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Carlo Dolci, Moisés (1640-45); Galeria Palatina (Palácio Pitti), Florença.
Carlo Dolci, Moisés (1640-45); Galeria Palatina (Palácio Pitti), Florença.

[A Palavra e a Vida]

Velhice e tempo na Bíblia

| 05/07/2026

 

Quem não lê as histórias de longevidade dos anciãos bíblicos perde uma incalculável riqueza, que os potenciais anciãos de hoje podem herdar. De facto, a longevidade daqueles não é um concurso sobre quem viveu mais. É meditação sobre o tempo que passa inexorável, sobre a experiência humana indelével e sobre a ligação do humano ao divino.

O tempo tinha passado fugazmente por eles. Mas a longa idade, a idade acumulada, tinha ficado: eles ‘tinham-na’, formando parte de si, como a cauda do cometa. Eles eram precisamente a vida e a experiência que se tinha sedimentado, depositado, dentro deles, ano após ano, gerando um misterioso enriquecimento neles e no povo que formavam. As experiências recolhidas, a abertura da mente a novas perspectivas e a novos horizontes, a maior capacidade de avaliar situações e de acolher o ‘diferente’ não tinham ‘fugido’ deles. Tinham-nos ‘feito’, como nos fazem a nós.

A idade madura destes antepassados vivos era, afinal, recapitulação da sua vida de ‘não passados’, a idade mais valiosa, depois da qual não havia outra. A recapitulação continha e sintetizava a vida inteira, memória agradecida das consolações vividas, quinta-essência dos desejos e projectos realizados, as dores superadas, as frustrações sublimadas, os amores dados e recebidos; era o remanso final do curso dos anos, ao longo dos quais tinham escolhido o que queriam ser para sempre no mar da eternidade que já se sentia perto: «Eis que eu estou para morrer. Mas Deus estará convosco» – diz Jacob a José (Génesis 48,21).

O ancião bíblico não esquecia a espessura dos acontecimentos, como se esquece frequentemente hoje com uma tendência suicida a ‘actualizá-los’ no que é recente e, por isso, a reduzi-los a um só plano, talvez a uma notícia evanescente, mutilando-os do seu sentido humano e religioso e das suas consequências. Em boa verdade, o ‘actual’ mantém e guarda o conteúdo de fundo que vem do passado e merece atenção: «Recorda os dias de outrora, medita nos anos de tantas gerações. Pergunta ao teu pai e ele contar-te-á, aos teus anciãos e eles dir-te-ão» (Deuteronómio 32,7). A recordação bíblica, registo no coração, não era conservação passiva, fixada de uma vez para sempre, como nas paredes de um museu, na cadeia dos acontecimentos do passado. Recuperava, celebrava e salvava no presente aqueles factos ‘grávidos de um sentido’ que não se tinha conseguido ver no passado.

Rembrandt van Rijn, Abraão Recebe os Três Anjos (1646)

Rembrandt van Rijn, Abraão Recebe os Três Anjos (1646).

O ancião, com a sua longevidade, afastando as fronteiras da morte o mais possível, vivia em mais de um mundo e em sucessivas gerações, impedindo assim que o passado se apagasse: dando tempo que mais contemporâneos jovens testemunhassem os mesmos factos que ele, consolidava-os na memória colectiva do povo, sempre ‘actual’, e contribuía mais para ela. A longevidade – a real e a aumentada pela intenção simbólica – permitia gerar uma razoável unidade, harmonia e coerência entre os acontecimentos desconexos dos mais idosos e dos jovens que iam fazendo cultura no povo de Israel: «Fui jovem, já sou velho; e nunca vi um justo abandonado, nem a sua descendência a mendigar pão» (Salmo 37,25).

A memória de cada ancião superava-o e continuava depois dele, no jovem. A história não era sucessão mas convivência de gerações, que cresciam e amadureciam simultaneamente. Era formação contínua intergeracional, educação inclusiva, reciclagem permanente dos idosos com o contributo dos jovens e vice-versa: «Escutai, filhos, a instrução do pai; estai atentos para adquirirdes a inteligência» (Provérbios 4,1-4). «Ouvi isto, anciãos!… Contai-o aos vossos filhos; e os vossos filhos aos seus filhos; e os seus filhos à seguinte geração» (Joel 1,1-3). «O que ouvimos e aprendemos e os nossos pais nos transmitiram não o ocultaremos aos seus filhos; tudo contaremos às gerações vindouras» (Salmo 78,3-4). Os mais idosos sabiam que “a conversa converte”.

A memória, base para a aprendizagem, tecia as diversas visões do mundo e unia as formas de pensamento dos idosos com as dos jovens. Ao estarem na ponta final da vida, os anciãos bíblicos eram capazes de unir o que os jovens tendiam a ver em fragmentos (aptidões e realizações, ganhos e renúncias, desaires e alegrias, perdas e fantasias). Não encontravam no fim um montão de destroços, mas a harmonia feita com os muitos fragmentos de vida (cf. P. R. Scalabrini, “L’età anziana secondo l’Antico Testamento”, Le età della vita [PSV 49; EDB Bolonha 2004] 11-29). Com a sua longa memória contavam diante de si e dos outros os acontecimentos de toda a vida, reconhecendo as luzes e as sombras, integrando os gozos e os sofrimentos, vivendo o presente com paz e harmonia interior. Redimiam o tempo, libertando-o de maus pensamentos sobre o passado e abrindo-o a um futuro de esperança, considerando cada instante como um presente valioso, oferecido para relançar a vida e para o desposar com a eternidade: «Instruíste-me, ó Deus, desde a minha juventude; e até ao presente tenho anunciado as tuas maravilhas… Também agora, na velhice e de cabelos brancos, não me abandones, ó Deus, até que eu anuncie a tua força a esta geração, o teu poder a todos os vindouros» (Salmo 71,17-18; cf. J. Cristo Rey García, “Longevidad y tiempo extra”, Vida Religiosa [Monográfico 1/2022/ vol. 132] 33-87). Quem assim ora desprende-se das contradições da vida e entra no limiar da imortalidade.

 

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