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Ressurreição El Greco

Páscoa

O inacreditável acontece – uma homilia escrita com os olhos

El Greco, Ressurreição: “Eis, Qoèlet, isto sim que é uma NOVIDADE! Um homem, Jesus de Nazaré, que a morte tinha engolido e o túmulo tinha encerrado, emerge vivo, vitorioso sobre a morte”

 

O padre Manuel João Correia, missionário comboniano, enfrenta desde o Verão de 2010 uma esclerose lateral amiotrófica e está neste momento incapaz de mexer qualquer membro do corpo, excepto os olhos. E é com o olhar e a ajuda de um “ponteiro ocular”, um programa especializado que lê o movimento dos olhos, que ele usa o computador para comunicar ou escrever, incluindo as homilias que faz a partir dos textos bíblicos da liturgia católica.

Natural de Penajoia, diocese de Lamego, onde nasceu a 27 de Outubro de 1951, Manuel João Pereira Correia estudou na Universidade Gregoriana e no Instituto Bíblico, em Roma, tendo sido ordenado padre, na congregação dos Missionários Combonianos do Coração de Jesus, em 15 de Agosto de 1978. Esteve em Portugal até 1985, quando partiu para o Togo; ali trabalhou entre 1985 e 1993 e, depois, de 2002 a 2010. No meio, esteve na direcção geral do instituto como secretário-geral para a formação. 

A residir actualmente na comunidade comboniana para doentes e idosos, de Castel D’Azzano (Verona, Itália), usa o ponteiro ocular para comunicar, escrevendo num teclado que aparece no ecrã do computador e que lhe permite juntar as letras uma a uma, construindo as palavras. O ponteiro ocular permite juntar letras e palavras, para fazer perguntas, dar alguma opinião, solicitar alguma ajuda.

Esta é a sua homilia a partir dos textos dos Evangelhos de Mateus (28, 1-10) e João (20, 1-9), lidos na liturgia católica deste Domingo de Páscoa, que o 7MARGENS tem o gosto de publicar.

 

 Finalmente, uma NOVIDADE debaixo do céu!

Céu

“A partir de agora, tudo muda. Nada mais será como dantes! Qoèlet, não continues a odiar a vida (2:17)! Não continues a dizer “felizes os mortos, agora falecidos, mais do que aqueles que ainda continuam a viver” (4:2)!” Foto © Gabriel Lamza / Unsplash

 

 O que tem sido será
e o que foi feito será feito outra vez;
não há nada de novo debaixo do sol.
Existe alguma coisa de que se possa dizer:
“Eis, esta é uma novidade”?! (Qoèlet 1:9-10)

 

Eis, Qoèlet, isto sim que é uma NOVIDADE! Um homem, Jesus de Nazaré, que a morte tinha engolido e o túmulo tinha encerrado, emerge vivo, vitorioso sobre a morte. É o dia 9 de Abril do ano 30. Interroga os tempos passados. Nada disto tinha antes acontecido! E, desta vez, o inacreditável acontece. E nós testemunhamo-lo! Corremos, com os corações a rebentar no peito, com lágrimas de alegria depois das lágrimas de desespero, ansiosos por dizer a todos: Cristo Ressuscitou!

E, a partir de agora, tudo muda. Nada mais será como dantes! Qoèlet, não continues a odiar a vida (2:17)! Não continues a dizer “felizes os mortos, agora falecidos, mais do que aqueles que ainda continuam a viver” (4:2)! Pois…

A Morte e a Vida enfrentaram-se
num duelo prodigioso.
O Senhor da Vida estava morto;
mas agora, vivo, ele triunfa.
Sim, estamos certos disso:
Cristo ressuscitou verdadeiramente!
(Sequência da Páscoa)

 

A Corrida da Missão

A partir desse 9 de Abril, começou a corrida missionária: ‘Ide e anunciai aos meus irmãos que eles devem ir para a Galileia: lá me verão‘. E os seguidores do ‘caminho’ (Actos dos Apóstolos), incansáveis – porque nunca se cansa quando o coração está contente! – percorreram todas as ruas e estradas da ‘Galileia’, das periferias do mundo, ansiosos por comunicar a todos esta Boa Nova inaudita.

Lembro-me de uma memória distante, de uma história de um dos meus confrades combonianos, o padre Antonio La Braca, que percorre a pé os caminhos e trilhos do Sul do Sudão há quase quarenta anos. Chegado a uma aldeia onde o evangelho ainda não tinha chegado, pediu ao chefe que reunisse toda a comunidade. Uma vez reunido o povo, comunicou-lhes o kerigma cristão: Cristo morto e ressuscitado.

A este ponto, um jovem e orgulhoso guerreiro levantou-se e disse-lhe: “Branco, não venhas contar-nos histórias de crianças. Quando é que um homem morto pode voltar à vida!?” E, mostrando-lhe o peito, acrescentou-lhe: “Vês estas tatuagens? Cada marca é um inimigo que eu matei em combate! Sabe que nenhum deles voltou para me perturbar, nem mesmo em sonhos!”

O padre La Braca respondeu-lhe: “E tu pensas que, se a ressurreição dos mortos fosse uma coisa comum, eu teria percorrido milhares de quilómetros, atravessado rios e enfrentado perigos para vir aqui e contar-te? É porque é um facto único e sem precedentes que vim ter convosco para vo-lo contar. Porque, se Cristo ressuscitou, isso significa que a Sua mensagem é verdadeira e vem de Deus. E Ele diz-nos que devemos amar a todos, mesmo os nossos inimigos”!

 

Que Cristo vivemos e proclamamos: à velha ou à nova maneira?

O túmulo vazio: “Por que procurais entre os mortos aquele que está vivo?” (Lucas 24,5), os anjos perguntam às mulheres.” Ilustração reproduzida do portal Vatican News.

 

“Por que procurais entre os mortos aquele que está vivo?” (Lucas 24,5), os anjos perguntam às mulheres. As mulheres procuram Jesus “à maneira antiga”, como se ele não tivesse ressuscitado, para fazer uma boa acção em benefício do seu corpo. A entrada na história da novidade de Deus, porém, leva a uma “nova” busca de Jesus!

A busca de Jesus à maneira antiga, própria do homem antes da ressurreição, é a tentativa contínua e repetida de procurar Jesus no moralismo cristão: uma busca que sabe a vinho velho, e por isso agrada… O Crucificado ajuda-me a continuar o caminho: apoio-me nele para fazer algo de bom diante de Deus…

Permanecemos, assim, no velho mundo fechado, no qual nada muda, no qual o Senhor Crucificado e Ressuscitado simplesmente representa algo mais, um estímulo maior para os nossos esforços. “Cristo ressuscitou, mas agora o que devo eu fazer?” Este “mas” é um sinal de que ainda não aceitámos o Cristo ressuscitado!

Qual é a nossa procura de Jesus, a velha busca ou a nova? A do Crucificado ou a do Ressuscitado? Quando a ressurreição é verdadeiramente vivida, não nos deixa indiferentes, não nos deixa como antes. Perguntemo-nos se realmente acreditamos que Jesus ressuscitou, se realmente acreditamos que há algo de “novo” nas nossas vidas! (Os Exercícios Inacianos na Luz do Evangelho de Mateus –  Reflexões do Cardeal Martini)

 

Ponha a Luz do Ressuscitado no candelabro da casa!

“Não se acende uma lâmpada para a colocar debaixo de um alqueire, mas no candelabro, e assim dá luz a todos os que estão na casa” (Mateus 5:15). A luta entre a vida e a morte, entre a luz e as trevas continua em nós, na comunidade cristã, na Igreja, na sociedade e no mundo. A tarefa do cristão é colocar a Luz no candelabro da casa. A tentação será sempre colocá-la debaixo do alqueire dos nossos velhos parâmetros mundanos, extinguindo a novidade.

“Hoje é Páscoa, mesmo que não sejamos almas pascais: o sepulcro abre-se igualmente de par em par, e o Aleluia da vida exulta no ar e nos campos; mas quem nas estradas do homem, esta manhã, sabe caminhar ao seu lado e, pelo caminho, elevar-lhe o coração?” (Primo Mazzolari). Uma Páscoa santa e feliz!

 

Castel d’Azzano (Verona), 6 de Abril de 2023.

O original deste texto foi publicado na página dos Missionários Combonianos, onde os textos do padre Manuel João podem ser lidos. Contacto do autor: p.mjoao@gmail.com

Tradução do italiano: Padre Manuel Augusto Ferreira

 

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