Um musical bem-intencionado, que conta de forma interessante a história de Thérèse Martin (Santa Teresa de Lisieux para os católicos), mas que fica aquém das expectativas – na música, na linguagem narrativa, na proposta do que é essencial em Teresa. Depois de há duas semanas ter esgotado o Teatro Camões, em Lisboa, será a vez do Porto, no próximo dia 30 (Coliseu, 21h00).
Thérèse Martin, o título escolhido pela encenadora Matilde Trocado, faz um interessante jogo entre o presente e o passado de Teresa e da sua família (os pais e as suas quatro irmãs, depois de terem morrido outros três irmãos rapazes e uma rapariga). O espectáculo começa com Teresa e Celina, crianças ainda, num bailado que depois inclui os pais. O papel da mãe Zélie, e do pai, Louis, na formação das cinco filhas aparece bem evidente na encenação, e é justo que assim seja: o segredo da vocação da futura doutora da Igreja (proclamada doutora da Igreja por João Paulo II, em 1997) está na forma como os pais, ambos canonizados pelo Papa Francisco em 2015, transmitiram o valor de um catolicismo que se deveria preocupar com a relação com Deus, passando pelo cuidado e atenção a todos e sobretudo aos mais pobres, nos mais delicados pormenores.
Maria Gabriela Llansol traduziu assim (O Alto Voo da Cotovia, edição Relógio de Água), a Prece da filha de um santo, revisitando a poesia que a própria Teresa de Lisieux foi escrevendo:
“(…) Lembras-te de mim, da tua pequena rainha,
A órfã da Beresina?
Lembras-te ainda do meu passo hesitante?
Foi tua mão que me indicou o caminho
_ Sempre.
Paizinho, lembras-te de mim, pequena ainda,
E me quiseste inocente? Para Ele, unicamente.”

O papel da mãe Zélie, e do pai, Louis, na formação das cinco filhas aparece bem evidente na encenação. Foto © Alfredo Matos
As cinco filhas do casal acabaram por ir todas para a vida religiosa (Marie, Pauline e Céline no mesmo Carmelo de Lisieux, Léonie como visitandina em Caen, também na Normandia), e Thérèse deixou a marca maior: além dos seus gestos quotidianos, legou-nos um conjunto de escritos onde se destaca a mulher que propunha a ternura contra o rigorismo e as penitências do catolicismo jansenista do tempo, a inspiração da Bíblia numa época em que isso era interdito aos católicos, a dignidade feminina na Igreja numa altura em que a mulher era desvalorizada… Os seus textos (História de uma Alma, Manuscritos autobiográficos, Poesias, orações e outros) estão reunidos em Obras Completas, das edições Carmelo.
“A mim deu-me [Deus] a sua misericórdia infinita, e é através dela que contemplo e adoro as demais perfeições divinas. Assim, todas se me apresentam resplandecentes de amor. A própria justiça (e talvez mais ainda que qualquer outra) me parece revestida de amor”, escrevia ela no Manuscrito A autobiográfico (Obras Completas).
Nas 1100 citações bíblicas que Teresa fez nos seus escritos, ela manifesta a sua ruptura também com a interdição prática de ler a Bíblia, a que os católicos estavam sujeitos. Em alguns dos textos, fala das “pobres mulheres”, tantas vezes “desprezadas” pela Igreja. “Não obstante, amam a Deus em muito maior número do que os homens. E durante a Paixão de Nosso Senhor, as mulheres tiveram mais coragem que os apóstolos…”

Não apenas Thérèse, mas também as suas quatro irmãs abraçaram a vida religiosa, três delas no mesmo Carmelo. Foto © Alfredo Matos
Uma jovem mulher moderna, portanto. E é essa modernidade que, na linguagem cenográfica e musical, fica aquém do que se poderia esperar. Ainda mais sabendo que Matilde Trocado foi a directora artística da extraordinária e belíssima Via Sacra da Jornada Mundial da Juventude, em Lisboa, há dois anos. No espectáculo, passa-se quase directamente da entrada de Thérèse no Carmelo de Lisieux para a sua doença e morte, com poucas referências aos escritos (algumas frases são citadas em algumas das falas da protagonista). Estes só aparecem mais referidos no final: “Alguém terá interesse em lê-los?”, pergunta uma das irmãs do carmelo. Um ano depois, os textos de Teresa seriam impressos pela primeira vez, o seu sucesso foi vertiginoso e ao Carmelo passaram a chegar mil cartas por dia.
No movimento de vaivém que a encenação adopta, a morte da mãe de Teresa marca a partida de Louis e das suas filhas para Lisieux. Regressa-se ao futuro, já no Carmelo, para mostrar a peça sobre Joana d’Arc que Teresa escrevera para entretenimento das religiosas. Estas conversam: “Uma carmelita podia incendiar o mundo – alguém tinha alguma dúvida?” O Bolero, de Maurice Ravel, começa a tocar com a entrada de Pauline no convento, só terminará quando Thérèse entra também na clausura.
Mostram-se as visitas ao Carmelo (com um bom artifício cenográfico, uma grade aos quadrados a toda a altura do palco), as freiras lavam a roupa enquanto cantam… Em retrospectiva, mostra-se o desejo de Thérèse entrar prematuramente no Carmelo, a sua viagem a Roma para pedir uma autorização especial ao Papa, o objectivo e desejo conseguido. A doença aparece, a tensão surge porque a própria inicialmente não a quer revelar, uma refeição tem apenas a tosse e o silêncio. Passa-se ao momento em que o pai se encontra mentalmente debilitado e corre sem destino: “Estou perdido, não sei o caminho. Onde estão os pobres? Não podemos deixar os pobres sem pão…” Nem na fraqueza Louis Martin esquece o essencial.
Como que em resposta, Thérèse – e depois as outras irmãs do Carmelo acompanham-na – canta: “Sou carmelita, sou pequenina, mas tenho em mim um amor sem fim” e “A minha força é mesmo essa, o amor. Com a morte do pai, a última das filhas Martin, Céline, entra também no Carmelo. E Teresa assegura, enquanto as carmelitas cantam um Requiem: “Quero passar o meu céu a fazer o bem sobre a terra.”

Mostram-se as visitas ao Carmelo com um bom artifício cenográfico, uma grade aos quadrados a toda a altura do palco. Foto © Alfredo Matos
Pergunto-me muitas vezes porque alguns espectáculos de música e dança, exposições e outras actividades culturais promovidas por comunidades religiosas (católicas, mas não só) não são objecto de curiosidade, notícia e crítica jornalística. É certo que abunda o preconceito: se é católico (ou protestante ou evangélico ou muçulmano…) não interessa. Ou só interessa pelo exotismo. O exemplo da Via Sacra da JMJ, em que uma belíssima e extraordinária encenação esteve ao serviço de uma grande mensagem aí está para mostrar que uma obra com origem numa comunidade religiosa pode ser artisticamente valorizada também por quem não crê. Mas também me pergunto o que um crítico de música, teatro ou arte diria sobre algumas iniciativas culturais religiosas que, muitas vezes, pouco mais são do que expressões muito amadoras sem qualquer interesse.
Não é esse o caso de Thérèse Martin, que tem vários motivos de interesse. Neste espectáculo estamos perante um simpático musical, que conta bem parte da história de Thérèse e dos seus pais (e repito, neste detalhe está uma grande virtude), mas que não nos agarra, não nos arrebata. E que, quer na música quer na mensagem, tende, como infelizmente tantas vezes acontece mesmo na teologia católica, a adocicar uma proposta que continua a ser incendiária – aliás, a devoção popular já adocicara a mensagem de Teresa de Lisieux.
Thérèse Martin merecia mais força para mostrar como a fragilidade de uma miúda pode, ainda hoje, agitar corações. Como ela, ainda hoje, continua a querer que o seu céu seja fazer o bem sobre a terra.

Thérèse Martin merecia mais força para mostrar como a fragilidade de uma miúda pode, ainda hoje, agitar corações. Foto © Alfredo Matos
Thérèse Martin
Autoria, letras, encenação e figurinos: Matilde Trocado
Composição, direcção musical e piano: António Andrade Santos
Coreografia: Sofia Loureiro
Produção: Pedro Castro
Encenação e direcção de actores: João Duarte Costa
Cenografia: Luís Santos
Direcção técnica e Som: José Batista
Desenho e operação de luz: Rui Braga
Coliseu do Porto, terça-feira, 30 de Setembro, 21h00.
https://musicaltheresemartin.pt/






