AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Zurique, Suíça. Foto ViktorCap

Secretismo em investigação iniciada em junho

Seis bispos da Suíça acusados de encobrimento de abusos sexuais

| 12/09/2023

Zurique, Suíça. Foto ViktorCap

Os seis casos são diferentes entre si, mas relacionam-se todos com encobrimentos, sob a forma de inação, promoção dos perpetradores ou mudança de local de trabalho. Foto © Viktor Cap.

 

Seis bispos suíços estão acusados de encobrimento de abusos sexuais na Igreja Católica, tendo o Dicastério respetivo do Vaticano desencadeado uma investigação preliminar, que deverá estar concluída até ao fim do ano. Os resultados de um estudo geral sobre abusos sexuais, desenvolvido pela Universidade de Zurique, que vai ser divulgado esta terça-feira, dia 12, poderá, no entanto, obrigar a refazer o calendário da investigação.

No último domingo, 10 de setembro, o jornal SonntagsBlick (com edições em alemão e francês), revelou que um ex-vigário geral da diocese de Lausanne, Nicolas Betticher, escreveu em maio deste ano ao núncio apostólico no país, fazendo acusações de encobrimento a seis membros do episcopado do país, quatro dos quais ainda em atividade e os restantes já jubilados. Referia ainda outros casos de abuso sexual envolvendo vários padres.

Na sequência dessa denúncia, o Dicastério para os Bispos ordenou, em finais de junho, uma investigação, confiando a tarefa ao bispo de Chur [Coire, em francês], Joseph Maria Bonnemain, que tem já experiência de missões semelhantes.

Estes factos foram, entretanto, mantidos em segredo, até que o jornal SonntagsBlick deu a notícia Só então, logo de manhã, neste domingo, a Conferência Episcopal Suíça entendeu pronunciar-se para, no essencial, confirmar o que o jornal deu a conhecer.

Os casos, segundo o jornal, são diferentes entre si, mas relacionam-se todos com encobrimentos, sob a forma de inação, promoção dos perpetradores ou mudança de local de trabalho. Entre os acusados figura um antigo diplomata do Vaticano e núncio apostólico em Berlim de 2007 à 2013, hoje com 84 anos.

 

Entre bispos e padres, ninguém foi suspenso

Comentando a vinda a público do caso, o padre denunciante congratulou-se com as medidas tomadas por Roma, salientando ser necessário não apenas um inquérito de natureza histórica sobre os abusos, mas também no âmbito do direito canónico, assim como “outros procedimentos para fazer justiça às vítimas”.

O bispo inquiridor, Joseph Maria Bonnemain, deverá avaliar se as denúncias de abusos por parte de membros do clero tiveram o tratamento devido nas respetivas dioceses. “Trata-se de examinar se os responsáveis reagiram de modo apropriado em diferentes momentos ou se se demitiram de cumprir as suas obrigações de notificação, diz ele numa entrevista ao jornal que revelou o caso.

Nessa entrevista, o jornalista coloca a questão de os visados pelas acusações continuarem em funções. A resposta é que ninguém foi, até agora, suspenso e que ele próprio não dispõe desse poder.

“Mas estamos em 2023. Será pedir demais suspender uma pessoa da sua função até que as acusações sejam clarificadas?”, pergunta o jornalista. Ao que o bispo Bonnemain responde: “Não posso falar nem decidir por outrem. Pessoalmente, se existissem acusações contra mim, tomaria a decisão de deixar as minhas funções”.

 

Estudo sobre o abusos desde 1950 divulgado esta terça-feira

Fica-se a saber, pela entrevista, que, apesar de, há duas décadas, a Igreja Católica da Suíça estar envolvida em ações preventivas dos abusos, não possui, até hoje, qualquer documento normativo (ainda que, por exemplo, a diocese do bispo inquiridor o tenha).

Entretanto, a Conferência Episcopal, a Conferência Central Católica Romana da Suíça e a Conferência das Ordens Religiosas do país tomaram, há mais de um ano, a decisão de encomendar um estudo aprofundado de caráter histórico sobre os abusos sexuais na Igreja Católica suíça, recuando aos meados do século passado.

O estudo teve início em 1 de maio de 2022, levado a cabo por uma equipa liderada por duas investigadoras do Departamento de História da Universidade de Zurique, que é acompanhado por uma comissão científica designada pela Sociedade Suíça de História. Os investigadores tiveram livre acesso aos arquivos das dioceses. Os resultados que serão apresentados esta terça-feira estão a suscitar grande expectativa, podendo vir a influenciar o trabalho do bispo Bonnemain.

Segundo os promotores, “o foco deveria ser posto nas estruturas que permitiram os abusos sexuais de crianças e adultos, e que tornaram difícil a deteção e sancionamento”.

 

Zollner: Igreja deve mudar estruturas e mentalidade

Padre Zollner, Vaticano, Comissão de Proteção de Menores

O padre Hans Zollner, ex-membro da Comissão Pontifícia sobre a Proteção de Menores na Igreja, entende que “a responsabilidade deve ser assumida – mesmo que não haja culpa direta”. Foto © Agência Ecclesia/HM.

 

Quem deixou já um recado aos bispos suíços foi o padre jesuíta Hans Zollner, ex-membro da Comissão Pontifícia sobre a Proteção de Menores na Igreja, da qual se demitiu, no início deste ano, por considerar haver falta de transparência no funcionamento daquele órgão.

Para Zollner, os bispos deveriam “escutar e aceitar” “sem interferências” o que o estudo vai concluir e, ao mesmo tempo, “tirar conclusões concretas e eficazes das suas próprias reflexões”, as quais devem ser tornadas públicas.

Sobre os bispos, Zollner entende que “a responsabilidade deve ser assumida – mesmo que não haja culpa direta”. “Os bispos, os provinciais e outros funcionários representam as suas respetivas instituições, incluindo a sua história. Ao mesmo tempo, é verdade que é necessária uma mudança de estrutura e de mentalidade na Igreja. Mas nem mesmo uma demissão pode provocar isso de um dia para o outro”, concluiu.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Das cantigas de amigo à vinha

[Metáforas vivas]

Das cantigas de amigo à vinha novidade

Este texto corresponde à homilia de domingo, 4 de outubro, [domingo xxvii do tempo comum ― a ― 2026; 1º dia da semana da educação cristã; 800 anos da morte de S. Francisco], proferida pelo padre Joaquim Félix na igreja de S. Paulo, do Seminário Conciliar de Braga.

Jesus salva-nos de nós mesmos

[Entre Margens]

Jesus salva-nos de nós mesmos novidade

Uma das mais profundas obras de salvação realizadas por Jesus consiste em libertar-nos não apenas do pecado e da morte, mas também das falsas imagens que construímos acerca de Deus. Muitas vezes, consciente ou inconscientemente, projectamos sobre Deus os nossos medos, inseguranças e formas humanas de exercer o poder. [Texto de Vítor Rafael].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This