Quando perguntaram ao homem, que se encontrava no pináculo da catedral em construção, que estava ele a fazer, respondeu: a construir uma catedral!
Quando o pequeno beija-flor, numa grande azáfama, transportava água no seu pequeno bico para apagar o gigantesco incêndio, os outros animais da selva consideraram-no tolo e louco.
– É ridículo o que andas a fazer! Que pensas tu conseguir, com duas ou três gotitas de água, perante um incêndio tão devastador?
O pequeno pássaro respondeu-lhes: – estou a combater o grande incêndio, deitando água nestas gigantescas labaredas.
Os outros animais riram-se dele.
Ao ver a sua cara de gozo, o pequeno beija-flor disse-lhes: – eu estou a fazer a minha parte!
Atualmente somos um pequeno grupo de cinco pessoas. Se nos perguntarem o que temos andado a fazer ao longo destes últimos três anos e meio, talvez respondamos em uníssono: – andamos a construir Igreja, lugar de comunhão e participação. É legítimo que nos considerem tolos e loucos.
Que pode um grupo anónimo de cinco pessoas numa instituição com quase um bilião e meio de pessoas, com uma estrutura tão complexa e rígida, fazer? Responderíamos: andamos a fazer a nossa parte.

“Que pode um grupo anónimo de cinco pessoas numa instituição com quase um bilião e meio de pessoas, com uma estrutura tão complexa e rígida, fazer? Responderíamos: andamos a fazer a nossa parte.” Foto: fábula do colibri apagando o fogo na floresta é uma metáfora sobre a responsabilidade colectiva. DR
Estamos, de alguma forma, a tentar pôr em prática o repto de Jesus: – onde dois ou três estiverem em meu nome, Eu estarei no meio deles. De algum modo estamos a resgatar aquele aforismo medieval, em que a noção de comunidade é omnipresente, onde cada um se identifica, sem se diluir, com o todo. A idade média tem muito esta noção da comunidade, da interdependência e da complementaridade. É o homem do pináculo, que construindo um pormenor, está, também ele, a construir a catedral.
Ser Igreja é isto mesmo, ser pertença de um corpo que vai muito para além de nós, mas de que nós fazemos parte e de quem somos membros integrantes. A Igreja do primeiro milénio tem esta noção muito presente. Com os alvores do feudalismo, também a Igreja se foi feudalizando, perdendo, paulatinamente, esta intuição, deixando-se levar. e construindo ela mesma, a ideia de castas privilegiadas, superiores e apartadas. É este contexto que vê nascer as ordens mendicantes, tentando resgatar a ideia fundante de uma Igreja Povo de Deus, convocada, chamada e congregada em torno de Cristo pobre.
Nos alvores do sínodo sobre a sinodalidade, fomos desafiados a sentarmo-nos em volta de Jesus e a escutá-Lo. Nascemos sem qualquer pretensão, a não ser a de aprendermos, também nós, a arte da escuta. Alguns conheciam-se, outros, porém, desconheciam por completo a existência dos outros.
Por falta de criatividade, vou socorrer-me de uma imagem usada para diversas situações da vida e conhecida por muitos: a vida como uma viagem.
Iniciámos a viagem, apanhando este transporte específico, desconhecendo em que parte da viagem os outros se encontram. Ousámos entrar e sentar-nos lado a lado, sem pedir qualquer título válido para o transporte. Talvez o desejo de conhecer outras realidades, outras mundividências e outros pulsares da vida(?!), nos tenha levado a afoitarmo-nos nesta jornada.
Qualquer viagem tem várias paragens. Umas vezes entram novos passageiros. Algures em qualquer lugar remoto da existência humana, novos companheiros querem aventurar-se e entrar no transporte que nos tem vindo a conduzir. Porém, em qualquer altura da viagem alguns passageiros entendem que é chegado o seu momento de sair. Para esses o seu destino chegou, não faz sentido continuar. Saem com toda a liberdade.

“Sabemos que cada um traz consigo a bagagem da sua vida, que foi laboriosamente construindo: uma ou várias malas, com os seus preciosos tesouros.” Foto: Lançamento do Caminho Sinodal no IUJP com o padre João Alves, da Diocese de Aveiro. Direitos reservados.
A viagem tem sido um lugar de liberdade e de respeito, de escuta e de partilha, de procura comum da verdade, sem ser um entreposto de doutrinação. Somos pessoas com um passado, com memória e com vivências. Por isso mesmo, cada um carrega consigo uma identidade e uma personalidade já bastante elaborada e vincada.
Somos pessoas provenientes de diversas latitudes geográficas, tal como de diferentes geografias existenciais, o que nos confere um património que nos abre para motivações diferentes.
Sabemos que cada um traz consigo a bagagem da sua vida, que foi laboriosamente construindo: uma ou várias malas, com os seus preciosos tesouros. Constatamos que é deveras difícil a desconstrução e que é penoso desarmarmo-nos, por isso, continuamos a nossa viagem com o “eu” de cada um, o qual é respeitado por todos os outros.
Tem sido isso que nos tem enriquecido e nos tem feito perseverar. A arte de nos sabermos escutar e de aceitar as grandes diferenças que existem entre nós. Apesar das grandes diferenças, continua a ser aliciante viajar lado a lado, uns com os outros, que é como quem diz, sinodalizando.
Cada um de nós partilha quem é e o que vive na solidão dos seus silêncios e da sua observação. No fundo, o que cada um de nós faz, é contemplar os outros e constatar que somos pessoas que gostam e desejam ser escutadas e que, sem medos, sentem satisfação por partilhar o que a cada um inquieta e como sente o pulsar da vida.
Temos apenas uma pretensão: aprender a arte da escuta. De algum modo somos como o passarinho da fábula. – Estamos apenas a fazer a nossa parte, construindo, tal como o homem que ultimava o pináculo da catedral, a Igreja de Jesus Cristo.
António Ribeiro está aposentado e é cristão católico; contacto: amvribeiro@sapo.pt
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