Serão ingénuos ou visionários? Essa poderia ser a pergunta de um observador externo que esta quarta-feira, 9 de setembro, se tivesse introduzido na sala da Universidade Pontifícia de São Boaventura, em Roma, ao ouvir as afirmações convictas e justificadas de leigos, teólogos, bispos e até cardeais de que a não-violência ativa é o único caminho sustentável para uma paz justa.
Mas, se fosse sério e quisesse mesmo escutar, teria de reconhecer que muitas daquelas intervenções que escutou – de gente de diferentes continentes – tinham a marca de falarem do que sabem e que viveram, nuns casos, e de quem se envolveu e estudou comunidades, etnias e povos que adotaram esses caminhos, noutros casos.
Essa foi também a reflexão que o repórter do 7MARGENS não pôde deixar de fazer, ao longo do primeiro dia dos trabalhos da Conferência Internacional “Paz Desarmada e Desarmante – uma mudança de paradigma emergente da Igreja para a não-violência do Evangelho”, promovida pelo Instituto Católico para a Não Violência (ICNV), recém-criado pelo movimento Pax Christi Internacional.
Poder-se-ia pensar que esta organização católica, que há dez anos trabalha no sentido de recolocar a não-violência no centro da vida da Igreja, está sozinha neste esforço gigantesco. Mas não é o caso. A conferência pioneira nessa linha, que organizou em 2016, teve a parceria do próprio Vaticano, já no tempo do Papa Francisco. E, hoje, é o atual Papa a puxar por esta visão (inclusive saudando este encontro, como veremos adiante). E a trabalhar, sem descanso, desde o início do seu pontificado, a proposta da não-violência do Evangelho, “enquanto caminho espiritual, enquanto estilo de vida e enquanto método para a mudança num mundo de violência horrenda”, como observava o professor Ken Butigan, co-diretor do ICNV, no princípio da Conferência agora em curso.
Butigan, que se encarregou de apresentar o magistério de Leão XIV enquanto “mensageiro da paz”, recordou o episódio, que surge no Evangelho de João, dos discípulos traumatizados pela violência praticada contra Jesus, que levou Pedro a desembainhar a espada. Nem aí a resposta foi a da violência.

Ken Butigan apresentou o magistério de Leão XIV enquanto “mensageiro da paz”. Foto © Manuel Pinto / 7MARGENS
Perante a multiplicação de guerras, desastres humanitários, destruições e atentados à vida, o Papa insiste para que as respostas do diálogo, da escuta e da diplomacia adquiram visibilidade e vigor. Lembra a declaração do Pontífice, na conferência de imprensa de apresentação da encíclica Magnifica Humanitas, de que foi através da escuta de especialistas da Inteligência Artificial que para ele se tornou clara a necessidade e urgência de “desarmar a IA”. “Desarmar”, de resto, tornou-se palavra emblemática deste pontificado, segundo Ken Butigan. Além de “provocadora e profética”, ela encerra uma amplitude que inclui as armas propriamente ditas, mas também as culturas e mesmo o coração das pessoas.
O cardeal Charles Bo, que estava anunciado no programa, acabou por não poder comparecer, mas enviou um vídeo denso, testemunhal e de grande alcance, com a sua intervenção. Ele que, como arcebispo de Yangon, em Mianmar, e antigo presidente da Pax Christi Internacional, tem sido, há largos anos, uma voz ativa da Igreja Católica na busca da reconciliação e da paz, no meio dos conflitos armados que afetam o país.
Bo inspira-se em Gandhi quando diz que “o olho por olho faz o mundo todo cego”. Refere também uma ideia de Luther King de que a “a escuridão não vence a escuridão e só a luz o consegue”. Recusa a não-violência quando ela é entendida como “fuga do perigo e aceitação da injustiça”. Do seu ponto de vista ela assenta na “recusa de emular o mal que procura erradicar” e “requer mais coragem do que o recurso às armas para resolver problemas”.

O cardeal Bo enviou um vídeo denso, testemunhal e de grande alcance, com a sua intervenção. Foto © Manuel Pinto / 7MARGENS
O cardeal não tem dúvidas de que, depois de ter sido tomada como uma “escolha de estilo de vida opcional” ou “uma vocação secundária para um grupo restrito”, a não-violência “pertence completamente ao centro da vida e do magistério católicos”. E não pode ser entendida, como Leão XIV enfatiza na sua encíclica, como renúncia ao conflito, uma vez que “ser seguidor de Cristo é estar em constante conflito com o pecado, com a pobreza, o racismo e a guerra”.
Este responsável da Igreja vai mais longe, apresentando linhas para a concretização daquilo que defende. “Operacionalizamos a legítima defesa, hoje, através da defesa de base civil, da proteção civil desarmada e da resistência ativa não-violenta. A história e os dados atuais mostram que, quando as comunidades recebem formação em ‘cooperação não violenta’, conseguem paralisar as forças de ocupação, proteger as populações vulneráveis e desmantelar regimes opressivos a partir de dentro”.
Estas ideias receberam respaldo, nos trabalhos da Conferência, em várias outras intervenções, nomeadamente num painel centrado na municipalidade de Caicedo, na Colômbia, durante a guerra, e também nas intervenções de pendor mais histórico, quer do catalão Marti Olivella, que integrou o primeiro grupo de objetores de consciência ao recrutamento militar em Espanha, em 1975; quer da académica e praticante da resistência civil Maria Stephen, que integra o Conselho Consultivo do Instituto organizador desta Conferência. Voltaremos, noutra oportunidade, a alguns dos conteúdos destes intervenientes.
Note-se que o cardeal de Mianmar salientou ainda que “ao investir na diplomacia, na justiça restaurativa, em redes de alerta precoce para a paz e na ‘desescalada’ sistemática, a Igreja oferece um quadro de defesa que protege efetivamente a dignidade humana, em vez de destruir as infraestruturas da vida”.
“A capacidade tecnológica não confere legitimidade moral. A verdadeira defesa legítima deve ser desarmada nos seus métodos e desarmante nos seus efeitos”, disse ainda. E uma coisa é certa: a Igreja Católica está a deixar cair o conceito multissecular de guerra justa e a assumir que qualquer guerra, tenha a forma que tiver, “é uma aberração no percurso da humanidade”.

Vista da sala da conferência, na Universidade Pontifícia de São Boaventura, em Roma. Foto © Manuel Pinto / 7MARGENS
Mas as questões que levanta a operacionalização das respostas não violentas que propõe são de tal exigência que certamente vão exigir muito mais a todos os níveis. O Papa, citado por Ken Butigan, já foi dizendo: “cada diocese deve promover vias de educação para a não-violência, iniciativas de mediação em conflitos locais e acolhimento de projetos que transformem o medo do outro numa oportunidade para o encontro”. É que, como ele também já observou, o velho provérbio “se queres a paz prepara a guerra” deve ser substituído por este: “se queres a paz, prepara instituições de paz”.
Uma nota final para salientar que o Papa Leão XIV teve esta quarta feira dois gestos de atenção ao trabalho do Instituto Católico para a Não Violência. O primeiro foi uma mensagem que fez chegar através do arcebispo Giovanni Ricchiuti, presidente da Pax Christi Itália, em que saúda a iniciativa e anima a “continuar a missão de promover no mundo uma cultura de paz, justiça e reconciliação, enraizada no Evangelho e testemunhada na vida”. Essa missão deveria, segundo o Pontífice, traduzir-se na construção de “casas de paz”, onde “se aprende a desativar a hostilidade através do diálogo, onde se pratica a justiça e se cuida do perdão”. O outro gesto foi a comunicação oral de que o Papa, não tendo agenda disponível para receber os participantes desta primeira Conferência, receberá mais tarde os responsáveis do Instituto.
Os trabalhos prosseguem esta quinta-feira, 10 de setembro.






