Pelo menos 23 mortos, milhares de feridos e igrejas vandalizadas no Chile

Destruição na paróquia da Assunção, em Santiago do Chile. Foto © ACN Portugal
A violência que atinge o Chile desde 18 de Outubro, e que começou por causa do aumento do preço dos bilhetes do metropolitano, provocou já 23 mortos e mais de dois mil feridos, além de ter deixado também um vasto rasto de destruição no país, que incluiu assaltos a várias igrejas no país. O balanço deste mês de protestos, feito pela Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), regista ainda a ineficácia das autoridades no controlo dos protestos e da violência em várias cidades.
Manifestações nas ruas, lojas destruídas, igrejas atacadas, economia paralisada são apenas alguns aspectos mais visíveis deste mês de protestos. Há duas semanas, o conselho permanente do episcopado chileno divulgou uma declaração na qual se solidariza com o administrador apostólico de Santiago, lamentando o “saque e profanação” na paróquia de Assunção de Maria e pede às autoridades que apliquem a lei “com todos os recursos próprios de um estado democrático”.
O documento dos bispos, intitulado “Diante do recrudescimento da violência e ataque aos lugares de culto” só a seguir faz referências à dor pelos “maus-tratos às pessoas” e aos constantes “saques e violência, venha de onde vier”. E, fazendo votos para que os responsáveis sejam identificados e condenados, os bispos acrescentam: “Com muitos chilenos, opomo-nos radicalmente à injustiça e à violência, condenamo-las sob todas as formas (…) e a violência só impede de ver “com a devida atenção as justas reclamações da maioria do povo chileno, que anseia por soluções reais e pacíficas. (…) A pessoas não estão apenas cansadas da injustiça, mas também da violência” e a grande maioria quer o diálogo.
No texto, como nota o KairosNews, portal católico de informação “independente e laical”, não há, no entanto, referência explícita às mortes nem às violações de direitos humanos cometidas também em várias ocasiões por forças da ordem. E chegou mesmo a haver membros do clero e religiosos atacados pela polícia em manifestações.
Uma igreja a arder, pessoas a cantar

Vestes litúrgicas ridicularizadas depois do ataque à igreja da Assunção, em Santiago do Chile. Foto © ACN Portugal
Os ataques contra igrejas não se resumem ao caso referido no comunicado dos bispos. A AIS cita as igrejas da Assunção e da Vera Cruz (em Santiago), São Francisco de Valdivia e Santa Teresa dos Andes, bem como o santuário de Maria Auxiliadora, em Talca e a catedral de Valparaíso. Imagens destruídas, bancos arrancados e até tentativas de destruição pelo fogo são algumas das consequências.
A instituição católica, que se dedica à defesa da liberdade religiosa, refere ainda que no caso da Igreja da Vera Cruz, no bairro turístico de Latarria, em Santiago, o ataque de dia 12 de Novembro, “é exemplo da violência destrutiva que irrompeu contra os templos católicos”: imagens nas redes sociais “permitiram ver o edifício já tomado pelas chamas com pessoas no exterior a aplaudir e a cantar, sem que ninguém esboçasse qualquer tentativa para apagar as chamas”.
O KairosNews cita ainda um outro ataque à catedral de Puerto Montt, que levou à destruição de mobiliário. O administrador apostólico da diocese, Ricardo Morales, lamentou que legítimas reivindicações sociais conduzam a danificar uma obra que é património da cidade. O que revela que é necessário construir a paz, acrescentou.
Os ataques contra igrejas repetem o que já sucedera há cerca de um ano, antes da visita do Papa ao país, em Janeiro último: durante 11 dias, registaram-se pelo menos 134 ataques a igrejas, em alguns casos com bombas incendiárias.
Também no KairosNews conta-se que na quinta-feira, 14 de Novembro, as portas da catedral de Santiago apareceram entaipadas e com um forte cordão militar a proteger o templo, o que levou uma pequena multidão, que incluía funcionários da igreja, a fazer uma vigília.

Cristãos em vigília diante da catedral de Santiago do Chile, fechada e bloqueada por militares. Foto © KairosNews
Alguns dos manifestantes escreveram uma carta ao administrador apostólico da diocese (Santiago também aguarda nomeação de um novo bispo) na qual manifestam o seu pesar pela decisão, por ser uma forma de blindar a catedral ao povo de Deus que sofre e clama por dignidade, cita aquela fonte.
No olho do furacão, com credibilidade prejudicada
O historiador Marcial Sánchez, director da colecção Historia de la Iglesia en Chile, explica, numa entrevista ao La Tercera, que em situações de conflito social violento, as pessoas tendem a manifestar-se contra instituições estabelecidas. “No caso da Igreja Católica, há um ano e meio que ela está no olho do furacão, por causa dos abusos de menores por parte de padres e religiosas. Isto é um detonador moral e ético, e por isso a credibilidade da instituição sai prejudicada.”

Marcial Sánchez, historiador chileno. Foto © KairosNews
“Igreja cúmplice” e “Violadores” foram alguns dos cartazes colocados à porta das igrejas da Assunção e da Vera Cruz, contava o investigador na entrevista. “A Igreja abusou do povo e colocou-se de costas para o povo e com isso converte-se em outra instituição que abusa.” E acrescentava: “Hoje, a hierarquia da Igreja Católica não tem a importância que teve antes e as pessoas não a escutam (…) porque não acredita nela. E não é por não querer escutá-la, é porque não acredita nela, já que não foi consequente muitas vezes.”
Já em Fevereiro, após a visita do Papa e em declarações ao 7MARGENS a propósito dos abusos, o porta-voz dos bispos admitia que a Igreja Católica no Chile sofreu ultimamente “uma perda de confiança, por parte dos cidadãos, nunca antes vista”. Explicava Jaime Corro: “As expressões de fé não se debilitaram e a participação nas missas e sacramentos não se reduziram de modo significativo. Mas apercebemo-nos de uma maior distância dos leigos em relação às figuras de autoridade, porque a origem do abuso sexual é o exercício abusivo da autoridade e a manipulação de consciência”.
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