Um dos grandes motivos de interesse da Conferência romana do Instituto Católico para a Não Violência (ICNV) que terminou esta quinta feira em Roma foi o número e a diversidade de experiências e projetos de não violência ativa no terreno, algumas com muitos anos de história. Isso permitiu debater com mais substância e tentar encontrar respostas à pergunta sobre como concretizar a não violência inspirada pelo Evangelho.
Neste segundo dia de trabalhos, os cerca de 120 participantes puderam assim escutar como no Gana, a experiência de grupos cristãos contada pela religiosa Haamalifar Poreku, passa pelo enfrentamento de uma violência que não vem de grupos armados, por exemplo, mas da ação predadora de empresas extrativas do primeiro mundo. Não cuidando da natureza, elas com frequência atuam à revelia das comunidades locais, comprometendo as formas de acesso à agua e à eletricidade e outros recursos, gerando, desse modo, problemas que essas comunidades não tinham. Neste caso, os grupos recorreram ao conceito de ‘divestimento’ que o Papa Francisco utilizou no seu magistério (sobretudo Fratelli Tutti e Laudato Si) para pressionar o recuo em investimentos que se mostram prejudiciais, ajudando as comunidades afetadas a apostar em investimentos em que o cuidado com a criação é acautelado.

A irmã Maamalifar Poreku, a segunda a contar da direita, disse que no Gana a experiência de grupos cristãos passa pelo enfrentamento de uma violência que não vem de grupos armados, por exemplo, mas da ação predadora de empresas extrativas do primeiro mundo. Foto © Manuel Pinto | 7Margens
Outro exemplo veio da Palestina e particularmente da Cisjordânia, tendo sido apresentado por Daoud Nassar, que é diretor do projeto familiar e ecológico “Tenda das Nações”. A família registou as suas terras, nos arredores de Belém, desde o tempo dos otomanos. Recentemente, verificaram-se ataques sucessivos às propriedades e aos seus produtos (azeitona e amêndoa, nomeadamente), cortando as árvores nas vésperas da colheita, com motosserras; abrindo estradões com caterpillars pelo meio dos terrenos; cercando aa quinta de forma a obrigar os habitantes a terem de dar grandes voltas para aquilo que lhes era fundamental tornaram a vida impossível. Apesar das provocações praticamente diárias, as decisões tomadas pelos habitantes foram sempre no sentido de não se resignarem e menos ainda abandonarem o local; nunca se assumirem como vítimas; não odiar; agirem segundo os valores cristãos; e procurarem acreditar na justiça.
Esta forma de resistência pacífica assumida, o cuidado com o ambiente, a hospitalidade aos visitantes e alguns programas comunitários, têm feito da “Tenda das Nações” um espaço criativo que tenta transformar a frustração numa ação construtiva fundada ma fé, na justiça e na esperança”.
Participante propôs que Leão XIV vá de surpresa a Gaza e passe lá três dias

O palestiniano Daoud Nassar, vindo da Cisjordânia disse que apesar das provocações praticamente diárias, as decisões tomadas pelos habitantes foram sempre no sentido de não se resignarem e menos ainda abandonarem o local; nunca se assumirem como vítimas; não odiar; agirem segundo os valores cristãos; e procurarem acreditar na justiça. . Foto © Manuel Pinto | 7Margens
Surpreendente foi, a dado momento dos trabalhos, a intervenção de Pietro Ameglio, um investigador, docente e ativista de origem uruguaia, mas a trabalhar no México. Começando por reconhecer a relevância daquilo que os dois papas mais recentes têm proposto em favor da paz, ele chamou a atenção para a necessidade de audácia nas formas de ação direta e profética, não violentas.
Do seu ponto de vista com o avanço das situações de inumanidade violenta e de genocídio a crescerem cada vez mais nos últimos anos, já não serve a prudência; o que o mundo pede, cada vez mais, nomeadamente da Igreja, é de audácia. “A reserva moral que as sociedades têm e de que a Igreja faz parte, tem de avançar, numa situação em que se instalou a impunidade internacional”, salientou Ameglio.
Neste quadro, ele entende que insistir em ações não violentas não basta; isso é ficar aquém do que as circunstâncias exigem. As formas de ação têm mudar, através da desobediência civil.
E foi neste contexto que disse ser chegado o momento de o Papa “passar das palavras aos atos” e ir a Gaza. Não para celebrar uma missa e vir-se embora, mas para ficar lá três dias, acolhendo e escutando as pessoas. “Ele é o único que tem peso moral para se apresentar na fronteira e não sair de lá enquanto não for recusada a sua entrada”. Já não estamos em tempo de “pedir previamente permissão”.
O pedido formulado por este ativista da não violência, que serviu pelo menos para exemplificar o tipo de ações que entende urgentes, foi secundado por uma salva de palmas. Um participante da Palestina manifestou apoio a esta ideia e um outro propôs que se exortem as comunidades cristãs a lançar “uma corrente de oração e jejum para transmitir ao Papa e a outras autoridades morais a urgência de marcar presença em Gaza (e em toda a Palestina) com representantes de comunidades de todo o mundo”.

Eli McCarthy, referindo-se à intervenção de Israel em Gaza, disse que “a afirmação da legítima defesa militarizada funcionou como favorecimento da violência, em lugar de a limitar” Foto © Manuel Pinto | 7Margens
Uma questão debatida numa das últimas sessões da Conferência equacionou a relação entre não violência ativa e “legítima defesa”. Eli McCarthy, professor num programa sobre justiça e paz, na Universidade de Georgetown, nos Estados Unidos da América, e é autor de obras como Becoming Nonviolent Peacmakers, interveio nesse debate, frisando a ambiguidade do conceito. O exemplo que deu foi o das autoridades e do exército israelita que justificaram o que fizeram em Gaza, considerado um genocídio, como tendo sido feito em “legítima defesa”. Ou seja, como refere McCarthy, “a afirmação da legítima defesa militarizada funcionou como favorecimento da violência, em lugar de a limitar”.
Fundado nas conclusões de trabalhos de duas teólogas, este académico percorre o magistério da Igreja, para concluir que a legítima defesa na guerra não se faz sem atentar contra a dignidade humana, pelo que a solução passará por uma “defesa não violenta”, quer sob a forma de resistência quer de proteção.
Intervindo na mesma sessão, David Kwon, professor de teologia e Estudos religiosos na Universidade de Seattle acrescentou mais alguns elementos, explicitando o que seria (ou, em certos casos, já é) essa proteção, à luz do enquadramento dado pelo Evangelho.
Segundo ele, a resposta sobre quem e o quê proteger é que são certamente as pessoas, mas também as comunidades vulneráveis, o bem comum. Por que meios é feita essa proteção? Pela diplomacia, mediação, direito internacional, resistência não violenta, trabalho civil em prol da paz, justiça restaurativa. E com que horizonte se faz a proteção? Com vista à paz desarmada e desarmante; considerando não apenas as armas, mas também o medo, as imagens do inimigo, os interesses económicos e as estruturas de insegurança.
Segundo este especialista, “os meios de defesa devem responder perante a paz que dizem defender”, sendo que “o objetivo mais profundo da legítima defesa é a possibilidade de uma paz justa”.
Os trabalhos deste Conferência internacional terminaram de forma original. Em vez de uma declaração coletiva com as habituais recomendações, cada participante foi convidado a partilhar com o vizinho do lado aquele ponto que entendia dever ser uma medida ou proposta de iniciativa a tomar, surgida durante os trabalhos. A resposta deveria ser registada num cartão. Seguidamente, organizou-se um cortejo, em que cada qual, ao aproximar-se da mesa do plenário onde se encontravam duas cestas, apresentava aos participantes a sua proposta. Os organizadores têm, agora, um conjunto de sugestões e recomendações que poderão utilizar e analisar, para aquilo que entenderem conveniente.
Cardeal McElroy: “enormes progressos” na doutrina sobre a paz e a guerra
Neste segundo e último dia, mais um cardeal dirigiu – também por vídeo – uma mensagem aos participantes na Conferência. Tratou-se, neste caso, do arcebispo de Washington, Robert McElroy, que sublinhou os passos dados em anos recentes pelo magistério da Igreja, considerando que estamos numa fase de “transição para um modelo baseado na não violência e na construção ativa da paz e da ‘civilização do amor’.
Logo a abrir a mensagem, o cardeal salientou a “notável transformação que se registou no magistério católico sobre a guerra e a paz, nos últimos seis meses”, quer na encíclica Magnifica Humanitas quer nas intervenções que se registaram no Consistório dos cardeais, em junho último. “Foram feitos enormes progressos para a substituição da teoria da guerra justa como a proeminente doutrina sobre a guerra e a paz na Igreja Católica, substituindo-a pela “civilização do amor”.
McElroy considera que o foco na não violência não significa ingenuidade ou passividade. Citando estudos de Erica Chenoweth e Maria Stephan sobre resistência civil, salientou que, em muitos conflitos, movimentos não violentos podem ser mais eficazes do que a resistência armada na obtenção sustentável de direitos humanos. Por isso, considera que a não violência deve ocupar o centro da teologia católica da guerra e da paz.










