De há uns tempos para cá, surgiu entre nós a moda de substituir o cumprimento das personalidades presentes num evento pela expressão “Todo o protocolo observado” (TPO).
Agora, em qualquer ato público político, social ou até cultural, em vez de se começar com um cumprimento às autoridades, pelo seu grau de precedência, resolve-se tudo com TPO. Está o Presidente da República presente, ou o primeiro-ministro, ou um antigo Presidente e outras entidades políticas, militares, religiosas, corre-se todos com uma pretensa introdução simpática dizendo: “Minhas senhoras e meus senhores, todo o protocolo observado, vamos dar início ao nosso evento!”
A questão, porém, é que, ao se dizer “todo o todo o protocolo observado” está-se precisamente a não observar protocolo algum. E, pior, está-se a tratar sem a devida consideração entidades que convidamos pela sua função e que nos honram com a sua presença.
Sempre tenho defendido que o protocolo é, acima de tudo, simpatia, respeito e consideração e é constituído por um conjunto de procedimentos que visam assegurar que todas as pessoas são tratadas com dignidade e com reconhecimento pela função que exercem de acordo com as disposições legais e costume de cada país.
Ter a presença do Presidente da República a assistir a um ato público é sempre uma consideração dada ao evento e, por isso, se há um momento introdutório, a presença dele deve ser destacada com um cumprimento personalizado. O mesmo se diga se for o primeiro-ministro ou até um secretário de Estado que tenha especialmente sido convidado pelas suas funções para esse evento. É a forma cordial de se agradecer quem a organização convidou e cujo convite mereceu a melhor resposta.
A utilização do TPO revela também, já percebi, alguma ignorância sobre quem é quem e qual o seu grau de precedência. Um sintoma grave de má preparação do protocolo do evento e, mais, sintoma de algo muito grave que grassa entre nós: preguiça.
Os funcionários do protocolo têm de conhecer as autoridades presentes num evento. Nós, Cabo Verde, somos um país pequeno, não temos muitos membros de órgãos de soberania, o nosso corpo diplomático também não é extenso e as autoridades religiosas e militares também não são muitas. Ora, quem trabalha no protocolo deve ter um ficheiro com a foto, função e nome de cada uma dessas entidades. Assim, sabe quem elas são quando chegam, e facilmente as conduzem ao lugar designado e também facilmente comunicam aos intervenientes do ato quais as autoridades presentes, permitindo que estas as possam referir no cumprimento inicial. Como este trabalho não é feito, cometem-se muitas gafes protocolares, viola-se a lei das precedências e ofendem-se as pessoas. Assim, para evitar que isto aconteça, para evitar o trabalho de estudar e estar informado, arruma-se tudo com um “Todo o protocolo observado”!
Entendo que, mesmo que não se reconheçam todas as autoridades presentes, pelo menos que se cumprimente as protocolarmente mais importantes e que, por essa razão, se sentam nos lugares da frente, e, de seguida, em vez de usar a fórmula TPO, se diga o “minhas senhoras e meus senhores”, que abrange todos.

Secretária de Estado da Família e Inclusão Social, Lídia Cristina da Cruz Brito Lima de Melo. Foto © Site Governo de Cabo Verde
O TPO é também usado pelos oradores para não terem de repetir todos os cumprimentos já feitos pelos oradores anteriores, poupando-se assim o tempo que, como sabemos, é sempre muito curto e, também, para não cansar as pessoas. Mas observar o protocolo nessas situações cumpre-se com a referência às autoridades mais importantes presentes, seguida de um “cumprimento todos os presentes” ou o clássico “excelências, minhas senhoras e meus senhores”.
Num evento em que estive, que decorreu numa instituição que até cultiva muito estas regras protocolares e sabe a importância dos rituais, surpreendeu-me ver a secretária de Estado da Família e Inclusão Social presente durante toda a conferência, inclusive na parte dos debates, o que não é normal – geralmente os membros do governo vão-se embora após a sessão de abertura ou das intervenções dos oradores estrangeiros – e não lhe ter sido feito nenhum cumprimento nem agradecimento pela presença dela!
Entendo que nestas e noutras ocasiões, é um dever, pelo menos, do mestre de cerimónias, fazer as diligências prévias para saber que autoridades estão presentes e que, pela função que desempenham, merecem um cumprimento especial. O escudar-se na fórmula TPO é uma indelicadeza observada em toda a sua extensão.
Lígia Dias Fonseca é uma moçambicana que pelo poder do amor se tornou também cabo-verdiana. Vive na cidade da Praia, capital de Cabo Verde. É advogada e mãe de uma jovem adulta. Católica convicta que acredita que as mulheres devem ter direitos iguais aos homens incluindo na organização da Igreja.










