Vivemos em sociedades em que o envelhecimento é olhado muitas vezes como um problema económico, tanto para os estados como para as famílias, de abandono e da quebra de laços que têm como consequência a destruição de redes de solidariedade e de suporte que foram apoio durante a vida ativa. Na verdade, o envelhecimento daqueles e daquelas que nos precederam põe à prova a nossa humanidade enquanto sociedade e enquanto indivíduos.
O 7MARGENS iniciou a publicação de depoimentos de idosos recolhidos por José Pires, psicólogo e sócio fundador da Cooperativa de Solidariedade Social “Os Amigos de Sempre”. Publicamos hoje o décimo segundo depoimento do total de vinte e cinco. Pode ler aqui os depoimentos já publicados. Informamos que tanto o nome das pessoas como as fotografias que os ilustram são da inteira responsabilidade do 7MARGENS.

“A partir de determinada idade, sobretudo quando as pessoas entram na fase de aposentação, não devem abdicar dos hábitos de que sempre gostaram.” Foto © Pixabay (editada)
Fernando, 78 anos
Esta é uma história verídica passada comigo há mais de trinta anos.
Encontrava-me num Centro de Saúde para, como delegado de informação médica, visitar os clínicos que ali atendiam os doentes. Ao fim da manhã, vinha a descer as escadas uma médica acompanhada de um homem muito idoso e de uma mulher bastante mais nova do que ele. A médica, quando me viu, disse:
– Vou apresentar-lhe aqui o sr. Evaristo que tem 97 anos de idade e a sua esposa que tem 50 e poucos. Como vê, ele está óptimo, apesar de eu lhe recomendar que tenha cuidado com o tabaco. Também costuma beber o seu copito de vez em quando …
Reparei que, de facto, o homem tinha descido as escadas com desenvoltura e, enquanto a médica falava, ele sorria.
– Sabe que ele já viuvou duas vezes – continuou a médica – e esta senhora com quem ele agora vive era a sua antiga empregada doméstica e, diz ele, que também ainda “há-de enterrar esta”!…
Dei os meus parabéns ao casal e fiquei a pensar que, se o sr. Evaristo tivesse deixado de fumar o seu cigarrito e de beber o seu copito de vez em quando, a sua evidente boa disposição e desenvoltura teria acabado. É que a rotura com os seus antigos pequenos vícios, ter-lhe-ia afectado gravemente o cérebro e, talvez nessa altura, a sua antiga empregada doméstica é que passaria a ser a viúva.
Por isso, a partir de determinada idade, sobretudo quando as pessoas entram na fase de aposentação, não devem abdicar dos hábitos de que sempre gostaram no sentido de manterem alguma qualidade de vida. As sequelas da continuidade dos pequenos vícios, nas idades mais avançadas, são pequenas ou nenhumas.










