Ressuscitou! Ressuscitou!
Foram estas as palavras que, há dias, na Vigília Pascal, me penetraram o espírito e me inspiraram para começar este testemunho. Nessa altura, por ainda o termos entre nós, não me lembrei deste formato, de lhe escrever uma carta. Cheguei até a pensar pedir ajuda ao ChatGPT, mas depressa desisti: só Deus conhece os corações. Pedir à IA que escrevesse sobre a minha fé seria o mesmo que pedir a um estranho que adivinhasse a minha história.
Ironicamente, nem para mim é fácil contar essa história – a do meu caminho de fé. A ideia de escrever para o 7MARGENS surgiu-me pela primeira vez há mais de dois anos, em Março de 2023, quando visitei a fronteira EUA/México e regressei transformada. Desde aí, a síndrome da página em branco e a vida de jovem ocupada impediram-me de concretizar. Para além disso, debatia-me sempre com uma pergunta: mas que qualificações tenho eu para escrever sobre fé?
Segunda-feira, 21 de abril, sentada no chão na missa apinhada que houve no CUPAV (Centro Universitário Padre António Vieira, em Lisboa) em sua homenagem, senti, querido Francisco, uma grande vontade de conversar consigo. Não sei o que lhe diria primeiro, e provavelmente encheria vários volumes. Talvez começasse pelo receio que tenho em relação ao futuro da Igreja – que se afaste das periferias, que volte para trás no processo de se abrir ao mundo. Talvez, lembrada do seu conselho aos jovens, “Tenham coragem. Não tenham medo de sonhar coisas grandes”, lhe contasse sobre alguns dos meus projetos. Ou talvez, como faço já tarde nesta minha carta, lhe transmitisse a gratidão que sinto pelas pessoas e os momentos que me fazem, hoje, dizer que tenho fé.

Uma fronteira que entra pelo mar dentro: o muro de separação entre os EUA e o México, em Tijuana. Foto © Amnistia Internacional.
Conheço Jesus desde que me lembro. É aquele amigo que cresceu comigo, desde as brincadeiras fáceis da infância às conversas profundas de jovens adultos, passando por essa fase ingrata da adolescência em que “o amigo de sempre” se torna aborrecido e o tomamos por garantido. Sou escuteira, andei na catequese e em vários grupos de jovens. Andei afastada desse amigo até me mudar para a Califórnia, em 2022, e dar por mim a soluçar com saudades desse amigo, do “meu” Jesus, durante uma missa onde ainda não conhecia ninguém. Mudado esse aspecto, amigos feitos no Campus Ministry da University of San Diego, voltei a ir à missa todos os domingos, e até me inscrevi num retiro. Às vezes, sentia-me como o cego de Jericó, a quem Jesus curou e disse “a tua Fé te salvou”; outras vezes, sentia-me como o jovem rico, a quem falta algo pequeno, mas grande demais, para merecer o Reino dos Céus.
Não houve nenhum momento “aha!”, onde finalmente resolvi todas as dúvidas e passei a sentir-me digna da amizade de Jesus. Houve um quadro da Sagrada Família refugiada em marcha para o Egito; uma conversa com agentes da Border Patrol (daqueles cujo trabalho é deter migrantes ilegais). Houve encontros com pessoas diversas, novas e velhas, religiosas e leigas, que tinham em comum, entre si e comigo, o facto de serem imperfeitas. Houve, e há, um trabalho constante para acreditar, no mais íntimo de mim mesma, que Cristo me ama apenas porque sou quem sou, sem que nada faça para o merecer. O meu Jesus, querido Papa Francisco, é hoje bastante parecido consigo. É alguém que valoriza os crentes que fazem tudo “como deve ser”, mas que busca sobretudo chegar aos ateus, às margens, aos pecadores. É alguém que ama intensamente o seu amigo Pedro, que caiu tantas vezes, mas de todas se levantou para continuar a segui-lo.
O meu Jesus é, como o Francisco e como eu, um estrangeiro na cidade onde mora. Fala várias línguas e até encontrou uma comunidade de fé, mas sente sempre que poderia fazer mais, aproximar-se mais, servir a Deus ainda melhor. Já não falo, claro, do filho de Deus, mas de mim mesma. Cristo é verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem sem pecado; já eu, na minha humanidade, apenas posso procurar tornar-me um pouco melhor a cada dia. Nessa procura, fui marcada pela fé de Portugal, em que nasci e cresci, mas também pela dos Estados Unidos, que tanto me ensinou nos últimos anos. Esta última, na minha experiência, prima por ser humilde e ágil – uma fé própria de uma sociedade onde não é maioritária. Foi na América que fui convidada a aproximar-me do altar de braços cruzados quando não vou comungar, para receber a bênção ao invés de ficar no lugar. Foi lá que conheci santos modernos como Óscar Romero e Dorothy Day – santos que se dedicaram a tratar das feridas dos dias de hoje, e que me inspiram, também, à santidade.
Bem, querido Francisco, esta carta já vai longa, e tenho a certeza de que sou uma entre muitos que já procuram a sua proteção e intercessão junto do Pai. Gosto de pensar que lerá estas palavras com alegria, e em breve escreverei mais. Obrigada por ser o Papa dos jovens. Como Cristo Ressuscitado, confio que permanecerá entre nós.
Com amor,
Carmo
Maria do Carmo Osório tem 22 anos e trabalha numa startup na indústria da saúde. Vive entre Lisboa e Nova Iorque.










