de segunda a sexta, ganha outra eficácia”, diz.
Adaptação à pandemia
Jogar à bola é a ponte para desenvolver outras iniciativas e alcançar outros objetivos, entre os quais a gestão dos conflitos e das emoções, o desenvolvimento da concentração e da memória no âmbito do apoio escolar, a formação profissional e a entreajuda entre os habitantes do bairro.
Com vários parceiros e o apoio do “Programa Escolhas”, a FUTRUA organiza ainda várias ações lúdicas e culturais, bem como campos de férias.
A atividade da associação diminuiu em tempos de pandemia, mas está a ser adaptada à nova realidade com a organização de outras iniciativas: por exemplo, apoio escolar e exercício físico online e, noutro âmbito, com a recolha e entrega de bens alimentares e de materiais de proteção individual à população.
Aos 34 anos, Ana Paulos está entregue a uma missão que abraça desde os 21 anos, quando começou a trabalhar em serviço social. O seu trabalho esteve sempre relacionado sobretudo com crianças e jovens em situação de vulnerabilidade, considerados “em risco”. Passou por lares e por gabinetes de apoio escolar até chegar à Associação e ao Futebol de Rua, a experiência em que amadureceu como pessoa e profissional. Não tem filhos. É a mãe social dos meninos do bairro. E, à noite, adormece “muito cansada, mas muito feliz” porque ao “dar o melhor” de si, sabe que melhorou a vida de muita gente.
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