A Conferência Internacional sobre “a paz desarmada e desarmante”, que na última semana decorreu em Roma, por iniciativa do Instituto Católico para a Não Violência da Pax Christi Internacional, foi um momento importante de testemunho, reflexão e de inspiração para agir. Valeu, pois, a pena que o 7MARGENS tivesse estado presente, não apenas para cobrir e levar aos leitores o que lá se passou, mas para estabelecer contactos com vista a iniciativas futuras.
A matéria em debate – uma paz desarmada e desarmante – que tem sido proposta com insistência pelo Papa Leão, não apanhou a Pax Christi de surpresa. A construção da paz é um desiderato e uma preocupação que vem desde a fundação, em 1945, como o próprio nome indica. Mas, na sequência do apelo dos últimos papas, desde João XXIII – não mais a guerra! – a não violência converteu-se num eixo central da sua atividade. Em 2016, já com o Papa Francisco, organizou em Roma, em parceria com o Vaticano, uma conferência sobre “Não-violência e paz justa”, da qual surgiu o lançamento da Iniciativa Católica de Não-Violência (CNI). O reforço desta linha de ação deu-se em 2024, quando a partir da CNI foi criado o Instituto Católico para a Não-Violência. Importa referir que esta conferência foi precedida de um atelier de formação teológica e prática em formas de ação não violenta, com a duração de cerca de uma semana, para a qual foram selecionadas 25 pessoas.
A grande novidade e significado de todo este trabalho é que ele tem, por detrás, a cobertura papal, no sentido em que a paz desarmada e desarmante aponta não apenas para uma recusa da guerra, da intimidação e da corrida aos armamentos, como também para uma atitude ativa e positiva de escuta, diálogo, estilos de vida que desativem hostilidades e gerem confiança, empatia e esperança, reconhecendo os outros como irmãos.

A conferência do Instituto Católico para a Não Violência que terminou na quinta-feira em Roma. Foto © Manuel Pinto
As mais recentes tomadas de posição de Leão XIV verificaram-se no final do Consistório Extraordinário, de junho deste ano, em que o Papa destacou a importância da “resposta não violenta às muitas formas de violência”; e na encíclica Magnifica Humanitas, em que reiterou que a teoria da chamada “guerra justa”, que já vinha a ser ciclicamente questionada, se converteu, atendendo às práticas e às condições das guerras presentes, num conceito ultrapassado e que deve ser abandonado.
Ao escutar as intervenções das palestras e painéis da conferência de Roma, fui tomando consciência desta grande – poderia dizer: enorme – mudança doutrinal que está em gestação e que tanto o cardeal Bo, de Mianmar, como o arcebisço McElroy, de Washington enalteceram nas suas intervenções. A verdade é que a doutrina oficial só mudou nas mensagens várias do Papa; não ainda em termos de decisão oficial. O Catecismo da Igreja Católica lá continua a falar de “guerra justa”, ainda que restringindo o recurso a ela; os governantes e dirigentes militares é que ligam pouco ou nada ao conceito, já que todas as guerras são justas se forem no seu interesse.
Mas a mudança não é apenas doutrinal: na verdade, uma das riquezas desta iniciativa da Pax Christi foi trazer para o debate académicos das áreas da Filosofia, da Sociologia e da Teologia que estudam a paz e os velhos e novos caminhos de nela caminhar, mas igualmente líderes e conselheiros de lutas não violentas de causas várias, em que estão sob ameaça formas de vida, identidades e recursos das comunidades e dos povos. Mais ainda: aquele que foi o primeiro objetor de consciência catalão dos tempos de Franco deu testemunho de iniciativas para criar na Catalunha uma rede de autodefesa civil sem recurso a ação violenta, que possa vir a ser o embrião de um sistema de defesa da própria sociedade. Outros exemplos poderiam ser dados da resistência à polícia anti-imigração, nos EUA, como a que ocorreu est ano em Minneapolis. De facto, muitos processos de resistência ou de prevenção e proteção não violenta dificilmente serão eficazes, se não envolverem amplos setores da sociedade e formas de organização consistentes, a começar pelos mais jovens. Tal como dizia Martin Luther King Jr., “aqueles que amam a paz têm de aprender a organizar-se tão eficazmente como aqueles que amam a guerra”.

“Aqueles que amam a paz têm de aprender a organizar-se tão eficazmente como aqueles que amam a guerra”, disse Martin Luther King Jr.. Na foto, durante a Marcha pelos Direitos Humanos em Washington (1963), durante a qual proferiu o seu histórico discurso «Eu tenho um sonho», apelando ao fim do racismo. © Rowland Scherman/US Information Agency. Press and Publications Service/Wikimedia Commons.
Isto torna evidente que a doutrina da paz desarmada e desarmante, preconizada em Roma, carece ainda de muita reflexão e muita iniciativa, para não se ficar por uma lenga-lenga interessante. Se assim fosse, seria melhor que não existisse. Por isso mesmo, vários membros da Pax Christi com quem conversei em Roma, aguardam que o Papa avance mais e concretize. Ele poderá dar passos no âmbito do seu múnus, como a proposta que foi feita de ir, por livre iniciativa, visitar o povo e as comunidades cristãs de Gaza, mas terá, sobretudo, de pôr a Curia e as conferências episcopais a trabalhar no sentido da educação para a paz justa e para a não violência ativa, em consonância com o Evangelho.
Ora, alguns sinais que observei mostram que muito há ainda a fazer para passar da teoria à prática. Um deles é que, com a exceção da irmã Nathalie Bécquart, do Secretariado Geral do Sínodo, que passou pela conferência durante uma tarde, membros da Cúria Romana, em particular do Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral, na prática, esqueceram este evento. O Papa, esse, enviou uma mensagem e prometeu uma audiência para breve.
Além disso, uma matéria desta envergadura não suscitou grande interesse dos media, sejam eles tradicionais ou novos. E as poucas referências que surgiram deveram-se mais à intervenção dos dois cardeais, que têm os seus próprios assessores, de do que à conferência propriamente dita.
Outro ponto que se levanta e que merece ser aqui sublinhado é este: o tempo e momento em que a Igreja Católica defende a urgência da paz e avança para posições fortemente antibélicas e, consequentemente, contrárias à corrida às armas, é também o tempo e momento em que o clima de tensões internacionais se agrava, as narrativas belicistas se multiplicam, os recursos financeiros se deslocam para a defesa e a segurança, sem que essas opções estratégicas sejam devidamente discutidas e sem garantias de que as opções correspondem ao sentir das populações. Neste novo quadro, em que se pretende, de novo, reabilitar a TINA (There Is No Alternative, “não há alternativa”), os caminhos da paz eclipsam-se e as agendas políticas e mediáticas só têm espaço para a narrativa dominante.
Os responsáveis religiosos e as respetivas comunidades de crentes têm aqui um papel transcendente de denúncia, de testemunho e de palavra. Que só pode ser a palavra que este Papa está a enunciar, em termos de orientações gerais, mas que está ainda longe da concretização que se exige e que, naturalmente, não pode vir de cima para baixo, naquilo que é preciso fazer e no modo de o fazer. É preciso afirmar, com bases e argumentos que, sim, há alternativas!
Outra coisa que aprendi, nesta Conferência, vai de encontro ao que escreveu, um dia, o monge budista zen Thich Nhat Hanh, que o 7MARGENS recentemente citou como uma das frases do dia: “Não há caminho para a paz. A paz é que é o caminho”. De facto, na conceção de paz que quer o Papa Francisco quer o Papa Leão defendem, ela não é um destino, um objetivo final a alcançar depois de guerras e mortes e vitórias ou derrotas que deixam caminhos pejados de cadáveres, trauma e destruição. Para que a paz o seja de facto, é vital que ela exista no caminho, como metodologia, como atitude e como prática do momento presente. E isso exige um trabalho grande – espiritual, educativo, político – para se conseguir. Não vai ser fácil, mas parece ser o único que nos dá esperança.










