Ana Sofia Brito

O menino que roubou o chocolate

  Esta manhã, à porta do supermercado, como é habitual, estava um menino que pedia leite. Não era o mesmo menino todos os dias: há um género de organização interna entre os pedintes menores dos bairros do Rio de Janeiro, e vão-se espalhando de modo a ocuparem alternativa e rotativamente, às portas dos estabelecimentos. Compro o leite e...

A leveza da razão

Nunca ninguém irá mudar o mundo, o mundo está em permanente mutação por si só e cada um de nós mudando com ele. A única coisa que podemos efetivamente mudar é a nossa visão e consciência do mesmo. Li, há pouco, um livro que reúne correspondência entre Gandhi e Tolstoi; este último dirigia-se a Gandhi numa das cartas, alegando que a única...

Sacudir a caspa dos ombros

  Na rua sobrevive-se; como se a sobrevivência fosse causa imposta pela própria indignidade da condição humana. Reparem bem: – Meus queridos homens e mulheres, meninos e meninas, peçam licença para ocupar o mundo, mundo esse que por acaso não se lembrou de ter espaço para todos os que vê nascer. Não é só à repetição dos dias e noites que se...

A dançarina em dezembro

  A menina dança em dezembro para aquecer a alma. Dezembro é a dança melodiosa que ilumina a árdua coreografia do resto do tempo. O seu peito trémulo e arquejante espreita ousado para dentro das casas onde lareiras ardem a deitar cheiro, a menina imagina que é os outros meninos no aconchego dos agasalhos, cheios de pai e mãe, cheios de...

Confesso que morro…

  Confesso que morro. Morro em semblantes irresgatáveis, gestos pardos em quedas sinistramente abruptas. Morri nas entranhas da minha mãe quando fui cuspida ao mundo e hei de morrer no louco abismo desse voo. Confesso que morro para sobreviver às horas de tristeza. Estilhaços meus jogados em campas esquecem-se de ser, desmemoriando gotas...

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