[Todos os Santos – Solenidade 2026]
1. Depois de ter sido exposto a sucessivas controvérsias,
Jesus sintetizou as duas faces do amor
purificando os muitos códigos presentes na Lei e nos Profetas;
isto é, amar a Deus com todo o coração, toda a alma e todo o espírito,
e ao próximo como a si mesmo (ver Mt 22,37-40).
Hoje, Jesus faz como que uma declinação desse radical, o amor,
em função das circunstâncias da vida presente dos discípulos.
Tal como Moisés, Jesus subiu ao monte e sentou-se
para ensinar aos seus discípulos a Lei renovada, as bem-aventuranças.
Como discípulos, também nós subimos com Ele a esta Palavra-alta
que nos constitui em comunidade bem-aventurada, alegre e exultante.

[Para ensinar aos seus discípulos a Lei renovada, as bem-aventuranças. Fotografia © Joaquim Félix]
2. Sem esta lei, a das bem-aventuranças, que seria de nós?
Creio que nos faltaria a Constituição cristã, lei fundamental
que faz das multidões despersonalizadas e sem futuro,
um povo que, no presente, caminha e canta a sua vocação à santidade.
Bem-aventurados, bem-aventurados, bem-aventurados…
Causar-nos-á espanto a forma como Jesus tece um futuro apetecível
a partir de condições e circunstâncias que, de todo, o fariam prever?
Quem é que Ele declara bem-aventurados?
De forma paradoxal, contra certas teologias da prosperidade,
Jesus congrega, no bouquet das bem-aventuranças, entre outros,
os pobres em espírito, os humildes, os que choram,
os esfomeados e sedentos de justiça, os perseguidos e difamados.

[Quem é que Ele declara bem-aventurados? Fotografia © Joaquim Félix]
Penso que, hoje, Jesus teria feito mais esta bem-aventurança:
«Bem-aventurados vós que não tendes acesso a uma casa justa
e por esse direito vos manifestais ordeira e pacificamente,
porque sereis recebidos com hospitalidade na casa de meu Pai,
onde não faltam moradas».

[E por esse direito vos manifestais ordeira e pacificamente. Ferreiros, Braga. Fotografia © Joaquim Félix]
3. Num texto que o card. José Tolentino escreveu
a propósito das bem-aventuranças e da santidade,
evidenciou um pensamento que nos fará bem meditar:
«A flor do mundo é a santidade.
Essa forma de Deus presente em todos os tempos,
em todas as latitudes, em todas as culturas.
O que salva o mundo é a santidade:
ela dá flexibilidade à dureza, torna uno o dividido,
dá liberdade ao aprisionado, põe esperança nos corações abatidos,
esconde o pão no regaço dos famintos,
abraça-se à dor dos que choram e dança com outros a sua alegria.
A santidade é um sulco invisível,
mas torna tudo nítido em seu redor.
A santidade é anónima e sem alarde.
A santidade não é heroica:
expressa-se no pequeno, no quotidiano, no usual.
O pecado é a banalidade do mal.
A santidade é a normalidade do bem».

[A flor do mundo é a santidade. Fotografia © Joaquim Félix]
4. O Papa Francisco, na exortação apostólica Gaudete e exultate,
antes de comentar cada uma das bem-aventuranças,
sublinhou alguns aspetos da santidade cristã,
reconhecendo que não faltam teorias e distinções para a explicar.
Sem procurar enumerá-las, centrou-se na explicação de Jesus,
onde se pode colher a essência da santidade:
«Jesus explicou, com toda a simplicidade, o que é ser santo;
fê-lo quando nos deixou as bem-aventuranças (ver Mt 5,3-12; Lc 6,20-23).
Estas são como que o bilhete de identidade do cristão.
Assim, se um de nós se questionar
sobre “como fazer para chegar a ser um bom cristão”,
a resposta é simples: é necessário fazer ― cada qual a seu modo ―
aquilo que Jesus disse no sermão das bem-aventuranças.
Nelas está delineado o rosto do Mestre,
que somos chamados a deixar transparecer no dia a dia da nossa vida» (número 63).

[Fazer aquilo que Jesus disse no sermão das bem-aventuranças. Fotografia © Joaquim Félix]
5. A propósito de algumas características da santidade no mundo atual,
o Papa Francisco enunciou e aprofundou, no capítulo IV, as seguintes:
suportação, paciência e mansidão (números.112-121);
alegria e sentido de humor (números.122-128); ousadia e ardor (números.129-139);
a vida comunitária (nn.140-146) e a oração constante (números.147-157).
Atendendo à experiência da nossa vida quotidiana,
seríamos capazes de salientar mais alguma característica?
Por mim, acrescentaria uma, em sintonia com as palavras
que ouvimos da primeira epístola de São João:
a urgência de gerar a esperança que permeia o tempo e aponta à eternidade,
a de «sermos semelhantes a Deus» (Jo 3,2), numa visão sem espelhos.
Viver de uma esperança assim ajudar-nos-á a limpar as impurezas
que apagam, com violências e desesperos, as visões e os sinais da felicidade.

[A urgência de gerar a esperança que permeia o tempo e aponta à eternidade. Fotografia © Joaquim Félix]
6. Hoje é o dia dos que já se veem como «o que havemos de ser» (1Jo 3,2).Sim, hoje é o dia de todos os santos.
Para os recordar, permiti que declame um poema a eles dedicado
escrito por Maria de Lourdes Belchior:
«Hoje é dia de todos os santos: dos que têm auréola
e dos que não foram canonizados.
Dia de todos os santos: daqueles que viveram, serenos
e brandos, sem darem nas vistas e que no fim
dos tempos hão de seguir o Cordeiro.
Hoje é dia de todos os Santos: santos barbeiros e
santos cozinheiros, jogadores de football e porque
não? comerciantes, mercadores, caldeireiros e arrumadores (porque não arrumadoras? se até
é mais frequente que sejam elas a encaminhar o espectador?)
Ao longo dos séculos, no silêncio da noite e à
claridade do dia foram tuas testemunhas; disseram sim/sim e não/não; gastaram palavras,
poucas, em rodeios, divagações. Foram teus
imitadores e na transparência dos seus gestos a
Tua imagem se divisava. Empreendedores e bravos
ou tímidos e mansos, traziam-te no coração,
Olharam o mundo com amor e os
homens como irmãos.
Do chão que pisavam
rebentava a esperança de um futuro de justiça e de salvação
e o seu presente era já quase só amor.
Cortejo inumerável de homens e mulheres que Te
seguiram e contigo conviveram, de modo admirável:
com os que tinham fome partilharam o seu pão
olharam compadecidos as dores do
mundo e sofreram perseguição por causa da Justiça
Foram limpos de coração e por isso
dos seus olhos jorrou pureza e dos seus lábios
brotaram palavras de consolação.
Amaram-Te e amaram o mundo.
Cantaram os teus louvores e a beleza da Criação.
E choraram as dores dos que desesperam.
Tiveram gestos de indignação e palavras proféticas
que rasgavam horizontes límpidos.
Estes são os que seguem o Cordeiro
porque te conheceram e reconheceram e de ti receberam
o dom de anunciar ao mundo a justiça e a salvação».

[E choraram as dores dos que desesperam. Fotografia © Joaquim Félix]
7. Neste dia de todos os santos,
poderemos nós fazer memória dos familiares, amigos e vizinhos?
Lembrar-nos-emos como Jesus das multidões planas dos nossos dias,
daqueles que sucumbiram no acidente ferroviário junto a Toledo
ou das dezenas de milhar de soldados mortos nas guerras em curso?
Numa despedida sem memória, bastar-nos-á dizer «Adeus»?
Francisca Aguirre, no poema intitulado «Despedida»,
sugere-nos a persistência da memória, ao salientar que
«dizer adeus nunca é suficiente;
talvez despedir-se completamente seja apenas o cessar final
da própria vida enquanto ela escapa
devagar».
8. Quem dera pudéssemos ter visões semelhantes às de São João,
nas noites da História presente, para nos livramos das violências
― praticadas outrora contra as primeiras comunidades cristãs ―,
e, com todos os santos, cantar os louvores de Deus
e de quem, no sangue do Cordeiro, branqueou as suas túnicas.
Porque adiantada é já a hora, teremos visitado os cemitérios
cobertos de flores, de círios e de orações a transbordar dos lábios.
Sem anular estas visões, desejaria falar-vos de uma outra.
Um dia, contemplei o cemitério de Montalegre coberto de neve.
O manto cristalino era um lençol sobre as tumbas de mármore e granito.
Só o rumor da neve na brisa, junto ao campanário, salpicava o silêncio.
Sabeis qual foi o meu pensamento?
Pensei que aquele manto branco eram as bem-aventuranças.

[Aquele manto branco eram as bem-aventuranças. Cemitério de Montalegre. Fotografia © Joaquim Félix]
9. Por falar nos cemitérios, sabemos que quase todos estão saturados
de símbolos da dimensão trágica da vida humana,
de epitáfios e frases de nostalgia e despedida.
Creio que, para além das flores, dos círios e dos anjos,
muito nos ajudaria a cantar o louvor de todos os santos
se neles colocássemos, num lugar de destaque, uma tumba aberta.
Poderia desenvolver-se este símbolo da fé na ressurreição dos mortos
à semelhança da tumba de Jesus, cheia de luz, no jardim pascal.

[Uma tumba aberta. Instalação de Carlo Scarpa no jardim do Castel Vecchio, Verona. Fotografia © Joaquim Félix]
10. Cristina Campo, por cujo apartamento tantas vezes passei,
ensina-nos, através de um poema seu, a dizer «este passo do adeus»,
com uma esperança «cheia de imortalidade» (Sab 3,4):
«Devota como ramo
curvado pelos nevões
alegre como fogueira
nas colinas esquecidas,
sobre acutíssimas lâminas
em branca camisa de urtigas,
te ensinarei, minha alma,
este passo do adeus…».

[Apartamento onde viveu Cristina Campo. Aventino, Roma. Fotografia © Joaquim Félix]
11. Porque somos a geração dos que procuram o Senhor,
cantaremos, ó Deus, os nossos louvores com a multidão imensa,
o «Te Deum» que faz estremecer de júbilo a terra e o céu.
No sangue do Cordeiro, bem no fundo do cálice,
havemos de branquear as nossas vozes despidas,
a cantar a vida que se purifica
em ordem ao que havemos de ser.
Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens e Teorbas da Palavra. Este texto corresponde à homilia de domingo, 01 de novembro, [Todos os Santos – Solenidade 2026], proferida na igreja de São Paulo, do Seminário Conciliar de Braga.










