Em 2025 assinalam-se os 10 anos da Laudato si’ e os 800 anos do Cântico das Criaturas, a oração de louvor de S. Francisco de onde vem o título daquela encíclica. Duas razões para tornar o Tempo da Criação mais festivo e nos motivar a ir mais longe no cuidado da casa comum e da grande família que nela habita.
Mas poderá realmente ser assim? Não podemos alhear-nos dos dias sombrios que a humanidade atravessa. Há a “terceira guerra mundial em pedaços”, como lhe chamou o Papa Francisco, e a par disso são cada vez mais numerosos e intensos os eventos climáticos extremos. Sem esquecer tantos líderes políticos actuais que se revelam autocratas, desrespeitam as leis e deixam a impressão de que há um desnorte interminável. Todo o sofrimento e destruição de que vemos imagens dia após dia deixam o coração pesado e um grande desalento. Por isso mesmo, o jubileu deste ano desafia-nos a sermos peregrinos de esperança e a bula de proclamação, Spes non confundit – A esperança não engana, faz votos de que as “pessoas desanimadas que olham, com cepticismo e pessimismo, para o futuro” encontrem “ocasião de reanimar a esperança”.
O Tempo da Criação tem como tema “Paz com a Criação”. Temos de ter com a Terra “uma relação de reciprocidade responsável entre o ser humano e a natureza”, ela não nos pertence, somos hóspedes (cf. Laudato Si’ 67). O papa Leão XIV, na mensagem para o dia de oração pelo cuidado da criação, que intitulou “Sementes de paz e esperança”, fala da força da semente que se transforma em vida fecunda, apela a que se torne perceptível a ‘carícia de Deus’ sobre o mundo. E é bastante incisivo quanto define a justiça ambiental:
Trata-se verdadeiramente de uma questão de justiça social, económica e antropológica. Para os que creem em Deus, além disso, é uma exigência teológica, que para os cristãos tem o rosto de Jesus Cristo, em quem tudo foi criado e redimido. Num mundo onde os mais frágeis são os primeiros a sofrer os efeitos devastadores das alterações climáticas, do desflorestamento e da poluição, cuidar da criação torna-se uma questão de fé e de humanidade.
Daí conclui que é tempo de as palavras serem seguidas de obras concretas. E faz votos de que “a ecologia integral seja cada vez mais escolhida e partilhada como caminho a seguir”.
Boas práticas ignoradas
A paz com a criação constrói-se de facto com iniciativas que não percam de vista a sustentabilidade. Não há planeta B. Mas vão-se multiplicando boas práticas e há resultados animadores, ainda que disso pouco se fale. A Plataforma de Acção Laudato Si’ mostra no site <https://raisinghope.earth/pt/> incontáveis exemplos de resultados conseguidos por todo o mundo. E convidam todos os que tiverem acções para dar a conhecer a tornarem-se participantes da Plataforma. Para comemorar os 10 anos da Laudato si’, promovem uma conferência intitulada “Espalhando Esperança”, que se realiza nos dias 2 e 3 de outubro, antecedida, na véspera, de uma celebração presidida pelo papa Leão XIV. É transmitida online, mas requer inscrição.
Este ano, a reflexão e os debates ao longo do Tempo da Criação não deverão esquecer a aproximação do COP 30, que vai realizar-se em Belém do Pará, Brasil, no princípio de Novembro. Uma campanha que já está a crescer visa o alívio da dívida dos países em desenvolvimento. Eles que são dos que menos contribuíram para as alterações climáticas, são dos que mais sofrem os seus efeitos, com a agravante que são afectadas sobretudo populações que enfrentam graves níveis de pobreza e escassez de recursos básicos.
Por tudo isto, o Tempo da Criação em 2025, traz desafios claros. Há que arregaçar as mangas e continuar a promover as mudanças que nos permitam recuperar os equilíbrios entre a humanidade e o ambiente. Mas a ecologia integral é feita igualmente de melhores relações entre as pessoas e entre os povos, que devem partilhar e usufruir dos recursos que se destinam a todos. Sem equidade, a paz será sempre frágil e com futuro incerto. A ecologia inclui ainda uma vivência espiritual, que a torna bela e apetecível. Nas cinco semanas de 1 de setembro a 4 de outubro, o caminho de cada um ou de cada grupo devia passar por momentos de paragem, contemplação e oração. Talvez seja uma surpresa para muitos descobrir outros horizontes e sentidos que o Criador oferece a quem procura.
Laudato si’!
Rita Veiga integra a Comissão Coordenadora da Rede Cuidar da Casa Comum.










