Exposição com entrada gratuita

Uma “oportunidade única” para descobrir os “tesouros” da Real Irmandade de Mafra

| 7 Jul 2024

Exposição Ad Gloriam Dei no Palácio Nacional de Mafra. Julho 2024. Foto Clara Raimundo (3)

A exposição Ad Gloriam Dei estará patente no Torreão Sul do Palácio Nacional de Mafra até maio de 2025. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS

O que têm em comum a camisa que o rei Luís XV de França usou na sua sagração em Paris em 1722, a cruz com quase cinco metros que D. João V mandou vir de Roma em 1740 para a Procissão da Penitência da Ordem Terceira de São Francisco, e a coroa que a imagem de Nossa Senhora da Soledade “ganhou” aquando da sua coroação pontifícia, em setembro passado? Mais do que possa parecer: além de serem três dos “tesouros artísticos” mais importantes que a Irmandade do Santíssimo Sacramento de Mafra guarda no seu espólio, todos eles têm características que os tornam únicos no mundo, e estão entre as 50 peças que podem ser vistas na exposição Ad Gloriam Dei, inaugurada este domingo, 7 de julho, no Real Edifício de Mafra, para assinalar o quinto aniversário da sua inscrição na lista do Património Mundial da UNESCO.

“Trata-se de uma oportunidade única para apreciar de perto estas peças, sendo que algumas delas as pessoas nunca viram, nem mesmo os irmãos, e outras veem-nas apenas nas procissões, nas missas, mas de longe… Não têm normalmente a possibilidade de vê-las em pormenor. Há aqui peças que são extremamente bonitas e valiosas, que estão guardadas durante a maior parte do tempo e que só são utilizadas uma vez por ano… às vezes nem isso”, assinala Francisco Simões do Paço, juiz da Irmandade, em declarações ao 7MARGENS.

É o caso da cruz processional medieval de Santo André de Mafra, que recebe os visitantes logo na primeira sala da galeria, e é a peça mais antiga em exposição. Datada de 1385, terá sido oferecida pelos primeiros Senhores de Mafra e foi classificada como Tesouro Nacional. “Está sempre guardada num cofre e só sai quando o Patriarca de Lisboa vem celebrar missa a Mafra”, explica.

Exposição Ad Gloriam Dei no Palácio Nacional de Mafra. Julho 2024. Foto Clara Raimundo (1)

A cruz processional medieval de Santo André de Mafra recebe os visitantes logo na primeira sala da galeria. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS

É também o caso daquela que Francisco Simões do Paço assume ser uma das suas peças preferidas, e que pode ser encontrada quase no final da exposição: o andor do Monte Alverne com a representação de São Francisco a receber os estigmas frente à aparição de Cristo crucificado, que apenas é exposto na Basílica de Mafra durante alguns dias da Quaresma e sai à rua apenas para a Procissão dos Terceiros. “Sempre foi uma peça que me fascinou! Lembro-me de estar sentado muito tempo, só a contemplar as feições do Cristo.  E há uma grande devoção das pessoas da Irmandade em relação àquela imagem”, partilha o Juiz da Irmandade, que é também o seu membro mais antigo, desde que o tio o inscreveu, tinha ele apenas oito anos.

Hoje, com 68, não esconde a alegria de ver esta exposição, que partiu de um convite do Presidente da Câmara Municipal de Mafra, tornada realidade: “É muito bom poder mostrar às pessoas da Irmandade, da paróquia e também aos que vêm de fora, todo este espólio da Irmandade, e que inclui também algumas peças que herdámos conforme foram sendo extintas outras irmandades”, afirma.

Cristo_de_Monte_Alverne. Foto Arquivo RVISSM

O andor do Monte Alverne com a representação de São Francisco a receber os estigmas frente à aparição de Cristo crucificado, fotografado durante a Procissão dos Terceiros. Imagem pertencente ao arquivo da Irmandade.

Ao longo das diferentes salas da galeria instalada no Torreão Sul do Palácio Nacional de Mafra, é possível encontrar inúmeras peças de prataria e ourivesaria, das quais se destacam – além da cruz processional medieval de Santo André de Mafra e da coroa da imagem de Nossa Senhora da Soledade, benzida pelo Papa Francisco durante a Jornada Mundial da Juventude – a urna de prata usada em Quinta-feira Santa, uma cruz com a relíquia do Santo Lenho oferecida pelo rei D. José I, ou o “Sol do Apocalipse”, peça em latão dourado inspirada na liturgia arménia e única no seu género no contexto nacional.

Exposição Ad Gloriam Dei no Palácio Nacional de Mafra. Julho 2024. Foto Clara Raimundo (1200 x 900 px) (1)

A coroa da imagem de Nossa Senhora da Soledade, benzida pelo Papa Francisco durante a Jornada Mundial da Juventude, é um dos “tesouros artísticos” em exposição. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS

Nos têxteis, além da camisa da sagração de Luís XV de França – a qual foi usada cerimonialmente para vestir a escultura de São Luís até ao ano de 2015 – evidenciam-se também alguns dos paramentos do período de D. João V, que ainda hoje são usados nas celebrações litúrgicas na Basílica de Mafra.

Quanto às esculturas, é impossível ficar indiferente ao andor de Cristo do Monte Alverne e à enorme cruz de Penitência da Ordem Terceira oferecida à Irmandade por D. João V, que ainda hoje é transportada por um só homem na procissão e é uma das maiores do mundo em uso regular, mas também ao Cristo Crucificado, cuja autoria é atribuída ao escultor Manuel Dias – que ficou conhecido como “o pai dos Cristos” – e que só pode ser vista nas celebrações de Sexta-feira Santa.

Exposição Ad Gloriam Dei no Palácio Nacional de Mafra. Julho 2024. Foto Clara Raimundo (2)

É impossível ficar indiferente à enorme cruz de Penitência da Ordem Terceira oferecida por D. João V. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS

Já na pintura, é de destacar um conjunto iconográfico de santos devocionais franciscanos, do segundo quartel do século XVIII, procedentes de oficinas de pintura italianas, que se encontravam guardados no palácio e nunca haviam sido expostos.

Com um valor histórico não menos relevante, destaque ainda para alguns dos documentos que integram esta mostra inédita, como os livros de contas ou de inventário da Irmandade, cujas informações permitem conhecer ao detalhe cada peça exposta, ou alguns dos pequenos papéis contendo preces, escritas por mulheres em finais do século XIX e só descobertos em 2018 dentro de um dos mantos do enxoval de Nossa Senhora da Soledade.

Exposição Ad Gloriam Dei no Palácio Nacional de Mafra. Julho 2024. Foto Clara Raimundo (2)

Também integram as exposição os livros de contas ou de inventário da Irmandade, cujas informações permitem conhecer ao detalhe cada peça exposta. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS

Muitas das peças presentes nesta mostra foram objeto de conservação e restauro ao longo dos últimos meses, graças ao apoio da autarquia. “Havia várias peças que necessitavam de reparações, limpeza e outros tratamentos  e esta exposição foi também uma oportunidade para, através do apoio da Câmara Municipal de Mafra, conseguirmos que isso acontecesse. São procedimentos muito onerosos e a Irmandade vive de esmolas e de alguns subsídios, poucos… não teríamos tido a possibilidade de os fazer sem esse apoio”, reconhece o Juiz da Irmandade.

Visivelmente orgulhoso, Francisco Simões do Paço convida todos a ver o resultado final. “Penso que todas as pessoas devem vir, não especificamente quem seja católico. Para os católicos, apreciar estas imagens terá sempre um sentido diferente, mas a beleza delas creio que irá impressionar todos aqueles que vierem”, diz.

A exposição, de entrada gratuita, é comissariada por Teresa Leonor Vale, historiadora de arte que integra a Irmandade, e coorganizada pelo Município de Mafra, a Real e Venerável Irmandade do Santíssimo Sacramento de Mafra e pelo Palácio Nacional de Mafra. Ficará patente até maio de 2025.

 

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