
Jornalista a cobrir os confrontos numa praça em Kiev, em 2014. Foto © Mstyslav Chernov/Wikimedia Commons
A investigação académica sobre jornalismo de guerra produzida ao longo dos últimos trinta anos demonstra que a representação dos conflitos proposto pelos media mainstream constitui um obstáculo acrescido aos processos de negociação de paz. O modo como os jornalistas narram os acontecimentos influencia o próprio curso dos acontecimentos. Esse efeito performativo do relato coloca novos dilemas à ética e deontologias profissionais. Perante as transformações estruturais que o sector conheceu no último meio século, esta é apenas uma das questões que desafiam a centralidade do modelo tradicional de jornalismo. Mas é nela que reside a raiz da multiplicação de novos tipos e práticas jornalísticas. Entre eles, está o jornalismo de paz.
Este conceito mostra-se ainda em permanente derrapagem. Se é certo que, nas redacções, tem vindo a contar com uma adesão crescente, esse movimento não se deve, todavia, a uma particular clareza enquanto categoria ou género jornalístico. O debate académico vai mais avançado mas, também aqui, o cliché é implacável: não são os académicos aqueles senhores que, de noite, vestem de negro e, ao pequeno almoço, mastigam polissílabos?
Jornalismo de paz, portanto, termo cunhado no final dos anos 1960, a partir das teorias de paz e conflito do sociólogo norueguês Johan Galtung. “O jornalismo de paz torna visível aspectos subalternos da realidade.” O sociólogo sustentava que a cobertura dos vários tipos de conflito, no mundo ocidental, se estabeleceu segundo um modelo de jornalismo de guerra. Um jornalismo agonístico exercido como num jogo de cordas – de um lado, vencedores, do outro, vencidos. A abordagem dos editores e repórteres de guerra tenderia a seguir este dualismo de prós e contras em nome de uma descodificação simplificada dos conflitos em curso. Na prática, acusava, as reportagens de guerra mostravam-se permeáveis a alguns dos mais elementares pecados capitais da deontologia jornalística. Primeiro, a falta de isenção. A permeabilidade acrítica à propaganda de uma das partes do conflito era obstáculo ao contraponto e ao contraditório. Segundo pecado: a parcialidade do relato. Prevalecia mais o ponto de vista das elites – políticas, militares ou académicas – do que vozes das vítimas ou de iniciativas de paz. O viés agravava-se ainda mais por causa da pobre contextualização dos acontecimentos relatados.
Como tal, a um acto de violência não deveria senão suceder uma reacção de contra-violência e por assim adiante. Esta encenação nua do diferendo mais não fazia do que normalizar a escalada e legitimar a perpétua agressão. Por fim, o estranho caso do desaparecimento do pós-conflito. Encontrado o campeão, eventuais gestos de reconciliação, perdão ou reconstrução soçobravam na irrelevância da notícia breve ou do oráculo fugaz. Em suma, o modelo servia angústia para o jantar.
Cuidado com a língua
Por assim entenderem a cobertura dos conflitos, Galtung, primeiro, e outros académicos do final dos anos 1990, depois, vieram propor um novo acordo: uma prática profissional orientada para um horizonte de paz. Se o jornalismo de guerra/violência se inspirava na prática agonística própria do jornalismo desportivo, já a cobertura do jornalismo de paz deveria encontrar inspiração nas reportagens de justiça ou de saúde – propícia a estabelecer diagnósticos e sintomas do corpo enfermo, disposta a investir numa medicina preventiva em vez de perseguir uma prática curativa da enfermidade em curso.
Foi assim que, ao longo do novo século, o debate académico veio codificando um conjunto de boas regras para o exercício do repórter de paz. Em primeiro lugar, deveria reconhecer a existência do conflito, identificar os lados envolvidos, os objectivos, as questões em disputa. Ser capaz de compreender e explicar a violência estrutural que o conflito manifesta – ou mantém latente; dar voz às partes em causa, e não apenas a dois lados dominantes, adoptando uma linguagem, o quanto possível, emocionalmente neutra favorecendo quadros de empatia e compreensão. A obediência a uma prática de cuidado, de humanização, auto-consciente, na abordagem do conflito permitiria indicar um conjunto transparente das causas e putativas soluções para o impasse. Outras abordagens poderiam convocar também estratégias de textos editoriais: artigos de opinião apelando à reconciliação ou textos científicos explicitando as causas estruturais da violência e os seus efeitos na sociedade.
Todas estas máximas e princípios aparecem reunidos na definição que é proposta pelo The Center for Global Peace Journalism (Centro de joralismo para a paz global), da norte-americana Park University, do Missouri: o jornalismo de paz trata de uma prática em que “editores e repórteres fazem escolhas que alimentam perspectivas de paz. Estas escolhas, desde o modo como as estórias são apresentadas até ao cuidado posto na selecção das palavras, contribuem para uma atmosfera indutora de paz sem comprometer os melhores princípios do bom jornalismo. O jornalismo de paz dá voz aos construtores de paz tornando mais visíveis, e viáveis, soluções de não-violência”.
Nos salões académicos, este vestido de noite parece acomodar a boa consciência científica, mas na rua, são estes preceitos exequíveis? É possível uma tal racionalidade prática? Podem os jornalistas trabalhar assim? “Bem, nós limitamo-nos a noticiar factos”, hão-de contrapor. Pois sim, mas que factos? E como chegam até esses “factos”? Que realidade e que representação? Outra vez a academia: avisa a socióloga norte-americana Gaye Tuchman, da Universidade de Connecticut: “Aceitar representações convencionais como factos é meio caminho andado para a manipulação.”
Por isso, cuidado com as palavras. Na criminalização: “terrorista”, “jihadista”, “traidor”, “militante”, “extremista”, “radical”, “amotinados”; ou, em sinal contrário, na vitimização: “caídos”, “civis e crianças inocentes”, “torturados”, “deslocados”.
Cansados da guerra
A prática quotidiana em cenários de guerra, ou em outros conflitos de variada intensidade, produziu nos jornalistas locais a urgência de mudança que os académicos traziam para os seus debates. Foi esta convergência que levou uns e outros ao diálogo em países tão distintos como a Indonésia, o Nepal, a Noruega, em conflitos no Cáucaso, no Médio Oriente ou no Bangladesh, na Turquia e no Chipre.
O caso cipriota é paradigmático: em 2017, em Nicósia, uma editora publicou um Manual de Jornalismo de Paz para os Jornalistas Cipriotas, financiado pela União Europeia. “Uma pedra de toque”, escreveu o editor Mashoed Baile acerca do trabalho compilado pelo jornalista Vasvi Ciftçioğlu que, durante mais de vinte anos, trabalhou em programas e projectos “pontes de paz”, na imprensa cipriota grega e turca.
Na introdução, Mashoed Baile nota que o livro “oferece uma oportunidade aos jornalistas que querem escapar do jogo de culpas” e de recriminação através de “reportagens sérias que transcendam a dicotomia “nós-eles”, ou “nós temos razão, eles estão errados”. Numa altura de emergência e ascensão das fake news, o editor acredita que o manual assume uma reflexão acerca de um jornalismo que revela complexidades e não “simples reducionismos” e que abre novos horizontes para debates e participantes sem fechar discussões e demonizar intervenientes. “Acreditamos que um debate vibrante entre jornalistas das duas comunidades pode servir os mais altos interesses da democracia e esclarecer um público que, ao contrário de estereótipos ou etnocentrismos, prefere uma abordagem crítica, consciente e de abertura às vozes multifacetadas que habitam o Chipre.”
A ilha vive um impasse histórico. Em virtude da animosidade entre as duas comunidades turca e grega que a habitam, desde 1974 que a chamada Linha Verde, ou Átila, divide Nicosia em norte e sul – é a única capital de um estado-membro da União Europeia nestas condições. Recentemente, o secretário-geral das Nações Unidas estimulou uma nova ronda de diálogo entre representantes gregos e turcos. O esforço diplomático voltou a falhar mas, agora, são os jornalistas cipriotas que começam a pisar a linha.
Mais informação sobre o assunto pode ser encontrada nestas ligações:
https://www.transcend.org/tri/downloads/McGoldrick_Lynch_Peace-Journalism.pdf
https://mediapeaceproject.smpa.gwu.edu/2017/12/14/what is-peace-journalism/
https://journals.co.za/doi/epdf/10.10520/EJC111753
http://www.peacejournalismcy.net









