O meu filho morreu ao nascer.
Agora compreendo o que alguém disse uma vez, não me lembro quem, importa tão pouco que a gente se lembre quem é que disse alguma coisa que nunca esqueceremos. As mensagens vivem por si só, fluindo e flutuando pela órbita humana de alma em alma. E é por isso que a poesia não é nem nunca será de quem a escreve, a poesia não é o poeta, é a mensagem.
Alguém disse, Quando um filho morre, deixa saudades do futuro.
O meu filho morreu ao nascer, de um dia feliz eu colhi saudades do futuro na ponta de um tridente em brasa. Vi-o sair do ventre rasgado da mãe e era feito de cera, como um anjo que a loucura embalsama nos confins da noite – de todas as noites para sempre.
O meu colo negado, o anjo agredido por tantas batas desesperadas em seu redor, sufocado em balões de oxigénio, os gritos da mãe a chamá-lo de volta para dentro da sua ferida aberta, as minhas mãos fúteis na espera inútil socam o canto do quarto numa tentativa de transferir a insuportabilidade da dor. Depois dos sangues, o silêncio da memória.
A cidade, no dia seguinte, era um labirinto hidroacústico com chão de esponja, cheio de vultos, e o anjo de cera caminhava a meu lado na berma da estrada, nos passeios, pelos parques. Mostrei-lhe a praia onde eu e a mãe o chamámos pela primeira vez. Depois de uma tarde de surf em família, disse-lhe, Foi aqui que eu e a mãe aceitámos o pedido dos teus irmãos para terem mais um irmãozinho. É este o mar que me deixa saudades do futuro em que tu aprenderias connosco a decifrar as ondas, a jogar à bola na areia molhada, a dormir numa sombra refrescada pela brisa, a pescar em noites de lua.
O anjo de cera acompanhou-me até ao registo, tirámos senha prioritária. A senhora do registo parece cansada, olhou para nós com covas de esgotamento no lugar dos olhos e questionou-me por que era que eu tinha tirado a senha prioritária. Porque venho registar o meu filho e ele é um recém-nascido, está no seu direito, não está, Perguntei. E ela a estranhar, Mas, e o bebé não veio. Está aqui, minha senhora, não o vê, é este anjo de cera sentado no meu ombro, tenho aqui os documentos.
O anjo de cera passou a chamar-se Daniel. E o Daniel, depois de sairmos do registo, acompanhou-me até à agência funerária. Mas aí não entrou, eu proibi-o, porque afinal eu ainda era seu pai, Daniel, agora ficas cá fora, ali não é lugar para meninos da tua idade, o pai volta logo. Ele fitou-me com ar de trocista para responder, Mas papá, eu não sou um menino, eu sou um anjo, os anjos não têm medo de entrar nos lugares da morte.
Ao sair da agência já não o encontrei sentado no murinho à minha espera, e andei por todas as ruas da cidade a chamar por si, com força e mais força, toda a força que sobra na voz de um pai com saudades do futuro – Daniel, Daniel, Daniel – gritei e corri até onde a lembrança chega.
Eu devo ter adormecido do cansaço que o vão das buscas me causou, porque a memória reacendeu-se ao acordar-me de um sono no banco da igreja.
Não acredito em Deus, nunca acreditei, que será que me deu para vir aqui parar. Talvez tenha vindo procurar o Daniel nas imediações do altar, ou pregado num mural de arte sacra a fingir-se de desenho.
Como será que eu fui parar dentro daquela igreja? Saber como fomos parar a qualquer lugar é tão menos importante do que saber que esse lugar tem as portas abertas. É como a mensagem e o poeta – qual deles importa, afinal?
O Daniel apareceu de novo pairando à minha frente, com um sorriso de cera a pedir perdão. Então é aqui que te escondes, seu maroto, bom, já que não te posso levar para casa, pelo menos sei onde te visitar. De joelhos dobrados sobre a laje rezei orações que nunca tinha pronunciado – nem percebi como as sabia de cor, ou se as dizia conforme realmente são. E então pedi a Deus que nunca permitisse que qualquer um dos meus quatro filhos vivos partisse antes de mim.

Foto © Ana Sofia Brito.
A minha mãe adoeceu há um ano e viu esgotar-se-lhe o organismo na boca feroz de células indigentes. Não resistiu. Ver os meus filhos crescerem na sua ausência é um sonho que se realiza pela metade. Ontem foi o funeral.
Não acredito em Deus, nunca acreditei, com exceção daquela vez, há três anos, em que fui tratar do enterro do Daniel e estava tão magoado que endoideci ao sair da agência funerária.
A mãe no caixão, tão menor do que antes, feita de cera e toda comida por dentro, longe, tão longe, do país dos meus filhos. O sino e os meus gritos mudos – Mãe, Mãe, Mãe.
Outra cidade a converter-se num labirinto hidroacústico com chão de esponja, cheio de vultos. As ruas percorridas até à igreja, outra igreja, obscurecidas pela memória. Os joelhos de volta à laje, as orações que não sei rezar na ponta da língua, o menino de cera levitante com as mãozinhas pousadas no meu ombro.
Não acredito em Deus, nunca acreditei, mas começo a achar que Deus acredita em mim de todas as vezes que o meu desespero bate à sua porta.
Terminámos a garrafa de vinho e abalámos, cada um por si, após a promessa de nos encontrarmos mais vezes. Todos os reencontros são encontros com alguém que já não é o que antes foi.
Ana Sofia Brito é autora dos livros Em Breve, Meu Amor, O Homem do Trator e A Menina Dança em Dezembro (maio 2024). Lançou em 31 de janeiro de 2025 o livro de poesia Tempo é autora do podcast Direito ao Grito, da Fnac, e assina a rubrica mensal E por falar em livros… no jornal Sul Informação.
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