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[Entre Margens]

Justiça: deusa com venda de ilusionista e espada de faquir

| 05/07/2026

 

É bem verdade que terminei a última crónica com a promessa de relatar as peripécias ocorridas no interrail de 2002. Mas vai ter de ficar para a próxima.

Também é bem verdade que descumprir tal juramento é delito por demais ténue quando ombreado com o homicídio doloso a que – por raiva, nojo, insuportabilidade, descrença, tristeza e desprezo – me venho referir.

Por isso, caro leitor e leitora, queiram desculpar-me. Não há de ser esta falta que fará de mim criminosa.

Como se a balança já não tivesse desnível íngreme que bastasse, lá estão – mesmo à mão de semear dos juízes – as alíneas e os artigos à espera de um oportunismo aplicável que acentue ainda mais a inclinação da Justiça, essa deusa com venda de ilusionista e espada de faquir.

Diz então o nosso tribunal que Bruno Pinto agiu em legítima defesa com excesso de meios… pasmemo-nos: legítima defesa com excesso de meios. E digo pasmemo-nos porque a decadência de nós apoderada a pouco mais nos permite.

Um povo de alma salubre, onde a ética se impusesse como conceito desempoeirado e literal, teria abafado em consonância a percussão do malhete, num grito estendido para lá de quando a voz nos doesse. Mas estamos tão condescendentes com a invisibilização que nem voz nos sobra para além daquela que grita os golos que não chegam a sê-lo – venerai letárgicos, os que ostentam o vazio que almejais.

“Como se a balança já não tivesse desnível íngreme que bastasse, lá estão – mesmo à mão de semear dos juízes – as alíneas e os artigos à espera de um oportunismo aplicável que acentue ainda mais a inclinação da Justiça, essa deusa com venda de ilusionista e espada de faquir.” Foto: Escultura “A Justiça” em frente ao STF, Praça dos Três Poderes, Brasília, DF, Brasil. © Mariordo | Wikimedia Commons

Legítima defesa, Bruno? Perante uma vítima que nem armada estava. Será que mentir sobre a existência de uma arma branca no bolso do Odair também é legítima defesa? Será quem mente um defensor legítimo?

Evaristo Marinho foi acusado de crime de ódio e muito bem condenado a 22 anos de prisão pela morte de Bruno Candé. Bruno Pinto foi acusado de homicídio atenuado por excesso de legítima defesa e condenado a 3 anos e meio de prisão pelo assassinato de Odair Moniz. É preciso dizer mais alguma coisa ou esta informação basta para sentirmos o sol transpor a peneira?

Esperem … caso ainda haja dúvidas: Consta da ata do julgamento que Bruno Pinto foi, ainda, declarado apto para voltar à atividade policial. Eis o calibre da sentença.

Como é que isto não levanta uma onda gigante de indignação?

Presumo que esteja por aí alguém a dar-se conta de que este caso acontece em paralelo com a divulgação de notícias referentes a movimentos de criminalidade organizada em rede, por grupos de ideologia racista, dos quais constam agentes da própria PSP.

E querem lá ver que esta gente ainda encontra motivos para levar as quinas ao peito enquanto entoa pela pátria lutar, contra os canhões marchar, marchar? Que pátria podre é esta em que os responsáveis pela segurança desatam a limpar sebos por mera exclusão de partes baseada em critérios próprios? Que vitória será esta à qual nos querem levar?

Até quando este heroísmo marítimo será sustentado em categorias? Quão valente pode ser uma nação cujo esplendor enxagua as poças de sangue para simular a imortalidade?

A gente dos bairros é gente como a gente, oh indigentes.

Quem de nós sabe o que é ser perseguido por todos os dias de uma vida inteira, oh semideuses? Que atire a primeira pedra quem acha que não contra-reagiria aos agentes da mesma forma que o Odair, quando na sua situação prolongada.

Com quanta sorte vive aquele que não conhece de cor e salteado a postura dos invasores? São cálculos difíceis de engolir, não é, pouco exatos mas carentes de exaustão para se concluírem.

O mundo lá fora não é um carrossel de oposição entre santos e pecadores, mas só um cego poderá duvidar de que as suas esquinas são fronteiras a demarcar os limites entre territórios de terror e territórios de imunidade atribuída à nascença.

É esta falta de lucidez que origina a falência do coletivo quando se rebuscam mil e uma desculpas, sem pudor nem discernimento, para justificar o injustificável – a não ser justificado pela sede de violência gratuita por parte do criminoso (aliás, dos criminosos, compactuar é um crime de honra).

E eu esgoto-me sem conclusões acerca do que é mais triste: a inversão de papéis do senhor agente, ou o cinismo desavergonhado dos que o desculpam (desculpar, não no sentido de perdoar, isso seria debate para outros quinhentos. Desculpar no sentido de inferir segundo as cócegas das próprias convicções.)

O tempo deu a volta ao mundo e regressou ao lugar de onde, afinal, nunca saiu. A ilusão foi boa enquanto durou – tememos a polícia, tememos dizer a verdade, tememos enobrecer os valores que acreditamos transportar. Quem exponencia a dor dos invisíveis são os silenciados.

Vai na volta amanhã alguém me assalta e venho a precisar deles, o melhor é estar calada. Só que não, falar de um caso, dois ou três, ou quantos forem, não se torna automaticamente numa generalização. E se o tornar, fará esta tese mais assertiva do que o pressuposto.

Se calar é consentir e consentir é ser devorado por dentro, pelas larvas da culpa e do remorso, então falar é expor o corpo à violência que há de chegar – ou já chegou.

Prefiro a segunda opção, pelo menos enquanto as agressões vêm a caminho não sufoco pela consciência.

 

Ana Sofia Brito é autora dos livros Em Breve, Meu Amor, O Homem do Trator e A Menina Dança em Dezembro (maio 2024). Lançou em 31 de janeiro de 2025 o livro de poesia Tempo e em julho de 2025 “Albufeira – Histórias da Nossa Gente“. É autora do podcast Direito ao Grito, da Fnac, e assina a rubrica mensal E por falar em livros… no jornal Sul Informação.

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