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Francisco Metrass, Só Deus, Pintura, Arte
Francisco Augusto Metrass, "Só Deus!" (1856). Museu do Chiado. Obra reproduzida da Wikimédia (https://commons.wikimedia.org/wiki/File:So_Deus.jpg)

Música para a Semana Santa cristã

Já ouço a voz do amigo que vem

| 03/04/2026

Não é uma dissertação sobre a morte. Este hino, escrito por José Augusto Mourão (OP), não explica a morte. Não a nega, mas recusa-lhe a última palavra. Longe de qualquer consolo retórico, é uma reordenação do nosso olhar sobre a vida. Não se trata da morte estacionada e celebrada na pedra tumular. A poética de José Augusto Mourão dá voz ao paradoxo de uma morte que é, ao mesmo tempo, êxodo e enraizamento: “Não pode a morte reter-me na cruz / Não pode o mundo arrancar-me à raiz.”

A experiência cristã da morte, neste texto sapiencial, é uma reinscrição do finito num horizonte de fidelidade que o excede. O hino insiste numa continuidade discreta entre o gesto ordinário de viver e a sua abertura escatológica: “Com Deus cheguei e com Ele vou partir.” Não se dramatiza o fim. Sinaliza-se uma trajetória. A vida aparece como um movimento acompanhado, em que a partida prolonga uma comunhão já praticada. Assim, a escatologia cristã não se apresenta como um capítulo final da doutrina. O futuro é uma dimensão ativa do presente e não a espera de um entardecer.

“Não poderá corromper-se a alegria / Não pode o fogo extinguir-se no céu.” O hino desloca a alegria do regime psicológico para o plano teologal. Não se trata de uma forma de humor, mas de participação numa realidade que não se degrada. Esta deslocação tem, assim, consequências éticas – viver no mundo, com as suas ambivalências, sem absolutizar as suas perdas nem idolatrar as suas promessas. Porque a alegria não é anestesia, mas sim lucidez enraizada.

“Não pode a morte apagar o desejo / De ver a Deus face a face e viver.” A tradição cristã reconhece neste desejo a marca do humano, a inquietação que não se resolve na saturação de experiências. O hino formula-o com sobriedade: “A Deus busquei toda a vida e vivi / De acreditar no infinito da vida.” O infinito é a gramática interior da vida – não é abstrato nem separado. Nenhuma noite nos pode escurecer: “Não nos reduz o escuro da noite.” Não sendo negada, a noite é desprovida de soberania. No seu interior, uma escuta se torna possível: “Já ouço a voz do Senhor Deus dos vivos / Já ouço a voz do amigo que vem.” A esperança cristã não se constrói no exílio da experiência do mundo, mas por meio dela, afinando a escuta para os sons que não se impõem pela evidência. A linguagem da amizade corrige a tentação de imaginar Deus como distância absoluta.

“Não pode o mar esquecer o que o salga / Não pode a areia esquecer-se do mar.” A condição de criatura é celebrada na saudade do gesto de confiança original. Por isso, a súplica final não é um pedido de fuga, mas de cumprimento: “Meu Deus, meu Deus, vem buscar-me ao deserto / Que em tuas mãos entreguei minha sede.” A esperança é, pois, a arquitetura interior deste hino: “Abre meu corpo ao devir que não sei / Eu chamo a esperança pelo nome de Deus”. A esperança não é previsão nem cálculo. Nomear Deus como esperança não significa preencher o desconhecido com uma palavra. O futuro é dom, não produto.

O hino cumpre o seu arco de sentido sem o encerrar: “A Tua vida me toma e transporta / Teu sangue inunda meu corpo de paz / Eu vejo as mãos do Senhor glorioso / Nas minhas mãos a memória de Deus.” A linguagem é sacramental. É uma reciprocidade transformadora, sem dissolução. Nesta perspetiva cristã, a morte, que o próprio Deus assumiu, torna-se passagem no interior de uma relação que a antecede e a ultrapassa.

Mas, nesta Semana-Santa, não podemos exilar-nos do grito destes dias. Na Sexta-Feira Santa, as comunidades cristãs acompanham a narrativa memorial da Paixão e Morte de Jesus Cristo, num tempo em que os senhores da guerra insistem na banalização do horror. Neste caminho com o crucificado não podemos deixar na berma a voz de todas essas mortes escandalosas. Essa é a morte que nos envergonha, porque deixamos que a noite tenha a última palavra.

 

Alfredo Teixeira é antropólogo e compositor (UCP-FT)

 

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