Cinquenta dos 303 alunos sequestrados de uma escola católica no estado federal centro-oeste do Níger (Nigéria) conseguiram escapar do cativeiro e já estão com as suas famílias, informou a direção da escola neste domingo, 23 de novembro, enquanto o Papa apelava à libertação imediata dos que ainda estão desaparecidos.
O sequestro em massa aconteceu na sexta-feira, na Escola Santa Maria, uma instituição católica na remota comunidade de Papyri localizada perto de uma importante estrada que liga as cidades de Yelwa e Mokwa. Trata-se de uma região da Nigéria onde grupos armados frequentemente operam a partir de vastas florestas que ligam diferentes estados e pontos críticos de conflito.
Os alunos sequestrados, com idades compreendidas entre 10 e os 18 anos, fugiram individualmente entre sexta-feira e sábado, de acordo com o bispo Bulus Dauwa Yohanna, presidente da Associação Cristã da Nigéria no estado de Níger e proprietário da escola que foi alvo do ataque, adianta o jornal Crux nesta segunda-feira.
Um total de 253 crianças em idade escolar e 12 professores permanecem ainda às mãos dos sequestradores, disse Yohanna num comunicado. “Conseguimos constatar isso quando decidimos contactar e visitar alguns pais”, esclareceu, acrescentando: “Por mais que recebamos com certo alívio o regresso dessas 50 crianças que escaparam, peço a todos que continuem em oração pelo resgate e retorno seguro das vítimas restantes”.
O Papa pediu a libertação imediata dos alunos e funcionários da escola, afirmando, após a missa na Solenidade de Cristo Rei celebrada este domingo na Praça de São Pedro, estar profundamente entristecido com estes sequestros, bem como com o de seis padres católicos e de um pastor batista que ocorreu nos Camarões, ocorrido a 15 de novembro.
“Tomei conhecimento com imensa tristeza das notícias sobre os sequestros de padres, fiéis e estudantes na Nigéria e nos Camarões. Sinto uma dor profunda, sobretudo pelos muitos rapazes e raparigas sequestrados e pelas suas famílias angustiadas. Faço um apelo sincero para que os reféns sejam imediatamente libertados e exorto as autoridades competentes a tomarem decisões adequadas e oportunas para garantir sua libertação. Rezemos pelos nossos irmãos e irmãs e para que, sempre e em todos os lugares, as igrejas e as escolas continuem sendo locais de segurança e esperança”, afirmou Leão XIV.
Uma carta do arcebispo de Bamenda (diocese no noroeste dos Camarões), Andrew Nkea, à qual o Crux teve acesso, afirma que todos os reféns do sequestro naquela região, com exceção de um – o padre John Berinyuy Tatah – foram libertados. Tatah, segundo a carta, está a ser mantido em cativeiro com a intenção de obter um resgate.
O quê e quem está na origem destes sequestros?
O ataque no estado de Níger ocorreu apenas quatro dias depois de 25 crianças em idade escolar terem sido sequestradas em circunstâncias semelhantes na cidade de Maga, no estado vizinho de Kebbi, a 170 quilómetros de distância.
Ambos os estados estão localizados na região norte da Nigéria, onde dezenas de gangues armados têm usado os sequestros para obter resgates como uma forma de dominar comunidades remotas com pouca presença governamental e de segurança.
As escolas funcionam como alvos “estratégicos”, porque atraem mais atenção. Após o ataque de sexta-feira, o estado de Níger decidiu encerrar temporariamente todos os estabelecimentos de ensino. Mas raramente os responsáveis são identificados ou sofrem consequências por estes atos.
De referir que este tipo de ataques tem afetado tanto cristãos como muçulmanos. No caso do ataque à escola no estado de Kebbi, aconteceu numa cidade de maioria muçulmana.
Alguns dos ataques têm sido atribuídos ao Boko Haram, grupo que procura impor o Estado Islâmico na região norte da Nigéria, bem como em partes dos países vizinhos, como os Camarões e Chade.
Mas outros grupos armados no norte da Nigéria têm realizado sequestros, principalmente para obter resgate. De acordo com as autoridades, citadas pelo Crux, esses grupos são, na sua maioria, ex-pastores que pegaram em armas contra as comunidades agrícolas após confrontos para disputar recursos que são cada vez mais escassos.
“Embora frequentemente confundidos com os grupos militantes islâmicos, os bandidos que operam no noroeste da Nigéria são um fator distinto de instabilidade nesta região”, afirmou o Centro Africano de Estudos Estratégicos, apoiado pelos EUA, no início deste ano, observando que se acredita que os bandidos sejam responsáveis por aproximadamente o mesmo número de mortes que o Boko Haram e o grupo afiliado ao Estado Islâmico no nordeste.










