
Foto: Dorothy L Sayers do pintor William Hutchison, 1957, Creditos: National Portrait Gallery, London
Pouco familiarizado com policiais, embora outrora leitor de Simenon, Chandler ou Dashiell Hammett, julguei reconhecer o nome: Dorothy L. Sayers. Na verdade, não. Confundi-a com Dorothy Parker, que entra noutras histórias, envolvendo, nomeadamente, Lillian Hellman, companheira de Hammet e intrépida resistente ao macarthismo.
Desfeito o equívoco, procurei saber a que propósito se incluíra no seminário Pensar a Educação, constante da programação cultural da Brotéria, uma sessão dedicada à inglesa policiária[1].
Era uma manhã de sábado, o anfitrião fizera distribuir pelos presentes uma bem desenhada brochura com a programação para o trimestre Abril-Junho, e começava a visita guiada ao edifício onde, por várias décadas, esteve instalada a Hemeroteca de Lisboa e agora se conserva o espólio da revista. Ficaria para mais tarde a descoberta do conteúdo da conferência proferida em Oxford, no Verão de 1947, e logo publicada no Hibbert Journal, sob o título «The Lost Tools of Learning» [Os instrumentos de aprendizagem perdidos].
O texto de Sayers é uma proposta solidamente argumentada de regresso às sete artes liberais do trivium (segredos da palavra: Gramática, Dialéctica [/Lógica], Retórica) e do quadrivium (segredos da natureza: Música, Aritmética, Geometria, Astronomia), no caso, conferindo prioridade absoluta às três primeiras.
As razões e interrogações de que parte merecem ser retidas: (1) o prolongamento indefinido da infância, que leva a «adiar a assunção de responsabilidade para uma idade tardia, traz consigo um número de complicações psicológicas […] dificilmente benéficas tanto para o indivíduo como para a sociedade»; (2) a expansão indefinida do dispositivo curricular, com o argumento de que há muito mais para aprender na actualidade, implica mais coisas aprendidas e conhecidas?; (3) não é surpreendente que, agora que a proporção de cidadãos com educação escolar é mais elevada, «as pessoas sejam mais vulneráveis à influência da publicidade e da propaganda de massas, numa dimensão anteriormente inaudita e inimaginável?»; (3b) e será que isso se deve à capacidade de penetração dos meios de comunicação de massas ou, ao invés, à incapacidade da educação moderna para «destrinçar facto de opinião e o que se prova do que é plausível?».
Quase parecendo que Sayers segue a programação dos canais de notícias portugueses, os trabalhos parlamentares, as vicissitudes do currículo nacional e a tumultuosa efervescência das impropriamente chamadas redes sociais em 2024, os exemplos de incapacidade para gerar pensamento coerente, numa língua que se domina e conhece, são expressivos:
– «Alguma vez, ao escutar um debate entre pessoas adultas e presumivelmente responsáveis, se sentiram atormentados pela extraordinária inabilidade do orador médio para abordar a questão ou para confrontar e refutar os argumentos dos oradores do campo oposto?»
– «Alguma vez acompanharam uma discussão nos jornais […] e se deram conta da frequência com que os autores são incapazes de definir os termos que utilizam?»
– «Alguma vez ficaram, ainda que vagamente, perturbados pela quantidade de sintaxe desleixada que anda por aí? E se sim, o que vos perturba é a deselegância ou o facto de poder conduzir a perigosos mal-entendidos?»
– «Aborrecem-se frequentemente por se cruzarem com homens e mulheres crescidos que parecem incapazes de distinguir um livro sólido, academicamente e adequadamente argumentado, de um que, para alguém devidamente preparado, muito visivelmente não é nenhuma dessas coisas?»
Estas e outras perguntas da mesma natureza conduzem a autora a uma conclusão que, mais uma vez, poderíamos transportar para o presente, e, retomando a análise de Sayers, deveria suscitar, não alarme e soluções pronto-a-vestir com o selo digital da praxe, mas uma ponderação objectivante (que visa a objectividade e, por isso, está atenta às armadilhas da subjectividade e do interesse) dos obstáculos ao conhecimento, à argumentação racional e à prudência analítica, o primeiro dos quais é já, com toda a evidência, a persistente esquiva ao português e à construção de frases tão simples como as que assumem a forma ‘s é p’. À forma gramatical, é bom de ver, deve acrescentar-se a vertente semântica, e aqui a vertigem é total: à clara ignorância do sentido dos termos junta-se a abordagem ‘analógica’, pela similitude dos sons, e mesmo quando se celebra uma efeméride amplamente conhecida, a coisa pode tornar-se – como dizer? – inquietantemente divertida. Permito-me apenas um exemplo (figura seguinte).

Foto: 2022-04-24, 21.14.17, noticiário SIC
E a conclusão é esta: entre o currículo medieval e o currículo moderno a grande diferença que persiste, no entender de Sayer, está no contraste entre a ênfase posta em «ensinar disciplinas» (currículo moderno) e, mensagem da Idade Média, «primeiro forjar e aprender a manejar os instrumentos da aprendizagem, utilizando qualquer tópico que se revele adequado como recurso para manusear, até que a utilização do instrumento se torne uma segunda natureza».
A conferência é fértil em exemplos, alguns bem divertidos e facilmente transponíveis, de insuficiente domínio dos instrumentos da aprendizagem e das respectivas consequências numa população escolarizada, pois é essa a variável relevante em todo o debate: os casos de que Sayers se ocupa, destacando as insuficiências que revelam, não envolvem pessoas aquém ou fora de um percurso escolar, muito pelo contrário: nalguns casos são mesmo cientistas que se aventuram nos caminhos da metafísica e de quem se esperaria que dominassem os instrumentos do trivium.
A certo ponto, a conferencista aventura-se, com evidente prazer e saudável desprezo por qualquer forma de embelezamento da condição infanto-juvenil, pelos caminhos da psicologia do desenvolvimento emocional e cognitivo. Inspirada na sua própria experiência da infância, reconhece três estádios/períodos fundamentais: Papagaio; Atrevido; Poético. No primeiro, «aprender de cor é fácil e agradável», e a criança satisfaz-se com «a mera acumulação de coisas»; no segundo, a criança compraz-se em contradizer, responder torto, «gosta de ‘chamar a atenção para o erro’ (especialmente dos mais velhos)»; no terceiro, a Idade Poética, «popularmente conhecida como a idade ‘difícil’», a criança, «autocentrada» e ansiando por se «expressar», «tende a especializar-se em ser incompreendida; é inquieta e procura atingir a independência».
É por isso mesmo que a disposição do trivium se ajusta perfeitamente às três idades: Papagaio-Gramática; Atrevido-Dialéctica; Poético-Retórica.
Não menos interessantes – e úteis – são as páginas em que se desenvolvem propostas pedagógicas em consonância com a tese central. Mas o que torna o texto de Sayers um momento alto de reflexão pedagógica é a bem orwelliana insistência na importância da linguagem e na centralidade da verdade como ideia reguladora e objectivo último de toda a indagação séria. 1984, a obra, vinha aí.
[1] No próximo dia 10 de Setembro, o Seminário Pensar a Educação ocupa-se da obra de Tzvetan Todorov Literatura em Perigo, indagando sobre o papel da literatura no ensino.
João Santos é professor.






