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Os humanos e a Natureza: uma relação dialógica

| 13/02/2020

Os humanos e a Natureza: uma relação dialógica

by | 13 Fev 20

O ponto central da teologia cristã em matéria ambiental não é se o planeta tem recursos próprios infinitos ou sequer se possui uma capacidade auto-regeneradora insuspeitável ou não. A ecoteologia é muito mais profunda do que isso.

 

Se para quem tem fé, os continentes, os oceanos e a atmosfera da Terra são obra de Deus, prejudicá-los e destruí-los será um atentado contra o próprio Criador, além de também o ser contra a Humanidade. Aliás, o Livro de Apocalipse alerta para um tempo em que Deus destruirá “os que destroem a terra” (11:18). Por outro lado, não temos o direito de privar as gerações presentes e futuras de usufruir de um meio ambiente harmonioso e saudável, muitas vezes em nome do egoísmo dos interesses económicos de uns poucos.

Mas, se a Natureza é obra divina, é importante e deve ser preservada, muito mais a própria Humanidade. E é aqui que tropeçam muitos fanáticos do ambientalismo, até porque, de acordo com o que disse Jesus no Evangelho, um ser humano não vale menos do que uma árvore ou qualquer animal: “Considerai os corvos, que nem semeiam, nem segam, nem têm despensa nem celeiro, e Deus os alimenta; quanto mais valeis vós do que as aves?” (Lucas 12:24).

Por outro lado, o conceito de “casa comum” tem chocado de frente com muitos dos pecados sociais em termos de ecologia humana: os nacionalismos, a xenofobia, o racismo, o colonialismo, a escravatura e o tráfico de pessoas. Mas também com a discriminação de género ou a discriminação etária, por exemplo, quando não se reconhece dignidade intrínseca a uma criança, um portador de deficiência ou um idoso ou, nos casos de violência doméstica, sobre esses elementos mais frágeis da sociedade. Mas também com o presente sistema de capitalismo selvagem, que promove o deslaçamento social, a falta de coesão, a pobreza, a fome e a subnutrição, e outras injustiças.

Já se descobriram cerca de 2.400 frases que se referem ao meio ambiente e que constituem quase oito por cento do total dos textos bíblicos. Por exemplo, existe uma determinação no Antigo Testamento que permitia a um israelita que estivesse em certas situações, como no meio do campo, com fome e sem provisões, ir aos ninhos e alimentar-se de aves, mas salvaguardando que nunca poderia matar ao mesmo tempo progenitores e crias, certamente para que não se alterasse o equilíbrio dos ecossistemas. Um outro caso curioso é que, também no Antigo Israel, em situação de guerra poder-se-ia abater árvores para construção e utilização de artefactos militares (como, por exemplo, aríetes para forçar as portas de cidades muralhadas), mas nunca à custa da destruição de árvores de fruto.

A doutrina da Revelação Natural referenciada em Romanos 1:19-21, é utilizada como evidência bíblica por alguns como forma de condenar os não-crentes que rejeitam a Deus, mesmo que nunca tenham ouvido diretamente a mensagem do evangelho. Parte-se do pressuposto de que a existência de Deus é óbvia à luz da beleza da criação. Todavia, nos lugares do mundo onde a água é salobra, o ar poluído e o ambiente deteriorado a ponto de colocar em risco a saúde pública, como pode Deus ser glorificado? Como é que isso aponta as pessoas para Deus? O salmista dizia que “Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos” (19:1). Mas, e quando as pessoas não conseguem sequer ver o céu devido à poluição?

Por outro lado, para os cristãos a Criação proclama o carácter do seu Criador, do ponto de vista da Beleza, da Harmonia e da Perfeição. Portanto, Deus importa-se com a sua obra da Criação e ensina-nos através dela. Veja-se que tem sido através da observação atenta do mundo natural que a esmagadora maioria dos avanços científicos foram alcançados, e que as Artes têm encontrado fonte de inesgotável inspiração, incluindo a arquitectura, como nos mostra Gaudí na Igreja da Sagrada Família, em Barcelona. Entretanto essa mesma Natureza proporciona qualidade de vida, como no caso das caminhadas e desportos ao ar livre em terra, no mar e no ar, assim como a preservação da saúde aos seres humanos, como acontece com os fármacos produzidos a partir de elementos do mundo vegetal.

A verdade é que Deus entregou aos seres humanos a responsabilidade de guardar e cuidar do meio ambiente, mas nunca de o destruir. Mas por vezes confunde-se a expressão genésica “dominar” com “fazer o que quisermos”.

A Bíblia diz em Génesis 2:15 “Tomou, pois, o Senhor Deus o homem, e o pôs no jardim do Éden para o lavrar e guardar.” Deus quer que sejamos dignos de confiança na mordomia dos nossos recursos.

Cuidemos então do planeta e do ambiente, numa relação perfeitamente dialógica, mas sem esquecer o primado da pessoa humana. É que, segundo Carlos Neto, investigador em Motricidade Humana: “É inacreditável que hoje se passeiam mais os cães do que as crianças…”, talvez porque “Há pais que já não têm prazer em brincar com os filhos”.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

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