
“Não tenho intenção de publicar uma exortação apostólica. É suficiente aquilo que aprovámos”, afirmou o Papa no discurso que marcou o fim dos trabalhos da assembleia na aula Paulo VI. Foto © Vatican Media
Pela primeira vez na história da Igreja Católica, a um sínodo dos bispos não se seguirá uma exortação apostólica escrita pelo Papa. Apesar da surpresa que tal decisão provocou em muitos dos que, ao final da tarde deste sábado, acompanharam o encerramento dos trabalhos da assembleia do Sínodo sobre a Sinodalidade, a verdade é que essa opção, inédita e surpreendente, foi anunciada por Francisco como sendo, ela própria, mais sinodal.
“Não tenho intenção de publicar uma exortação apostólica. É suficiente aquilo que aprovámos. No documento [final], há já indicações muito concretas que podem servir de guia para a missão das igrejas, nos diversos continentes, nos diversos contextos: por isso, coloco-o imediatamente à disposição de todos. Por isto, disse que seja publicado. Quero, deste modo, reconhecer o valor do caminho sinodal realizado”, anunciou Francisco aos participantes e aos jornalistas, cuja entrada na aula Paulo VI foi inesperadamente permitida após ter terminado a votação do documento final, eram já perto das sete da tarde em Roma (menos uma hora em Lisboa).
Quanto aos dez grupos de estudo criados para refletir sobre temas específicos levantados ao longo deste Sínodo, o Papa explicou que irão continuar a “trabalhar com liberdade” para lhe “apresentarem propostas”. E assegurou: “Não se trata de adiar indefinidamente as decisões. É o que corresponde ao estilo sinodal com que deve ser exercido também o ministério petrino: escutar, convocar, discernir, decidir e avaliar”.
Depois, deixando de lado o papel a partir do qual lia o discurso, reconheceu que “esta não é a maneira clássica” de proceder, mas – insistiu – corresponde ao “estilo sinodal que cabe ao ministério petrino”.
Um poema e uma palavra-chave: “harmonia”

A foto de grupo com os mais de 300 elementos que participaram nesta segunda sessão da assembleia sinodal. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS
Entre a surpresa e a satisfação, os mais de 300 participantes responderam com uma entusiástica salva de palmas, que quase fez esquecer as tensões e diferenças que tantas vezes se terão vivido naquele mesmo espaço.
E Francisco falava com a serenidade de quem tem o sentimento de missão cumprida. “A minha tarefa, bem o sabeis, é guardar e promover – como nos ensina São Basílio – a harmonia que o Espírito continua a difundir na Igreja de Deus, nas relações entre as Igrejas, apesar de todos os cansaços, tensões e divisões que marcam o seu caminho rumo à plena manifestação do Reino de Deus”, afirmou. “E a palavra-chave é esta: a harmonia, que é obra do Espírito”.
Lembrando que o Espírito “sussurra palavras de amor no coração de cada um”, o Papa deixou o apelo: “A nós, cabe-nos amplificar a voz desse sussurro, sem obstruí-la; abrir portas, sem erguer muros. Quanto mal causam os homens e mulheres da Igreja quando erguem muros!”. E voltou a recuperar o quase “mantra” que ficou da Jornada Mundial da Juventude em Lisboa: “Ninguém fique de fora! Todos! Todos! Todos!”.

Mais do que uma vez, os participantes aplaudiram as palavras do Papa. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS
Antes de terminar o seu discurso, e numa altura em que o documento final do Sínodo ainda não havia sido distribuído aos jornalistas – só viria a sê-lo cerca de uma hora depois, imediatamente antes da conferência de imprensa final – Francisco deixou a sugestão de um poema de Madeleine Delbrêl, “a mística das periferias”, para que servisse de “música de fundo” à leitura de cada um. E declamou:
Porque penso que talvez já te tenhas cansado
de pessoas que falam, sempre, sobre servir-te com ar de líder,
conhecer-te com ar de professor,
alcançar-te com regras desportivas,
amar-te como se ama num casamento envelhecido
…
Faz-nos viver a nossa vida,
não como um jogo de xadrez, em que todos os movimentos são calculados,
não como uma partida em que tudo é difícil,
não como um teorema que nos faz quebrar a cabeça,
mas como uma festa sem fim em que se renove o encontro contigo,
como um baile,
como uma dança,
entre os braços da tua graça,
na música que enche o universo de amor
Nesse mesmo poema, Madeleine Delbrêl exortava: “acima de tudo, não sejas rígido”. E o Papa acrescentou: “a rigidez é um pecado que tantas vezes afeta clérigos, consagrados e consagradas”. Agora, concluiu, à luz do que emergiu do caminho sinodal, há e haverá decisões a serem tomadas”. E resumiu-as a todas numa só: “Neste tempo de guerras, devemos ser testemunhas da paz, aprendendo também a dar forma real ao convívio das diferenças”. Todos aplaudiram de pé.





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