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Uma técnica da Cáritas de Leiria abraça uma moradora de uma casa afetada pela tempestade Kristin. Foto Cáritas de Leiria
Uma técnica da Cáritas de Leiria abraça uma moradora de uma casa afetada pela tempestade Kristin. Foto © Cáritas de Leiria

Peditório nacional

Cáritas Portuguesa quer meios para apoiar um milhão de pessoas em privação material e social

| 04/03/2026

A Cáritas Portuguesa espera ultrapassar com o atual peditório público que decorre até domingo, 8 de março, os 228,5 mil euros recolhidos no ano passado, de forma a poder apoiar as pessoas mais vulneráveis da sociedade portuguesa. Na 3ª edição do relatório anual Pobreza e Exclusão Social, o organismo da Conferência Episcopal Portuguesa lembra que em 2025 “mais de um milhão de pessoas vivia em privação material e social, das quais cerca de 460 mil em privação severa”.

O relatório, divulgado nesta manhã de 4 de março, é uma análise de dados recolhidos por várias instituições de estatística, feita pelo observatório da Cáritas na perspetiva de “ler a realidade, tomando como foco aqueles que vivem em situações de maior fragilidade em Portugal”. A organização salienta que no final do ano passado “cerca de 200 mil pessoas não tinham capacidade económica para ter uma alimentação adequada, enquanto 600 mil não tinham capacidade para comprar roupa nova, quase 1 milhão não tinha meios para gastar uma pequena quantia consigo e mais de 1,6 milhões não conseguia manter a casa devidamente aquecida”.

Os fundos recolhidos durante o peditório nacional são, em parte, redistribuídos pelas Cáritas diocesanas e destinam-se a apoiar situações que vão para além das situações de calamidade ou catástrofe. Neste tipo de intervenções urgentes e pontuais refira-se que a Cáritas de Leiria, depois de ter recolhido perto de dois milhões de euros em donativos, lançou uma campanha para ajudar as vítimas da tempestade Kristin, visando recolher sobretudo bens alimentares não perecíveis, produtos de higiene pessoal e de limpeza, que deverão ser entregues no Centro Logístico dos Pousos, ou na sede da instituição, em Leiria [ver 7MARGENS].

De acordo com números fornecidos por aquela Cáritas diocesana, nos primeiros dez dias após a tempestade, a instituição tinha sido capaz de distribuir 37 toneladas de alimentos e produtos de higiene, tendo prestado apoio direto a 337 famílias e acompanhado 200 famílias nas comunidades mais afetadas pelas chuvas e ventos associados ao comboio de tempestades que varreu a região entre o final de janeiro e princípio de fevereiro.

Sob o lema “O Amor que Transforma”, a semana nacional Cáritas e o respetivo peditório nacional tiveram início no dia 1 de março e decorrem até dia 8, envolvendo as Cáritas Diocesanas de todo o país, bem como grupos paroquiais, voluntários e comunidades locais. Durante a semana, estão a ter lugar ações de sensibilização, momentos de reflexão sobre a ação social e iniciativas de animação pastoral, com o objetivo de reforçar “o compromisso solidário de todos” que permite, segundo Rita Valadas, presidente da Cáritas Portuguesa, “manter uma ação continuada junto das pessoas e famílias em maior vulnerabilidade”.

Mensalmente, a rede nacional de Cáritas Diocesanas e os grupos paroquiais acompanham mais de 25 mil pessoas a quem ajudam através de apoio social, respostas sociais, projetos de inserção social e empregabilidade e integração de migrantes e refugiados. “Num contexto marcado pela emergência – sublinha a Cáritas –, o aumento do custo de vida, o desemprego, os baixos rendimentos e as despesas com habitação e saúde continuam a ser os principais fatores de fragilidade” evidenciados pelas famílias em Portugal.

 

Lenta melhoria, objetivos inalcançáveis

o Centro Comunitário de Inserção da Cáritas Diocesana de Coimbra promoveu uma Feira do Livro, Brinquedos e Roupa, fevereiro 2026. Foto Caritas Coimbra

Uma área em que poucos avanços se têm verificado e a que a Cáritas é particularmente sensível diz respeito ao fraco “investimento da sociedade no combate à pobreza infantil”. Foto © Cáritas de Coimbra

No relatório em que traça o panorama da pobreza e da exclusão social em Portugal, a Cáritas reconhece que “nos últimos anos, tem havido alguma evolução favorável nos indicadores” que permitem conhecer a dimensão destes fenómenos, mas classifica essa evolução como sendo “demasiado lenta”. “Em algumas dimensões de exclusão mais profunda, assistimos mesmo a um retrocesso nos últimos anos”, assevera o relatório, que dá como exemplo o “número de pessoas em situação de sem-abrigo, que mais do que duplicou entre 2019 e 2024”, passando de 7.100 para 14.500.

A análise dos dados existentes permite à Cáritas afirmar que “a estratégia multidisciplinar inscrita na Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2021-30 é ambiciosa, mas os objetivos quantitativos para 2030 não serão alcançáveis com as atuais tendências.” De facto, apesar da “evolução globalmente favorável dos indicadores”, ela tem sido “muito lenta nos últimos cinco anos”.

Baixando ao pormenor, refere-se que, por exemplo, “a taxa de risco de pobreza caiu 0,8 pontos percentuais (pp) entre 2019 e 2024, mas precisaria de cair 5,4 pp adicionais até 2030 para cumprir o objetivo da estratégia”. Por outro lado, “a taxa de risco de pobreza dos trabalhadores caiu 0,9 pp entre 2019 e 2014, mas ainda dista 3,6 pp do objetivo oficial”. Esta evolução, indica o relatório, “ocorreu num contexto cíclico favorável da economia, com crescimento do emprego, dos salários reais, das pensões, das transferências sociais e, globalmente, do rendimento disponível real das famílias”, pelo que se conclui que: “Não estão, assim, criadas as condições estruturais para cumprir a ambição da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza.”

Uma área em que poucos avanços se têm verificado e a que a Cáritas é particularmente sensível diz respeito ao fraco “investimento da sociedade no combate à pobreza infantil”, investimento classificado como “muito insuficiente”. “Por um lado, a taxa de risco de pobreza nas crianças em 2024 (17,6%) situava-se acima da média do conjunto da população (15,4%) e muito longe do objetivo de 10 por cento da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza”, recorda o relatório.

“Por outro lado, a taxa de privação material específica das crianças situava-se em 15,1 por cento, um valor acima da média europeia e do registado [em Portugal] em 2021”, continua o documento que conclui afirmando: “O combate à pobreza nas crianças é um desígnio urgente, que se fundamenta em razões de justiça primária, mas também em razões de racionalidade económica. No longo prazo, o investimento na luta contra a pobreza das crianças tem um retorno muito elevado, [mas] Portugal continua a apresentar, no quadro da União Europeia, um dos menores contributos das transferências sociais para a redução do risco de pobreza das crianças.”

Há múltiplos modos de contribuir para o peditório nacional. Através de transferência bancária para o IBAN PT50 0036 0324 9910 0009 2365 3, o envio de dinheiro por MB WAY para o número 910 66 11 33 e via e-banking, ou caixas ATM, ativando o “pagamento de serviços” e preenchendo o campo “Entidade” com o número 33 333 e a “Referência” com o número 333 333 333.

 

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